Resenha do livro Tão breve quanto o agora de Alvaro Posselt

Tão breve quanto o agora - Resenha de Rogério Viana

(uma leitura nada crítica do livro “Tão breve quanto o agora”, de Alvaro Posselt)

Recebi um exemplar do livro de haikais “Tão breve quando o agora”, de Alvaro Posselt, num bem produzido e cuidado trabalho da Blanche Edições, de Curitiba, lançado agora em novembro.

Puristas, auto-proclamados ou reconhecidos “mestres” do haikai brasileiro poderão dizer que os haikais de Alvaro Posselt não são haikais (haicais, hai-kais ou hai-cais). Uns poderão afirmar, ainda, que os 59 instantes criados por Posselt deixam de ser haikais por trazerem rimas.

Quem julgar que os 59 haikais de Posselt não sejam haikais, que se explique, justifique e critique como queira. Para mim os instantes de Posselt são haikais, são poesia e me agradaram.

Posselt parece ter sido possuído pelo espírito de Leminski, o polaco-loco-paca, pois apresenta muitas características leminskianas nos trabalhos apresentados no seu livro. O título da publicação foi inspirada numa frase de Buda (Buda, o zen-budismo, sempre inspiraram os haijins – quem escreve haikais): “Só há um tempo em que é fundamental despertar. Esse tempo é agora”.

E logo o primeiro instante-haikai tem a explícita referência a Buda, como a implícita referência a Leminski, ao seu espírito, à sua pegada:

A vida é agora

Se alguém chegar atrasado

vai ficar de fora

O instante da criação é isso mesmo. Percebê-lo e registrá-lo. Fazer desse momento poesia. E da poesia, brincar com a ironia (os haikaistas juramentados não usam a ironia), que Posselt sabe tão bem incrustá-la nos seus precisos versos. Posselt pode perder um amigo, mas não perde um haikai, que, diga-se de passagem, não é piada. É coisa muito séria, já que poesia é.

Aqui tudo pode

Até a cabra

fica de bode

Jogando com as palavras e seus segundos, terceiros ou outros sentidos, Posselt brinca com seus instantes, com seus haikais, configurando-os metahaikais. Deliciosos de serem lidos nas brincadeiras que sugere, no jogo com as palavras onde mostra sua forma precisa de nos divertir:

Pode ver a métrica

Para moldar estes versos

só com serra elétrica

O interessante é que Posselt, no haikai acima, dá o sentido de “moldar”, não aquele do oleiro, do homem que faz potes num barro primitivo, mas ao operário que impõe cortes precisos em material metálico para tirar dele todo o excesso que não seja poesia. Para ser preciso (a tal métrica – 5 – 7 – 5 – versos poéticos do haikai tracicional) o poeta serra, corta, aperta, espreme, elimina, desbasta, sintetiza e dá forma ao seu poema com sacrifício, esforço, mas o faz preciso, único.

O haijin Posselt cutuca haijins de padrão Bashô (mestre japonês do haikai) e o faz com o padrão Leminski, que, por sua vez, não só adorava Bashô como também escreveu e publicou uma biografia desse grande haijin.

Escrever sem consulta

O bom é obedecer

à norma oculta

O que fez Posselt, possuído por Leminski e não por Bashô - embora os dois possam ter mantido incontroláveis diálogos nas prateleiras de suas estantes – ao criar em cima de uma intertextualidade dos dois autores?

Não é preciso consultar autor nenhum. Referências são referências. Os livros, como destaca Umberto Eco, falam entre si. E, muitas vezes, provocam num autor, referência a um autor que ele jamais leu, mas que foi aludido, de alguma outra forma, por outro autor, num outro livro. Este outro livro, talvez não lido, mas citado, brevemente por alguém. São os livros conversando entre si. E inspirando e sendo referencial no agora, neste momento.

Leminski embora escrevesse dentro da norma culta, criou – e como criou – sua própria norma, na invenção de palavras, sobretudo – mas na invenção de um jeito peculiar de escrever, invertendo, fazendo trocadilhos, trocando a linha do trem, jogando em outra entrelinha, o vagão sendo empurrado e puxando uma locomotiva, uma louca emotiva forma de brincar. Jogando com as palavras e os seus sentidos, um tal qual o outro.

É o que Posselt, possuído por Leminski-Bashô, faz. Fez. Feito está.

E não precisou nem consultar, nem pedir permissão para escrever seus haikais, que, ressalto, muitos poderão (serão mesmo muitos?) considerar não serem os haikais que são.

