CAPÍTULO I
A ORDEM NO CAOS
 
     Em suas pesquisas sobre a origem do universo a ciência só conseguiu, até agora, chegar ao conceito do “átomo primordial”, ou seja, um “ponto no espaço” tão densamente carregado de energia, que não podendo conter em si tamanha pressão, um dia explodiu.  



Por falta de um nome melhor para nomear essa “densidade energética dos princípios” que vazou para além de si mesma, deram-lhe um nome ainda mais estranho. Chamaram-na de Singularidade, ou seja, “algo” que explodiu, dando início ao tempo e gerando a matéria que preenche o espaço cósmico. E daí a visão científica do nascimento do universo através do fenômeno que eles chamam de big-bang, ou a grande explosão. Essa explosão inicial liberou a energia que estava presa dentro dessa Singularidade. Espalhando-se pelo nada cósmico ela se transformou em uma enorme bolha de gás e partículas atômicas, que, desde então, se encontra em constante expansão.  Nessa visão o universo é visto como se fosse uma bexiga cheia de pontinhos luminosos, que está sendo enchida eternamente; a cada soprada ela se torna maior e os pontinhos se afastam cada vez mais uns dos outros.
Assim, segundo a moderna ciência, vivemos em um universo em eterna expansão. Essa expansão, todavia, não é aleatória nem descontrolada, por que, dentro dele, existem forças que atuam em um sentido contrário ao que orienta a sua expansão pelo nada cósmico. É uma força de retração, que está presente em maior ou menor grau em todos os corpos materiais, e faz com que as massas de seus corpos se agrupem e formem sistemas.
Assim, na imensidade do plano cósmico, os corpos menores são atraídos pelos corpos maiores e ficam presos em suas órbitas, girando em volta deles, formando os sistemas planetários. Estes, por sua vez, se agrupam formando galáxias, e estas as nebulosas, fazendo do universo uma espécie de organismo cósmico, com suas células, órgãos e sistemas.
A força da atração, que se traduz pela lei da gravidade, impede que o universo se torne um imenso caos de forças desordenadas, como se fosse uma manada de bois estourada, correndo em todas as direções. Nasce dessa forma a organização cósmica, da mesma forma que a matéria bruta e a matéria orgânica também assim se estruturam para formar elementos químicos, compostos, produtos, biomas, eco-sistemas, organismos. É a ordem posta no caos. Ordo ab Chaos.[1]
Nesse particular, o discurso científico não deixa de conter um certo esoterismo e na mística contida no discurso esotérico também podemos encontrar fumos de ciência. A matéria bruta é feita de átomos, os átomos se juntam para formar compostos e os compostos constituem a maior parte da matéria universal.
Da mesma forma, a matéria orgânica se forma a partir de células que se juntam para formar moléculas e estas se reúnem em sistemas. Todos com seus domínios e funções, da mesma forma que cada vida, humana ou animal, tem o seu domínio, sua função e sua missão na estrutura do universo. No imenso do espaço cósmico e no ínfimo da núcleo atômico da matéria, fundem-se os domínios da física com os da metafísica para nos dar, talvez, a compreensão de como o universo funciona e como ele está sendo construído.
 
A natureza não faz nada que não seja absolutamente útil. A menor partícula existente na matéria universal cumpre um papel extremamente importante nessa formidável rede de relações que se vai se tornando o universo físico que saiu do big-bang.
Essa rede de relações parece obedecer á um plano extremamente lógico, como se ela estivesse sendo urdida obedecendo ao desenho feito por uma Mente Universal que a tudo planeja e controla. Ás vezes temos a impressão de que todos eventos universais acontecem aleatoriamente, como em um jogo de dados.[2] Mas isso é porque, do nosso limitado campo de visão nós só temos a perspectiva do imediato. Se nos fosse dado o privilégio de ver todos os desenhos futuros que o tecido universal assumirá, ou no passado todos que já assumiu, então a nossa preocupação seria apenas a de procurar entender o nosso papel nesse processo. Pois, como bem expressa Teilhard de Chardin, nós somos o ápice momentâneo de uma Antropogênese, que por sua vez, coroa uma Cosmogênese, ou seja, somos a espécie mais elaborada que o fenômeno da vida produziu, dentro de um projeto de vida cósmica elaborado pela Mente Universal.[3]
E, concientes desse processo, podemos evitar ações que possam causar “defeitos” na urdidura desse tecido, pois embora o universo tenha mecanismos de recomposição para todos os desequilíbrios que nele são gerados, qualquer relação que viola os princípios de organização e desenvolvimento postos na natureza, sempre exige um custo maior em dispêndio de energia para realizar essa recomposição.[4]
                                                              
