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Um dia escreverei sobre você OU No Jardim dos Minicontos

Um dia escreverei sobre você OU No Jardim dos Minicontos
Sep 26, '10 3:33 AM
para todos
Os livros pontuam minha vida; primeiro os dos outros, depois os meus.
Explico: em primeiríssimo lugar sempre e desde quando me entendo por leitor, os livros dos outros, que se tornaram meus ao completar-se deles a descoberta, povoando-me os sonhos, tornando-se parte de mim e alicerce daquilo que sou.
Depois, bem depois, os meus. Primeiro porque vieram depois. Nesta semana, naquela que é a coincidência mesma deste texto, segurei pela primeira vez um rascunho impresso em formato de livro, do meu segundo, que o primeiro já lá se vão cinco anos. Cinco anos! Uma eternidade para quem se imagina escritor! E depois, também, na ordem de preferência, que tenho autocrítica, apesar de amar toda e cada uma daquelas crônicas, como filhos imperfeitos, paridos, idos, mas representativos.
Mas já falei, aqui e ali, das referências literárias - elas abundam em meus textos, grifadas, itálicas ou meramente a aspergir, aqui e ali, notas de sua essência. Hoje quero falar desses maus livros, e, se der tempo, dos que não terminei e dos infinitos, dos que esqueci.

(E antes de tudo, como uma oração, faço meu tributo a Lucien, bibliotecário do Sandman, pois sei que nada crio em solidão, apenas retiro, das estantes dos não-escritos, os títulos que me instigam.)

"boonoonoos" é minha homenagem a excessos que cometi, ou assisti, ou dos quais meramente ouvi falar, nas cidades em que vivi, transformados em ficção. É sobre mim mesmo, apesar de só haver 3 contos autobiográficos nele: os 3 primeiros, o 7º e o último - e, convenhamos, nenhum deles totalmente realista.
"A Cadeira No Penhasco - Crônicas" define um outro período, e retira, em parte, o olhar de meu próprio umbigo em direção ao mundo. São textos que escrevi para a grande imprensa (caderno Almanaque d'O Estado do Paraná), para o GehSpace (conjunto de revistas eletrônicas de Joinville), e para o meu próprio blogue.
Tenho um romance, em andamento, lento e desastroso, há uns dez anos ou mais. Os primeiros esboços distam quase vinte anos no tempo, que se encarrega dia a dia de me distanciar do projeto. A primeira parte, pronta, é publicável, e segundo meu pai e amigos, é muito legal.
D'outra feita escrevi um conto muito louco, de ficção científica, seguindo todos os passos e jargões do tema, propondo uma teoria científica plausível, passado todinho na cabeça de uma menina com paralisia cerebral, restrita ao leito. Virou uma novela à parte, que pretendo publicar como um folhetim (na acepção da palavra), na sequência das crônicas.
E tem o livro do meu avô, cuja biografia eu queria muito escrever, ou dotar, pelo menos, de um (bom) ensaio. Para isto preciso de algum preparo, dar-me o tempo de estudar os documentos que possuo e aprender um pouco mais sobre a Arte Brasileira no período para poder entender melhor o trabalho do grupo de meu avô e seus amigos. "O pior" - talvez não - é que deveria estar pronto para o ano que vem, festa dos 100 anos de Carambeí. Vamos ver se dá tempo.

("Mas faz o que a personagem, trabalha com alguma coisa, tem emprego, luta pela vida?", perguntaria meu amigo, o velho comunista...)

"boonoonoos" é uma coletânea de histórias de amor. Amor de amigos, de amantes, de parentes; amor puro e desinteressado que só devotamos aos animais; amor que move a vida e fere a alma e é o último reduto, o único inalcançável - se assim o quisermos! - da nossa liberdade individual. "Só somos nós mesmos em relação a um outro", dizia o Roberto Freire; então não fujo do vexame de admitir que cada amor que tive marcou-me a fronte, me definiu.
"A Cadeira..." é vexame ainda maior - aquele do escritor que, vez por outra, acredita que tem algo a dizer. E o diz. Por isso a angústia de vê-las todas, as crônicas, perfiladas num sumário, espalhadas em um mesmo volume: já que deu tanto trabalho dizê-lo, permita-me ser ouvido. Já que pus ali, em cada texto, um pouquinho da minha alma, o empenho do meu amor pela escrita e pelas palavras e pelo sentido que delas emana - permitam-me amar mais gente através dessas ideias, que um dia ecoaram de maneira tão forte dentro de mim que se espalharam à volta das páginas, pelo cotoquinho de lápis encheram a mesa de garatujas, pela força de seu impacto carimbaram trajetórias na parede, sujaram o lustre e o chão, deixaram-me exausto e realizado e feliz.
"www-u", o tal sci-fi tale de que já falei, é fruto de meu interesse pelo processo de formação de comunidades e pela noção de telepatia. É farinha de outro saco, em relação aos outros textos todos - às vezes penso que nem é meu, hehe - é de outro planeta, mermão. Mas é também sobre o amor, ou sobre como aquilo que amamos impregna a nossa mente de forma tão concentrada que se transforma o próprio mundo em que vivemos.

