A Paciência da Aranha Andrea Camilleri
 
    A Paciência da Aranha é um romance policial da série Comissário Maldonado, que me encantou por muito tempo. Mas paciência de aranha foi o que tive de ter para ler esse livro até o fim. Estão certos aqueles que pensaram assim: ”leu porque quis” porque afinal esse é um dos direitos do leitor: não ler. Assim como o de saltar páginas e até o de não falar do que se leu. Ou de falar mal. Só que ainda guardo comigo um ranço, ou alguns: o de achar que devo respeito a quem escreveu uma história pensando em mim. O de esperar uma surpresa. O de achar que devo acabar o que comecei. Vejo, porém que está na hora de jogar no lixo alguns conceitos. Estou sentindo que minha mente está se tornando um sótão cheio de velhas teias de aranha. Preciso tirá-las para dar espaço para coisas novas.

Não que o livro seja completamente ruim. O primeiro capítulo, por exemplo, é muito bom. Nele, Maldonado reflete sobre a nova trajetória que se apresenta para a sua vida, tanto pessoal quanto profissional. Ele convalesce de um acidente de percurso profissional: um tiro. E pensa sobre os três estágios do tempo: o que foi, o que é e o que nunca será. Mas daí pra frente a coisa não entra mais no prumo.

Pode ser até que eu não tenha gostado tanto desse livro porque entre a trajetória do personagem (e provavelmente a do autor também) e a minha algumas semelhanças podem ser percebidas. Nós três, Montalbano, Camilleri e eu, estamos sentindo o peso dos anos e a falta de perspectiva para aquilo que nunca será: o futuro. Na orelha, orelhudo anônimo pergunta, sintetizando a inquietude de Montalbano: é possível um homem chegar ao fim de sua carreira e se rebelar contra tudo o que lutou para manter? Para mim a resposta é sim, pois acabo de fazer isso ao deixar para trás, por vontade própria a minha função como responsável pela divulgação e apoio da Cultura em minha cidade. Nem por isso o livro trouxe respostas satisfatórias.

É a história de uma vingança, tramada pacientemente, como a aranha tece a sua teia. Pessoas vingativas não podem ter bom caráter: quando isso acontece nada lucram com a vingança e pior, acabam atingidas por ela. Se enredando na teia. Enredando pessoas inocentes. É também a história de amores e decepções. Quando o amor incondicional se frustra, produz um veneno que destrói, mata, corrói. Nem outros amores podem servir de antídoto. E esse amor aqui é o fraterno, que ofusca os outros tipos de amor, como o materno e o romântico. E é também o amor, nesse caso o filial, que é o estopim da vingança.

O fato de não ter gostado do livro nada tem a ver com a trama, que é bem sugestiva. Acho que me cansei foi do Comissário, que não ata nem desata.