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Resenha: Rabbits (2002) – David Lynch, uma análise psicológica, filosófica e estética.

Rabbits é um sitcom produzido e criado por David Lynch, um conhecido diretor que tem em sua filmografia obras no mínimo diferentes, que exploram o surrealismo, o estranho,o bizarro, e Rabbits não foge ao padrão . Segundo o próprio diretor a história pode ser explicada
assim: “em uma cidade sem nome, castigada por uma chuva contínua, três coelhos vivem com um mistério pavoroso”.

Vou focar minha análise em alguns aspectos que consegui observar, e também nas reações que o seriado me fez ter, pois como desconfio, por mais que tentemos compreender racionalmente essa obra, provavelmente a intenção do Lynch foi causar o estranhamento, jogar o telespectador em um estado de angústia onde o racional não abarca totalmente a experiência.

Primeiro é interessante pensar nos aspectos mais estéticos, a fotografia é escura, com tons neutros e mortos, predominando quase sempre o azul, e nos momentos mais impactantes surge um laranja hipersaturado, jogando quem assiste em um tipo de distorção, sensação muito semelhante de uma reação negativa ao uso de alucinógenos, a famosa “bad trip”. Os sons também trazem essa sensação, o tempo todo ouve-se ao fundo uma chuva, com uma trilha sonora feita em um órgão bem a la fantasma da ópera, e de ruídos do ambiente, tem-se os passos angustiantes do coelho “pai”, as batidas na porta, os sorrisos prolongados e colocados de maneira desconexa nas frases.

 Já em relação as falas, vemos conversas aparentemente sem sentido, frases que parecem embaralhadas, que remontam a algo que possa ter acontecido, a uma pessoa que é citada quase o tempo todo mas não chegam a dizer quem é ou qual a importância dessa pessoa, juntando a isso temos as referencias ao tempo, sempre chuvoso, e sempre a noite, sendo que no decorrer da história vai entardecendo, chegando ao ápice de dar meia-noite.

Os comportamentos das personagens também são outro fator desconcertante, ao mesmo tempo que vemos uma família “normal” americana, um pai voltando do trabalho, uma filha sentada em uma casa, e uma mãe passando uma roupa, também podemos ver uma família totalmente disfuncional, com uma comunicação que não ocorre, atitudes bizarras, monólogos sem sentido, e momentos no mínimo angustiantes, como naqueles onde a porta é aberta e não se vê ninguém lá fora, ou quando a mãe aparece com as luzes e uma voz demoníaca começa a falar coisas incompreensíveis.

Como disse no começo do texto, desconfio que a intenção do Lynch foi justamente essa, trazer uma situação corriqueira e unir elementos totalmente desconexos, jogando quem assiste em uma angústia sem fim, e como temos a tendência a buscar padrões, pois o desconhecido nos coloca em um campo inseguro, acabamos por vivenciar um misto de sentimentos confusos, pois ao mesmo tempo que nos identificamos com as cenas, enxergamos nela o grotesco em sua forma mais bruta.

Levando em conta a filmografia do diretor, desconfio que sua intenção foi essa, trazer de maneira grotesca uma análise da própria condição humana, mostrar como o comum pode ser também bizarro e amedrontador quando olhamos mais de perto.

Mas como falei, tentativas de explicação refletem apenas uma resposta de proteção, minha intenção nesse texto é explorar justamente as sensações que o sitcom me passou, e como elas podem falar sobre a maneira como lidamos com o diferente,para isso, vou trazer algumas simbologias que me chamaram atenção, e tentar pensar mais profundamente a respeito delas.

A porta:  Vamos a ela, sempre que essa porta se abria eu me arrepiava, e no final quando ficaram olhando para ela e não aparecia ninguém quase tive um infarto. Pensando a respeito, percebi que ela me trouxe tanta angústia pois ela era o único contato com o mundo exterior, que parecia não existir, pois as pessoas e situações do lado externo a aquela casa jamais eram mencionadas, dando a impressão de que aquela sala era um tipo de purgatório, ou quem sabe o próprio hades.