     Os livros sagrados de todas as religiões do mundo, sejam elas “reveladas” ou frutos da especulação que o homem faz em busca de uma realidade que está além da sua própria sabedoria, sustentam que o universo começou pela ação de uma Divindade, que de alguma forma, deu início ao mundo, tal como o vemos.[5]
A Bíblia, por exemplo, que é a fonte mais conhecida de uma religião revelada, diz que Deus fez todas as coisas tirando a luz das trevas. E quando viu que a luz era boa, Ele fez o restante do universo com ela. Para os cientistas, como já vimos, o universo teve início com a explosão de um “átomo” carregado de energia, há cerca de uns quinze bilhões de ano atrás. Essa explosão liberou “quantas” de energia, em forma de luz, a qual pode ser vista ainda hoje. Luz e energia são sinônimos e constituem aquilo que Teilhard de Chardin chama de “estofo do universo”.[6] 
     Assim, ciência e religião, no fundo, dizem a mesma coisa: Deus é luz, o mundo foi feito de luz, todas as coisas existentes no universo são condensações de energia luminosa. Inclusive nós mesmos. Por isso temos um espírito, que também é pura luz.    
Essa é uma interessante concepção que nos dá muito o que pensar. Mas ela só pode ser expressa através de símbolos, metáforas e analogias. A mente humana cria figuras de linguagem para descrever realidades que a nossa intuição sabe que existem, mas não consegue descrevê-las porque o sistema de comunicação que desenvolvemos não tem elementos suficientes para fazer uma exata configuração delas. .
Na verdade, o que seduz tanto os místicos quanto os cientistas é a ideia de que toda a matéria universal tem sua origem em uma forma de energia. No principio do universo ─ nisso tanto a religião quanto a ciência concordam ─,  existia apenas a luz da grande explosão do big-bang. Nesse estágio embrionário do Cosmos, aquilo que chamamos de massa ainda não havia se formado. Nada tinha peso ou qualquer outra qualidade que pudesse ser identificada como matéria. Todos os corpos que existem, existiram e existirão eram somente uma coleção de partículas subatômicas movendo-se à velocidade da luz.  Um certo tipo dessas partículas (fótons, elétrons, neutrinos) formavam uma espécie de oceano invisível, um campo energético de infinita radioatividade. Foi na interação com esse “oceano” que certas particulas, como os quarks (que formam basicamente toda a matéria universal, inclusive o nosso corpo), adquiriram massa e vieram a se tornar o que conhecemos como universo físico.
Na força que os quarks fazem para atravessar esse oceano oleoso, dizem os cientistas, é que a massa física do mundo acaba sendo gerada. Isso significa que sem esse “oceano primordial” não haveria matéria. Mais ou menos como diz a Bíblia: “ No princípio, ao criar Deus os céus e a terra, a terra era sem forma e vazia, e havia escuridão sobre a face do abismo, e o espírito de Deus pairava sobre a face das águas.”[7]
 
Cientista é um bicho teimoso. Não importa que sua teimosia seja chamada de pragmatismo, racionalismo, positivismo ou qualquer outro nome que se queira dar a essa mania de buscar prova material para tudo. E para isso leva anos e anos pesquisando, estudando, fazendo os governos gastarem bilhões de dólares em recursos para tentar provar aquilo que o espírito humano já sabe desde que o primeiro homem experimentou a sua primeira reflexão: que Deus existe e que é Ele, seja lá o que Ele for − uma entidade ou uma forma de energia − que dá existência a toda realidade cósmica.
Galáxias, estrelas, planetas, asteroides, tudo são condensações de energia. Como disse o físico Heisenberg, se a gravidade fosse retirada do universo, a luz também desapareceria e o mundo desabaria sobre si mesmo.[8]Por seu turno Hawking nos mostra que existem no universo duas forças que regem a sua formação: a força da expansão, que faz com que o universo se expanda na velocidade da luz, e a força da contração, que faz com que as massas cósmicas se agrupem e formem os sistemas planetários.  Essas duas forças se traduzem em duas leis: a relatividade e a gravidade.[9]
    

 
 
 
Os cultores da Kabbalah mística nos dão uma interessante visão desse processo. Eles mostram Deus como sendo uma extraordinária concentração de energia em estado latente, presente desde sempre no vazio cósmico. Chamam á essa energia de “Existência Negativa, ou Ain”. Em dado momento, essa energia, em virtude dessa infinita concentração, “vaza” para além de si mesma. Então Deus manifesta-se em sua forma positiva. Torna-se “Existência Positiva”, ou Ain Soph, a Infinidade. Em seguida, essa Luz sem limite concentra-se em um ponto (Ain Soph Aur) dando origem á primeira manifestação divina no mundo da matéria, que é a chamada séfira “Kether”, a Coroa da criação, a Singularidade de Hawking. A partir daí Deus mostra o seu “Vasto Semblante”, que é o universo material, e dá início ao tempo, que é representado simbólicamente como o "Ancião dos Dias".[10]


