A SOLUÇÃO EM UM CLICK

A possibilidade de soluções mágicas para seus problemas ou impasses sempre foi um anseio do ser humano. Seja por um piscar de olhos, um estalar de dedos ou o apertar de um botão, quantos não sonharam com a saúde, a riqueza ou a paz? Muitos as quiseram chegando de forma repentina e duradoura e transformando suas vidas. Mas, a realidade é bem outra e é isso o que o filme "Click", uma produção da Columbia Pictures, comédia de aproximadamente 107 minutos e classificação livre, tenta passar.

Estrelado por Adam Sandler, vivendo o estressado workaholic Michael Newman e Kate Bechinsale no papel de esposa do atormentado trabalhador, o filme mostra um marido típico dos dias modernos, que não tem tempo nem para a esposa e nem para os filhos e compromete sua agenda, energia e saúde, tentando impressionar um chefe que não reconhece adequadamente seu esforço. Com tudo isso, o esforçado trabalhador deseja alcançar o que pensa ser uma merecida promoção, mas, as coisas não funcionam exatamente como ele imagina.

O filme começa com a cena do pai tentando adivinhar qual dos vários controles disponíveis sobre a mesa de centro da sala, liga a tevê. É o típico início de comédia pastelão, em que ventilador de teto é ligado, carrinho do filho dispara na sala, portão da garagem se abre e o atordoado pai não consegue executar tarefa tão simples. A cena é emblemática da total inadequação do pai para as situações domésticas. Ele não está ligado neste mundo da casa. O mundo que povoa sua cabeça é o mundo do trabalho.

Mas o filme é mais sério do que parece ser à primeira vista. Vai discutir o tempo todo, através de cenas hilárias e outras nem tanto, a questão do conflito Família X Trabalho. Quando o filho informa que o coleguinha que mora ao lado possui em sua casa um controle universal, nosso workaholic personagem Michael Newman, vê no insight a possibilidade de passar a ter controle sobre sua vida, seus atos, seus compromissos e até sentimentos. O fato é que o trabalho o absorvia de tal forma e ele não tinha tempo para a família.

E ele verbaliza: “Quero um controle que faça tudo por mim. Controle a minha vida, torne tudo mais fácil!” É nesse momento que ele vai conhecer Morty (Christopher Walken), um vendedor maluco, que tem de tudo para oferecer. Na loja de Morty ele encontra a resposta para suas intercessões: um controle remoto misterioso, mágico até, que lhe permite resolver pequenas dificuldades do dia-a-dia, mas com resultados que vão paulatinamente configurando-se desastrados e comprometedores.

Ao ganhar o controle de presente foi informado tacitamente que não poderia devolvê-lo. A crise no lar continua. A esposa sempre questionando seu excesso de dedicação ao trabalho: “Será que depois que você trabalhar e virar importante na empresa terá mais tempo para nós?” Esse é um questionamento que cada casal precisa fazer: o trabalho é importante e, casais jovens, a ele se dedicarão na busca de construir seu futuro. Todavia, não se pode esquecer que o tempo é implacável: o que foi não volta mais e o que vem não será jamais como o que passou! É preciso saber viver com qualidade cada momento de vida.

A desculpa que o atarantado trabalhador dava é que o motivo de tanto trabalho era para dar uma condição melhor de vida para a família. Esta, muitas vezes, tem sido a escapatória de tantos quantos se arremetem de corpo e alma no trabalho e esquecem da família. A crise no lar aumenta. As cenas do filme vão mostrando a incapacidade de Michael Newman arrumar tempo para jantar com os pais, sair no final de semana para o programado acampamento com as crianças agendado há mais de ano, dentre outras situações. A esposa está à beira de um ataque de nervos: “Estou pedindo 10 minutos não a vida toda. Dá para rever a lista de suas prioridades?”

O caricato vendedor Morty, vivido magistralmente por Christopher Walken, serve de contraponto para a alma inquieta do pobre trabalhador. Ao mesmo tempo em que alimenta seus anseios de resolver os problemas, vai cutucando seu ego, soltando farpas, enrodilhando-o numa trama que aos poucos ele vai percebendo fora do controle (sem trocadilhos, por favor!). É exatamente, no auge do uso do aparelho e suas fantásticas prerrogativas: deixá-lo mudo; pular cenas; voltar ao passado em cenas e situações com sua família e amigos; que o controle, gradualmente, vai tomando conta de sua vida e começa a programá-lo deixando-o atônito e estupefacto no que vai compor uma agitada e engraçada comédia.

