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Resenha "Um Psicanalista no Divã"

       Qual analisando não desejou, ainda que por um único momento, trocar de papel com seu analista e, assim lançar-lhe ao divã? Pois bem, a oportunidade é chegada e nada mais, nada menos, do que o renomado J D Nasio para responder-nos às questões a ele impostas.

  Na obra “Um Psicanalista no Divã”, o Dr. J. D. Nasio, psicanalista, argentino, residente há muito tempo na França, responde as perguntas feitas por Xavier Dias, um estudante de psicologia que com perguntas várias e profundas, conseguiu extrair do Dr. Nasio respostas esclarecedoras e enriquecedoras para todos os que se preocupam com as questões do “ser humano” em si e seus conflitos, medos, inquietações, interrogações.
 
  Já no início do livro a conversa gira em torno da forma de atendimento aos pacientes, da estrutura física do consultório, do por que do Divã, quando o Dr. Nasio responde que o divã é de suma importância tanto para o analista, quanto para o analisando.  Para o analisando o divã traz o repouso que vai facilitar a imersão em suas lembranças, enquanto que para o analista o divã o livra do olhar carregado do seu interlocutor e o deixa assim, mais à vontade para usar sua sensibilidade e captar as sensações do analisando, dando as interpretações devidas ao que escuta. Com as crianças, no entanto, o divã nunca é usado. Para elas é reservado um espaço especial com itens de seu mundo, papel e lápis para desenhos, massa para modelar, brinquedos e jogos que a deixem à vontade e a faça sentir-se dentro de seu ambiente.

  Respondendo as questões sobre seu modo de trabalhar o Dr. Nasio fala sobre a necessidade de observar no analisando todos os sinais – falados ou não, também cita a necessidade de o analista não se compadecer do analisando. É necessário sentir sua dor e até vivê-la para que se chegue a uma solução, mas nunca se pode permitir compadecer-se dele (analisando). Até porque o paciente não procura um analista para que este sinta dó de sua história, ele quer a solução para suas angustias. É preciso atentar para este fato. O psicanalista trabalha com a emoção, mergulha em seu interior buscando sentir as emoções do analisando para depois trazer as respostas necessárias.

  Ainda há uma narrativa sobre Psicanálise e Psicoterapia, ele destaca suas diferenças e também o fato de que uma pode, perfeitamente, ser usada em conjunto com a outra.

  O Dr. Nasio faz uma explanação também sobre a loucura e sobre a lentidão dos avanços da ciência nesse campo. Relatou fatos antigos como “A extração da Pedra da Loucura” e também o fato de que somente no Renascimento é que a loucura foi tida como doença e não como obsessão demoníaca. Até os dias atuais, no entanto, se desconhece a causa de tais doenças.

  O autor faz uma explanação sobre os problemas mentais dividindo-os em psicoses (quando acontece a ruptura de uma engrenagem interna – Foraclusão) e neuroses (quando não há comprometimento dessa engrenagem mental - Recalcamento). Ainda nesse trecho é citado um caso clínico onde são expostas perguntas a serem feitas para descartar uma ou outra das duas situações supracitadas.

  Sobre a formação do analista, o Dr. Nasio fala da necessidade da seriedade na formação do profissional em psicanálise, estruturando um caminho que é necessário seguir para que se alcance com sucesso tal patamar. E quanto a escolha do profissional pelo paciente, é esclarecida a necessidade da transferência, da empatia, da confiança.

  Sobre a dependência do paciente para com o seu analista, o autor discorre a falar da necessidade de tal ação, de como o analista induz essa dependência e de como é chegada a hora de findá-la. Atenta para o fato de não tomar o termo “dependência” como algo pejorativo. Trata-se aqui de um processo psicanalítico e sem a dependência o sucesso no tratamento é algo que não será obtido. A essa necessidade de dependência, dá-se o nome “Aimance (quem vem a ser a união de ‘amar’ e ‘tendência’ – aimer e tendance)”.

  Passando pela questão do homossexualismo, adentramos junto com o autor em um campo sensível da personalidade humana. É citada a perda da identidade masculina num mundo onde a mulher, cada vez mais desfaz, com sua atuação, a sociedade patriarcal de outrora. Em relação ao homossexualismo masculino é apontada a solidão afetiva como sendo o maior problema enfrentado por tais pessoas. É descartada a possibilidade de que a homossexualidade seja doença ou perversão para que seja acatada como simplesmente uma “maneira particular de amar e se sentir amado”. É citada também a condição narcisista do homossexual.

  Quanto à homossexualidade feminina é dito que esta se diferencia da masculina e que se divide em dois gêneros – masculino (que viria a ser as mulheres que se identificam com um homem em si) e o feminino (sendo essas as que se identificam com uma meninha apaixonada).

  Nas diferenças entre a homossexualidade masculina e feminina o autor cita “Enquanto dois homens se unem em torno do sexo erigido, duas mulheres se amam em torno de uma falta e saboreiam como tão bem escreveu Colete, ‘o amargo deleite de se sentirem semelhantes, insignificantes e esquecidas’”.

