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Fahrenheit 451

Sempre ouvi falar do filme Fahrenheit 451 como um clássico, uma adaptação do livro de Ray Bradbury, dirigido pelo saudoso François Truffaut, sem dúvida um dos melhores diretores de todos os tempos. Mas mesmo os grandes tem seus dias não tão bons. E acredito, espero eu, já que ainda não assisti a todos os filmes de Truffaut, que Fahrenheit 451 seja o caso. O filme não é ruim se olharmos para a época que foi realizado, já há mais de 50 anos, com fotografia parecida com filmes de outros gênios da sétima arte que fizeram filmes com a mesma estética na época, tais como Fellini e Antonioni, mas para um clássico falta muito. É interessante compará-lo com a época em que vivemos, em especial no Brasil, onde existe uma distopia em vários sentidos, inclusive na tentativa de segregar a arte. No filme, a arte é representada pelos livros, que se encontrados, são queimados e seus donos são interrogados como se tivessem cometido um crime bárbaro, simplesmente por ler um romance, uma biografia ou qualquer tipo de livro. Os bombeiros são utilizados não mais para apagar incêndios, já que as casas são à prova de fogo, pelo menos a maioria, mas eles são convocados para queimar livros. O filme nos apresenta um bombeiro que vive de acordo com o sistema, Guy Montag (Oskar Werner), cuja função é queimar os livros, que, segundo o poder local, trariam infelicidade às pessoas. Ele parece viver uma vida feliz assim, com sua esposa Linda (Julie Christie) e suas efemeridades, baseadas em programas de televisão inúteis, mas que visam manter a alienação dos telespectadores, algo muito parecido com o que acontece hoje também, até que certo dia, voltando do trabalho, é questionado pela vizinha Clarisse (Julie Christie, em papel duplo), sobre a troca de função dos bombeiros, de apagar incêndios para criá-los, mas Montag parece surpreso com a indagação de Clarisse. Mas o insuspeito Montag esconde um segredo, que poderá custar sua própria vida. Ironicamente, há um lugar que Montag ouve falar que pode ser sua salvação, a Terra dos homens-livros, onde as pessoas tem nome de livros que decidiram decorar, para não correrem o risco de terem as obras destruídas eternamente, e eles se comprometem a repassar os livros decorados para outros que seguirão a mesma sina, até que possam de novo imprimir livros. Embora François Truffaut transmita até certo ponto a distopia do livro de Bradburry, ele vai por um caminho mais fácil, dos diálogos rasos, das cenas impactantes, talvez pelo fato de ser seu único filme falado em inglês, o que se tornou um problema. Não sei se o filme foi superestimado, ou se ele se tornou datado. Fizeram uma refilmagem que ainda não assisti, então nem vou entrar neste mérito. O ponto positivo do filme, ainda que eu ache que tenha sido involuntário, foi mostrar como as pessoas se deixam levar pelas aparências e se deixam moldar por fake news, seja pela televisão ou internet, algo que nem se sonhava em 1966. A crítica à TV é claramente um apelo. Embora já existisse sistema de televisores desde o fim dos anos 20 e início dos anos 30, a televisão se popularizou depois da Segunda Guerra (O livro de Ray Bradburry foi lançado em 1953) e só em 1962 é que foram feitas as primeiras transmissões via satélite de um continente para o outro. Era uma ameaça ao cinema, mas a ameaça maior Truffaut não chegou a ver, a internet e os serviços de streaming, já que ele morreu em 21 de outubro de 1984. Todavia, é possível que ele se adaptasse a estes serviços, assim como outros diretores, tais como Martin Scorsese. Truffaut era um gênio da arte do cinema, como mostra o início do filme, quando os créditos são falados e não escritos, um prenúncio do que mostra o filme e a visão bastante otimista no final, que se não dá o tom do restante do filme, se apresenta satisfatório. Não é o melhor filme de François Truffaut. Mas oferece uma oportunidade de pararmos um pouco e pensar nas informações que recebemos, seja qual for o meio de comunicação utilizado, e o que vamos fazer com elas.
 
 
 
Parzival
Enviado por Parzival em 29/06/2020
Reeditado em 03/07/2020
Código do texto: T6991641
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Parzival
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