Uma das grandes lições que o filme passa - embora a proposta seja divertimento, mas com um fundo de reflexão muito propícia para os casamentos hodiernos -, é apresentada pelo antagonista Morty que lembra a Michael Newman que ele “vive atrás do pote de ouro que se esconde na base do arco-íris”, mas quando, finalmente chega ao objeto do desejo, descobre que não passa de cereal. E a gente vai refletindo que a vida é nossa e que nós mesmos é que temos que decidir o que vamos fazer com ela: se vamos viver uma fantasia de progresso e riqueza ou se vamos aproveitar cada minuto com os que amamos para torná-la mais saudável e enriquecedora.

É nessa trama bem urdida do filme que o personagem principal vai descobrindo aos poucos, quanto tempo tinha passado; que perdera várias fases da vida das crianças, nem as vira crescer e se desenvolver; que não vivera os momentos mais interessantes e expressivos da vida em família, como casamento de parentes, até a morte do pai...

A cena em que o filho de Michael Newman informa para ele que seu pai havia morrido é intensamente angustiante:

- “O vovô morreu.”

- “O que aconteceu?”

- “Você nasce, vive, envelhece e morre...”

Michael Newman não se dera conta que as realidades mudam e que ele mesmo não permaneceria eternamente jovem e com disposição para o trabalho e para a vida. O “mito da eterna juventude” tenta contracenar com este novo “mito do controle universal”. As facilidades próprias do ser jovem seriam eternizadas, quando a juventude se desgastasse pelo peso do tempo, pela entrada em cena do controle universal que facilitaria tudo para o pobre trabalhador obcecado em seu intento. O mito do controle universal tira o ser humano da esfera mais importante da humanidade que é a sua fragilidade. Não somos super-homens (Nietzsche) como também não somos o escarro do mundo. Somos seres em permanente construção que precisam reconhecer seus erros e esmerar-se em fazer do futuro algo mais brilhante que o presente.

O tempo não pára e é implacável em seu julgamento. Sempre é tempo de refletir sobre o papel da família na formação do ser e seu valor na estabilidade da vivência social. Família é mais importante que qualquer coisa nesta vida. Sem ela, falta o equilíbrio necessário à experimentação das surpresas e sobressaltos do cotidiano.

Ao fim da película, Michael Newman, arrasado com sua trajetória dorida e vendo escapar o que de mais precioso tem: sua família (pais, esposa e filhos), tem tempo suficiente para refletir nos caminhos errados que percorreu e se arrepender de seus pecados familiares. No hospital, a beira da morte, consegue rever os filhos a quem ama e a ex-esposa que o deixara por um amigo que lhe dera maior atenção aumentando seu desespero afetivo.

Na cena do casamento do filho, quando percebe que o filho está começando a seguir seu caminho, renunciando a uma lua de mel na Itália com a esposa novinha, em favor de compromissos no trabalho ele se desespera e arrancando os equipamentos hospitalares parte em direção ao filho que se distancia no estacionamento tentando convencê-lo a não fazer isso. Às duras penas aprende que a família deve ter prioridade ao trabalho. A cena é dramática e comovente. Esta é uma comédia que faz chorar. Está é uma comédia que diverte e ensina.

Dois fatos são emblemáticos no filme e que nos fazem lembrar que toda família possui seus signos, histórias e emoções. Primeiro a brincadeira (uma mágica com uma pequena moeda), que o pai de Michael Newman sempre repetia e ele pouco valorizava até mesmo chegando a execrá-la e desmistificá-la. Quando perde o pai e com ele o segredo da brincadeira que gostaria de ter repetido para os próprios filhos, se dá conta da perda de tempo e do mau uso da existência. O segundo fato é a frase romântica que sua esposa sempre lhe dirigia com carinho: “Você ainda vai me amar de manhã?” Quando perde a esposa se dá conta do quanto ela faz falta e todo o simbolismo de sua presença, cheiro, vestes, palavras e carinho.

Não vou contar a estratégia do diretor para resolver a questão da realidade e virtualidade no enredo do filme. O “pulo do gato”, para transpor a vida de Michael Newman do desastre para a retomada da vida ativa e prazerosa, está lá no filme, que espero você assista e tire as lições necessárias para o seu casamento. De tudo, vale a máxima: a família é divina e deve ser vivida com alegria como presente de Deus para a existência de todos os indivíduos.

Jess
Enviado por Jess em 19/07/2007
Reeditado em 19/07/2007
Código do texto: T570940