Já que as normas são ocultas – eu tenho as minhas, Posselt as dele. Eco, Bashô, Borges, Campos, as deles. Depois deixam de ser, cultas viraram. Não as minhas, que ocultas ainda estarão.

Se vivo fosse, Leminski, com certeza, poderia aplaudir o próximo haikai, que dialoga com contemporaneidade – já agora, talvez, não tão contemporâneo, mas recente – digital, virtual, nas relações das redes sociais que ele, infelizmente, não alcançou pois faleceu antes do advento da Web, conceito que talvez ele tenha entendido através de Borges, ou de quem tenha lido Borges, escrito sobre Borges, dialogado com Borges, ou com Umberto Eco, com quem Décio Pignatari dialogou e com quem esse possa ter dialogado com os irmãos Campos, estes com Borges, ampliando o círculo da intertextualidade que em Posselt aparece e é ressaltado assim:

Páginas do orkut

Essa tal de gramática

naun c diskut

De novo, a ironia:

Literatura clássica

Seu Zé tenta ler a lista

da cesta básica

Pegou? Percebeu? Poderia perguntar Leminski. Que também adoraria isto:

Para não perder o clima

Peguei o verso de baixo

e rimei com o de cima

Para que ficar se matando, na busca de sentidos, se o sentido está apenas na brincadeira de outras leituras, muitas vezes, tão óbvias que ficam tão escondidas pela nossa falta de espírito infantil, do jogo pelo jogo, do gozo que tem que ser gozado.

Nas entrelinhas

Destas linhas

só há entrelinhas

Precisa mais?

A casa treme

Hoje ela está

Com TPM

Assumindo-se haijin, polaco que é (Posselt é sobrenome de origem polonesa?), pelo menos na poesia, Posselt se revela:

Nasci outra vez

Saí polaco

Virei japonês

Charles Baudelaire escreveu e eu citei esta sua frase no meu livro “Trinta Toques”, que tem haikais e uns epigramas.

“A poesia é a infância reencontrada”.

É o que faz Posselt, reencontrando-se piá, trocando pierogi por sushi. Refinando seu paladar pelas sutilezas que só a poesia que ele inventa pode proporcionar.

Onde nasceu em dezembro de 1971, sua Curitiba – também há 8 anos, a minha – é motivo de uma brincadeira, já que aqui há num só dia todas as estações do ano.

Curitiba não nos poupa

Ontem eu tomei sorvete

Hoje eu tomo sopa

Os três versos são um retrato feliz de Curitiba. Aqui, quando esfria um pouco as mulheres vestem grossos casacos de lã, usam belas echarpes. Se esquenta um pouco, a cidade fica colorida de coxas brancas com shortinhos coloridos e vestidos estampados.

E o poeta só observando para captar estes instantes:

Choveu tanto aqui

Que até caiu

outro pingo no i

(ele colocou dois pingos no mesmo i, um sobre o outro, como uma síntese das gotas da chuva benfazeja).

Lá vem o vento

derrubando

tudo que invento

Vejam só Posselt possuído por Leminski e revelando isto:

Noite de espanto

Fui baixar um arquivo

baixou-me um santo

E isso deu nisto:

Essa tá no papo

A mosca pousou

na sopa do sapo

Em 1999 (que ano interessante, não é?), brinquei com esta coisa do santo baixar nos poetas e fiz este haikai que dediquei a Caetano Veloso e inspirado em Leminski. Soube, tempos depois, que Caetano havia sido amigo de Leminski e dele gravou “Verdura” num dos seus disco, uma das várias composições do “polaco-loco-paca”.

Meu haikai, do livro “Trinta Toques” pega o espírito da coisa, assim:

Bashô baixou

no poeta do Axé

Arigatô, Oxumaré!

Percebem uma intertextualidade entre nossos versos?

Posselt retoma um tema zen, remetendo o seguinte haikai ao tema e inspirador do próprio título do seu livro, mas o faz com graça, com ironia, com uma percepção de um instante poético que a ele é permitido fazer troça, brincar, jogar com as palavras e os sentidos:

Alguém me acuda

Diante dos meus apuros

só fica sentado o Buda

Alvaro Posselt finaliza seu delicioso livro ilustrado – muito bem, por sinal – por Luiza Maciel Nogueira, com este haikai, que é um tipo de cutucão nos autores que cultuam escrever haikais dentro de um padrão meticuloso e complexo e que descarta outros modelos de escrita.

Não existe norma

No mundo da leitura

a gente se transforma

Um mestre zen disse: “Não siga os passos do seu mestre, busque o que ele procurava”. Mais ou menos assim. Foi o que Alvaro Posselt fez. Feito está. E assim será.

Rogério Viana