A sala: Como já adiantei, foi inevitável a relação com a morte, os personagens estavam presos em um looping de repetições, em uma realidade aparentemente destruída, com uma noite que nunca passava, sem levar em conta a parede pegando fogo sempre que ocorriam os monólogos no mínimo bizarros, com temas mórbidos, e aquele demônio falando no ar enquanto a casa pegava “fogo” ( simbolicamente representado com a fotografia muito avermelhada e desfocada).

As personagens: Olhar elas me trouxe ao mesmo tempo uma sensação de familiaridade e de tristeza, eram “pessoas” que não resolviam seus conflitos, viviam em um simulacro morto, sem novidades, sem vida.

-O que esses elementos podem dizer indiretamente? Uma análise Psicológica

Como já mencionei antes, se formos analisar por um viés psicológico, os curtas são uma experiência que joga o telespectador em um estado de angústia, justamente por nos colocar com elementos que não estão claros, abrindo espaço para projeções pessoais, sendo que estas projeções estão vinculadas a um condicionante que faz questão de nos jogar em estados totalmente confusos, colocando nossa segurança existencial em jogo, não é atoa que esse conjunto de curtas foi usado em um experimento psicológico, e se constatou que pessoas que o assistiram, tiveram pensamentos negativos depois, pois de fato, a atmosfera nos joga diante de nossos próprios temores.

Em relação a isso é interessante pensar o poder que as mídias tem, pois não apenas assistimos a elas, mas interagimos com ela, sendo assim, não somos passivos no ato de assistir, e por ser tratar de um contexto de um antropomorfismo, ou seja, animais simbolizando humanos, temos a tendência de nos colocar na situação, muito semelhante a testes psicológicos que usam a imagem de animais para que a pessoa diga o que vê na cena, e a partir das respostas, ir encontrando redes de sentidos construídos dessas percepções. Levando em conta esse fator, provavelmente as experiências vão ser muito particulares, tornando cada olhar único acerca do filme.

-Uma possível análise filosófica

Nossa cultura é muito marcada pelo racionalismo, o próprio fato de eu estar produzindo esse texto denuncia isso, pois é mais fácil racionalizar uma experiência pois colocamos elas em padrões seguros de compreensão, do que vivê-la e deixar os sentimentos falarem por si só, fazendo aquilo que Heidegger chamaria de serenidade, deixar-se tocar pelo fenômeno, e sem pressa, apreender seus sentidos mais profundos.
 
Isso traz uma reflexão visível, Lynch joga com o absurdo, pega as expectativas de quem vai assistir e reverte elas, denuncia a ausência de sentido incutida no cotidiano, trazendo aquilo que Camus defende em sua tese filosófica, ao dizer que fundamentalmente a vida não tem um sentido prévio, e junto a isso temos também uma forte presença de um psicanálise Freudiana, com conteúdos que podem sugerir neuroses, disfunções psicológicas, e simbologias que a luz da psicologia analítica de Jung, nos remonta aos arquétipos culturalmente aprendidos e introjetados em nosso inconsciente coletivo, como a noção de demônio, simbologias atribuídas ao medo, a morte, etc. As influências psicanalíticas apenas reforçam a tradição surrealista que o próprio Lynch segue em sua arte, sendo um traço comum essa abertura ao inconsciente.

-Rabbits como uma exaltação do grotesco

Como disse, Rabbits parece ser mais uma experiência do que algo para ser compreendido, sendo assim, acredito que caiba mais deixar-se afetar, por mais que os sentimentos que surgem possam ser bem ruins de início, mas Rabitts é um meio interessante de não apenas perceber as próprias angústias projetadas no filme, é também uma forma de mergulharmos em um tipo de arte que explora o grotesco, Rabbits trouxe com maestria os elementos do terror e os utilizou de uma forma que joga quem assiste em uma imersão total, pois não usa de modo exagerado de jump scares, e prefere o caminho mais lento, de preparar quem assiste, insere vagarosamente no ambiente, vamos criando empatia pelos personagens, e quando percebemos, estamos totalmente envolvidos, nos sentindo parte daquele mundo distópico, depressivo, disfuncional, deixando o telespectador com uma sensação desconfortável, mesmo depois de ter assistido.
Thales Coelho
Enviado por Thales Coelho em 23/07/2019
Reeditado em 23/07/2019
Código do texto: T6702324
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Thales Coelho
São Luís - Maranhão - Brasil
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