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Resenha: Fúria de Titãs 2(Wrath of the titans 2012) e a filosofia antiga

Essa resenha tem o objetivo de fazer uma análise dos pontos históricos e filosóficos por trás da trama do filme, ressaltando alguns aspectos e sua relação com os elementos simbólicos presentes na história.

Primeiro vamos falar do tema central da história, que narra o enfraquecimento do poder dos deuses, tendo como consequência a queda deles e o possível retorno de Cronos, o primeiro titã, que voltaria para destruir a humanidade. Nesse breve resumo podemos destacar vários pontos, entre eles temos:

A “morte” dos deuses

O pensamento grego arcaico foi fortemente marcado pelos poemas de Homero, que era o principal educador de sua época, em suas narrativas épicas ele ensinou o povo grego sobre o início do universo, a organização do mundo, etc. Seus poemas não narravam apenas um conjunto de histórias fantasiosas, para os gregos arcaicos aquilo era visto como uma religião, semelhante ao que encaramos hoje com o cristianismo por exemplo.

Esse primeiro momento da história da Grécia é conhecido como pensamento mítico, sendo os guerreiros figuras influentes, representando o ideal de virilidade e de organização social, os poetas como representantes diretos dos deuses, e os reis seres sagrados, parentes diretos dos deuses. O pensamento foi se modificar apenas séculos depois com o surgimento dos primeiros filósofos, sendo algum deles Tales de Mileto, Anaximandro, Anaxímenes, Pitágoras, Parmênides, Heráclito, entre tantos outros.

O que eles tinham em comum era uma mudança significativa na maneira de se pensar a sociedade, se antes os deuses eram o centro do poder, agora o logos ( a razão) dama ao homem a possibilidade de ele pensar por conta própria, e a origem do universo passou a ser explicada através de elementos da natureza, significando uma mudança significativa na maneira de se pensar a cosmologia e a ontologia do homem.

Nesse período o poderio dos guerreiros passou a dar lugar aos pensadores, e a polis grega passou a se organizar através dos debates em praça pública, marcando uma maior independência dos homens em relação aos deuses.

No filme isso fica bem marcado quando se fala que os deuses estão morrendo, pois os homens estão parando de rezar por eles, claro que de maneira lúdica o filme trás isso como um esvaziamento de poderes, mas se formos levar pelo aspecto histórico, essa fala traduz bem uma mudança no próprio modo de se pensar socialmente, como já foi explicitado antes.

A atitude de Perseu

Ele como o protagonista carrega uma responsabilidade interessante, ao mesmo tempo que encarna o típico arquétipo do herói grego da era clássica quando os poemas homéricos eram a única forma de conhecimento, também traduz um repúdio a esse lugar, negando em vários momentos do filme a posição de semideus, mostrando de maneira simbólica como a aproximação com o aspecto mais humano trás essa mudança na própria maneira de ver o ser humano de sua época.

Os conflitos entre humanos e titãs e a aliança entre deuses e homens

Curiosamente o filme começa com Ares e Hades  se unindo contra os humanos, libertando Cronos, e no decorrer vemos Hades mudar de lado e apoiar Zeus na defesa dos humanos. Esse conflito ilustra muito bem um período transitório de uma Grécia que via o pensamento mítico morrer de pouco a pouco, dando lugar a uma soberania do homem.

Os símbolos utilizados

Nesse ponto vemos algumas curiosidades, entre elas temos a simbologia do tártaro como sendo uma caverna, historiadores já trazem isso como um elemento simbólico, de que os gregos arcaicos realmente acreditavam que nas cavernas existiam entradas para o tártaro.

 Já o minotauro  trouxe um aspecto interessante dos gregos, o ideal de beleza e virilidade. Para os gregos os heróis, deuses, personificavam a imagem do corpo atlético, de beleza invejável, e o contrário disso era visto como a personificação dos monstros mitológicos.

Não seria diferente com minotauro, portador de uma anomalia, meio humano e meio touro, com lábios leporinos ( uma doença genética), um homem fora dos padrões de beleza que fora animalizado por sua condição peculiar ( mostrando como as pessoas com deficiência historicamente são tratadas).

Por fim temos Cronos, que aparece através de um vulcão em erupção, uma maneira bastante simbólica de demonstrar a força da natureza em sua maior capacidade destrutiva, bem coerente com o pensamento do período.

A Maneira como se abordou o tema

O filme tem suas liberdades poéticas, e trás uma abordagem moderna sobre a mitologia grega, encarando-a como um conjunto de histórias fantasiosas, postura essa que não é atoa, pois o pensamento grego sofreu fortes mudanças desde Homero, mas a supressão real do valor religioso do mito grego se deu com a supremacia do pensamento cristão quando chegou a Roma, que em um processo histórico desqualificou o significado do poder transcendental dos mitos.

Incoerências na história

O filme em si é bem interessante, tirando algumas falas sem sentido como quando Agenor cita o inferno, sendo que eles viviam em um período antes de Cristo, e inferno é uma noção cristã, logo, não faz muito sentido historicamente.

Outra incoerência é em relação ao minotauro, que aparece no tártaro, sendo que ele pertence ao labirinto de outra cidade grega em um contexto completamente diferente daquele.

Por fim...

 Relevando pequenos pontos como esses é olhando a obra em seu valor de aventura, é uma boa distração, para os olhos mais atentos podem surgir várias incoerências, mas nada que estrague a experiência, podendo servir de análise inclusive, essa foi só uma pequena tentativa, provavelmente tem vários outros pontos que podem ser analisados.
Thales Coelho
Enviado por Thales Coelho em 04/09/2019
Reeditado em 04/09/2019
Código do texto: T6737462
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Thales Coelho
São Luís - Maranhão - Brasil
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