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«Europa» de Lars Von Trier

Alemanha, 1945. Leopold Kessler (Jean-Marc Barr) é um jovem americano de espírito missionário que chega a esse país, derrotado na II Grande Guerra Mundial, para ajudar a sarar algumas feridas e a reconstruir a nação a partir cinzas que esta acumulou. Se a Alemanha é um país à mercê dos Aliados, Kessler é um americano à mercê dos germânicos. Por influência do tio, começa a trabalhar como revisor na Zentropa, uma companhia de caminhos-de-ferro que durante a guerra havia transportado judeus em carruagens de gado para os campos de concentração e que após o conflito começa a transportar oficiais americanos em primeira classe.

Kessler chega com intenções pacíficas, mas rapidamente se vê envolvido em processos menos lícitos e mortes que parecem denunciar a intromissão forasteira que ele representa. Ao apaixonar-se por Katharina Hartmann (Barbara Sukowa), uma apoiante de um grupo terroristas conhecidos como “Os Lobisomens”, ele está desde logo a comprometer a sua imparcialidade e a interferir no destino político do país. Não é com surpresa que Kessler acaba por se aproximar daquele grupo, sendo aliciado a colocar uma carga explosiva por baixo de uma carruagem.

Se a acção de Europa (filme de 1991) é centrada unicamente em território germânico, é apenas porque a Alemanha é nesse momento o reflexo do chamado Velho Continente. Lars Von Trier constrói toda a sua obra em crescendo (à semelhança da contagem de 1 a 10 no primeiro plano do filme) e utilizando uma estética radicalmente diferente de tudo o que fez a partir de Ondas de Paixão (1996). Aliás, em termos formais, esta terceira longa-metragem para cinema de Von Trier é um cruzamento entre os seus dois filmes anteriores, O Elemento do Crime (1984) e Epidemia (1987). E é também o final de um ciclo na sua obra. Em 1991, o realizador dinamarquês ainda não tinha aderido à câmara de mão. O seu olhar cinematográfico de então impunha uma composição de enquadramentos fixos e o uso de filtros na fotografia para criar uma atmosfera mais estilizada, revelando ainda um evidente fascínio pelo preto e branco.

“A minha voz vai guiá-lo” começa por dizer o narrador (Max Von Sydow), a única figura (não visível) que existe antes e depois de conhecermos a Europa que o filme projecta. É esta voz “superior” que se ouve sempre em planos top shot e nos travellings a girarem à volta das personagens que o narrador observa e manipula. É também esta voz imperturbável que antecipa os movimentos de Kessler e que faz inúmeras contagens de 1 a 10, não para adormecer a personagem central, mas para fazê-la despertar. São constantes as cenas com candeeiros acesos, numa tentativa de iluminar um país ensombrado e uma personagem à deriva. Se os espelhos apresentam os rostos que a câmara não filma directamente, pelo contrário, do interior do comboio, os superiores de Kessler procuram sempre tapar a imagem exterior do país, talvez para evitarem a contaminação da morte e do desespero por entre os passageiros. Há momentos, no entanto, em que o comboio parece estar a transportar a própria nação, com todas as suas misérias e revoltas e uma nova sensação de impotência.

O filme demonstra que não só é impossível salvar a Europa, como também é impossível destruí-la. O olhar da câmara é próprio de quem, à imagem de Kessler, nunca viveu a guerra, tendo chegado a ela tarde demais. Face à indecisão e imobilidade das personagens, por vezes só a câmara (ou o narrador) é que avança por onde aquelas receiam intrometer-se. A cor ora se dilui ora se destaca no preto e branco, mas aparece sempre nas sequências de amor e morte, de encontro e separação. Na verdade, este é um filme que parece ter um olhar oculto em cada plano, um olhar que envolve as personagens e que as impede de escolher um caminho diferente daquele que todas elas pressentem estar já traçado.
Luís António Coelho
Enviado por Luís António Coelho em 30/11/2017
Código do texto: T6186598
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Sobre o autor
Luís António Coelho
Loures - Lisboa - Portugal, 39 anos
10 textos (43 leituras)
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