  Passando para a heterossexualidade o Dr. Nasio afirma que “enquanto o homossexual assume sua identidade e luta para afirmá-la, o heterossexual é desamparado e busca atualmente uma nova imagem viril”. No decorrer é afirmado que a alma/o desejo feminino continua sendo um enigma como o foi para Freud; “o que quer uma mulher?”, enquanto para o eterno masculino é citado: “O que pode um homem?”, ou seja, a problemática feminina gira em torno do querer enquanto a problemática masculina refere-se ao poder.

  O ciúme também é citado e conceituado como “um sentimento doloroso que condensa o medo de ser traído e o desejo de possuir”, sendo o primeiro atribuído às mulheres e o segundo aos homens. É tido como normal e intrínseco ao amor, desde que em dosagem sadia, sem doses doentias, caso contrário, torna-se neurose.

  Sobre o amor no casal o nosso psicanalista no divã nos diz que esse é um mecanismo que age como sendo um organismo que precisa ser alimentado para que seu funcionamento não seja comprometido. A aliança sexual, a admiração recíproca, os rituais e a alternância dos papéis são pontos defendidos segundo os quais a harmonia pode ser mantida. Enfim, o amor pode e deve ser duradouro, mas é preciso um comprometimento de ambos e um amadurecimento para acompanhar e entender as fases de cada um.

  Quando o assunto adentra a virgindade feminina o “analisando/analista” discorre um belo discurso onde fala que a mulher alimenta a fantasia da virgindade e que o hímen de certo não se rompe por completo, aos seus vestígios é dado o nome de “renda do hímen”. Numa relação sexual, a mulher jamais se entrega por completo. É como se ela guardasse em si algo secreto, uma essência, uma pureza, uma virgindade que contém sua identidade mais íntima. Seguindo tais ilustrações fica fácil para o leitor entender certas diferenças de visão entre homens e mulheres quando o assunto é o sexo em sim: enquanto para os homens em relação ao pênis o pensamento é “sinto orgulho de tê-lo, mas é justamente porque ele me é tão precioso que tenho medo de perdê-lo.”, o da mulher em relação á vagina é “meu sexo é de tal forma fundido em meu ser que me desejar é me amar inteira, e deixar de me desejar significa me abandonar”.

  Para amizade o Dr. Nasio tece um dos mais sublimes conceitos e deixa claro que é este um dos mais elevados e concretos dos sentimentos que habitam o ser. Livre de acessos de ciúmes ou posses, o amor de um amigo segue seus caminhos rumo á pureza. Um amigo nos faz sentir bem por ser quem somos, em contra partida amamos um amigo por que ele é igualzinho ao que é: apenas ele.

  São citados casos de atendimento às crianças e como se deve proceder com a primeira entrevista, com a abordagem, com a interpretação. A importância dos desenhos, de fazer a criança enxergar o analista como um aliado, um parceiro e manter com ela um elo, antes de estar com ela e os pais. O Dr. Nasio ainda expõe sete crises de crescimento necessárias para o desenvolvimento de uma criança, iniciando-se no nascimento e findando-se aos 25 anos. Nessas fazes, em cada uma delas, a criança abandona algo, conquista algo e conserva algo. Essa é a tríade que acompanha o pequeno em seu desenvolvimento até alcançar a fase adulta.

  Por fim o Dr. Nasio discorre sobre o início de sua vida, o início da carreira, sua amizade com Lacan e a admiração que nutre ao mesmo. A sua condição de “argentino/francês” também é citada. A paixão pelo ofício de ensinar, os métodos usados para passar o conteúdo aos alunos, as suas pesquisas sobre a formação do gozo e foraclusão local, por exemplo.

  A sessão é concluída com uma mensagem otimista aos jovens: “Batalhem!”.

  A obra “Um Psicanalista no Divã” com sua linguagem clara e cheia de ilustrações, vem abrir os olhos de todos para as questões sempre tidas como cruciais. Admitir que o ser humano precisa alimentar o ódio em sim e desmistificar o que se entende por ódio, admitir o homossexualismo não como algo feio ou impuro, mas apenas como opção de escolha, invadir o misterioso desejo feminino, a explicação para a inquietação masculina, enfim, o Dr. Nasio nos traz em sua obra ensinamentos que vêm arrancar o véu da ignorância e nos fazer pensar mais profundamente sobre as coisas e sentimentos que nos cercam e nos habitam.

 
Cinthya Danielle dos Reis Leal
Enviado por Cinthya Danielle dos Reis Leal em 05/02/2007
Reeditado em 05/02/2007
Código do texto: T370552
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Sobre a autora
Cinthya Danielle dos Reis Leal
Petrolina - Pernambuco - Brasil, 43 anos
165 textos (83469 leituras)
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Cinthya Danielle dos Reis Leal