(“A WOMAN waits for me--she contains all, nothing is lacking, Yet all were lacking, if sex were lacking, or if the moisture of the right man were lacking")

O romance, você está perguntando? Ai... Preferia que você tivesse esquecido. O romance começa com Whitman e deveria terminar com Borges e Bioy Casares, os dois argentinos do título (que eu não vou contar), misturar Brasil e Australia, ficção e memória, jovens na casa dos vinte, cheios de esperança, e quarentões sonhadores, jogando suas cartas como se fossem as últimas.
Tudo isso, penso eu, para encobrir uma mesma e única história, que eu prometi a mim mesmo contar há tantos anos, que agora nem sei mais se a conheço de maneira profunda (ou inteligente) o suficiente para completá-la. Mas não me importo mais. Levaria tranquilo mais vinte anos para completá-lo se soubesse que iria ficar bom.
Porque nessa história toda do meu envolvimento com a literatura, sofrendo as mesmas incertezas de meus predecessores, em especial os que tiveram que ganhar a vida enquanto escreviam, o que sempre importou, para mim, foi buscar a qualidade, ou, na falta desta, o capricho.
Coisa que vale para a vida, não?

("Quando encontro forças para falar, as palavras não saem, não como eu gostaria, mas são despejadas assim mesmo, enquanto eu tiro a toalha e entro no banho, de novo, também:
'Sabe... eu queria... mudar de vida', diz ela. 'É, é isso. Esta não é a vida que eu sonhei para mim.'
Estremecemos embaixo d’água, apesar do calor, e um arrepio me corre pela espinha enquanto eu a beijo.")

Há um tempo atrás comecei a escrever alguns esquetes aqui no blog, tudo arraia miuda, como diria o Zé, que chamei, à falta de nome melhor e/ou por achar que alguém já os havia batizado assim, de minicontos. A maioria tranplantei, depois, para um volume manuscrito, de capa dura, que uma dia será de D. Nylce: chamo-o "O Jardim dos Minicontos". Foi lá que (re)encontrei o amor, pela escrita e pelas histórias, perdidas em pequenos fragmentos que desisti de guardar comigo - precisava contar, pelo menos a uma pessoa.
Escrever para quê, pergunto ainda nos dias cinzentos da mais absoluta falta do que dizer. Escrever para quem, quando entro aqui no servidor e vejo quão menos se publica hoje em dia, expressão clara do início do fim dos tempos. Para nós que nos acostumamos a blogar, eu digo. Escrever o quê, indago ao ver as portas escancaradas para o vazio, o hedonismo ingênuo, a achação de opinação - onipresente. Escrever-o-quê?
Tuítes? Notinhas para o facebook? Ou voltamos aos emails pessoais, ao estrito P2P do início do século?
Os minicontos me surgiram como resposta, então; se não em termos de conteúdo, em roupagem fashion. São curtos - bah! - têm ritmo, aceitam bem a poesia dos flashes cotidianos e são sempre um desafio em termos de economia e concisão.

(São como uma manhã de sol em que passeamos pelos jardins; a espera por você em frente ao prédio e a surpresa boa de te ver, sempre tão linda <hoje para sair comigo!>; um almoço no boteco na ruazinha, ilhada em meio à cidade, onde os carros nem passam; o sabor do seu perfume trazido pelo vento de mãos dadas com o som de sua voz, o desenrolar de suas histórias; o despertar da amizade, o riso partilhado, o desafio das possibilidades e a impossibilidade dos desafios sendo lavados pela chuva que cai, depois de tanto tempo, sobre a terra seca e o ar viciado - ponto alto de meu dia.
Um dia escreverei sobre você. E você, e você, e você, com toda a certeza: cada um de nós possuidores de momentos que valem a pena ser guardados, apreciados em sua totalidade, revisitados quando a saudade bater ou simplesmente der na telha, amalgamados a nossos eus e nossa histórias, gratos se pudermos sê-lo, por tanto que a vida nos dá.)

Marcadores: vida moderna, amor, minicontos, escritos esparsos, great posts, autores, amigos
Renato van Wilpe Bach
Enviado por Renato van Wilpe Bach em 06/10/2010
Código do texto: T2542128


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Sobre o autor
Renato van Wilpe Bach
Ponta Grossa - Paraná - Brasil
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