     É uma boa teoria, como de resto todas as demais. Se é assim mesmo, não sabemos dizer, mas ela nos dá um sentido de unidade que amiúde não encontramos em nenhuma outra teoria, científica ou religiosa, que se propôs a explicar como o universo é feito e com que sentido.
Talvez, se os cientistas não fossem tão teimosos, eles já teriam descoberto como o universo nasceu na descrição que o cronista bíblico faz da criação do mundo e assim não precisaríamos gastar tanto tempo, fosfato e dinheiro para comprovar o que a intuição humana já sabe desde o princípio dos tempos. 
Um respeitado cientista, ao explicar a importância do bóson de Higgs para a formação da matéria universal, utilizou uma interessante comparação: “ele é como a água para os peixes”. [11) Nesse sentido, a Bíblia diz, textualmente, que céu e terra (ou seja, o universo) nasceram com o surgimento da luz. A luz, portanto, foi a primeira manifestação da Existência Positiva de Deus (na linguagem da Kabbalah), e essa luz é o “Espírito de Deus” promovendo a fecundação da vida sobre as “águas primordiais”, como diz um belo poema gnóstico.
Tudo isso é intuição do espírito humano registrada na forma de símbolos e metáforas, porque a humanidade ainda não conseguiu desenvolver linguagem técnica suficiente para explicar os noventa e nove por cento do universo que ainda permanecem desconhecidos para nós.
É muito bom que os cientistas tenham descoberto (se é que de fato descobriram) o DNA do universo físico ( o bóson de Higgs). Mas nada disso nos leva a uma compreensão do que realmente Deus é, e qual o caminho mais seguro e correto para se chegar a Ele. Isso porque o caminho para Deus nunca será desvelado no estudo do que é simplesmente material. Por isso é que a ciência jamais prescindirá da filosofia (e dentro desta a teologia) como ferramenta de investigação dessa parte oculta do universo, que é a sua porção espiritual.

Tudo isso nos mostra que o universo não é caótico e Deus não é indiferente ao seu destino. Existe um processo que regula a sua criação e orienta o seu desenvolvimento. Uma “Ordo ab Chaos”, da qual participamos, talvez inconscientemente. Por enquanto sabemos apenas que existem duas margens nesse imenso rio que precisam ser ligados por uma ponte. Algumas pilastras já foram construídas por grandes sábios do passado e do presente. Uma boa parte delas é obra dos mestres da Kabbalah. É andando sobre elas que nós vamos, com muito cuidado,  encetar esta nossa aventura espiritual.
 
[1] Ordo ab Chaos. Expressão latina que designa o processo  de organização que vem ocorrendo no universo físico que saiu da explosão do big-bang. Por isso ela é usada na Maçonaria para simbolizar a esperança maçônica de congregar em uma única proposta filosófica todas as diferentes concepções políticas e religiosas, gerando uma ordem social perfeita, que sirva a todos os povos do mundo.
[2] É nesse sentido que Einstein disse que “Deus não joga dados”. Que dizer, Deus não constrói o universo aleatoriamente,  testando alternativas para ver o que vai dar.
[3]Teilhard de Chardin-  O Fenômeno Humano- pg 27
[4]A tese de que o universo é uma espécie de tecido único foi expressa na chamada Teoria do Caos, proposta por Edward Lorenz em princípios de 1960. A idéia que está na base dessa teoria é a de que uma pequenina mudança no início de um evento qualquer pode trazer conseqüências enormes e absolutamente desconhecidas no futuro. Quer dizer, alteram todo curso dos acontecimentos, tornando-os  imprevisíveis, trazendo o caos para o processo. Por isso o nome dado á teoria. Assim, se pudéssemos voltar ao passado e alterar qualquer decisão nossa, por mais insignificante que fosse, essa mudança alcançaria toda a nossa vida futura e consequentemente do universo todo, pois ele teria que se recompor para acomodar o resultado dessa ação modificadora. É o famoso “efeito borboleta”, mediante o qual o bater de asas de uma borboleta na floresta amazônica pode provocar, futuramente, um furacão na Baia de Tóquio. O universo sempre se equilibra no futuro, seja qual for o tamanho do desequilíbrio causado por um evento imprevisto, mas nesse esforço ele  gasta uma energia suplementar que seria poupada se esse desequilíbrio não tivesse acontecido.
[5] Religiões reveladas são aquelas cuja doutrina, supostamente, foram transmitidas aos seus fundadores pela própria divindade. O judaísmo, o islamismo e o cristianismo são exemplos de religiões reveladas. Já o budismo, o taoísmo e a gnose são exemplos de religiões metafísicas, pois seus pressupostos são deduzidos a partir de especulações filosóficas de seus fundadores e seguidores.
[6] O que Teilhard de Chardin chama de “estofo do universo” é um “ser” concreto que não se confunde com a matéria física que ele constitui. Ele contém um “dentro”(substância espiritual) e um “fora”(substância material). É um conceito semelhante ao que Aristóteles havia intuído quando propôs a existência de uma entélékhéia(enteléquia) termo que designa a qualidade do ser que tem em si mesmo a capacidade de promover o seu próprio desenvolvimento..
[7] Gênesis, 1: 1,2.
[8] Werner Karl Heisenberg (19011976) físico teórico alemão, Prêmio Nobel de Física em 1932,  pela descrição dos princípios da mecânica quântica.[9]Sthepen Hawking- O Universo Em Uma Casca de Nóz.
[10]Vasto Semblante” e “Ancião dos Dias” são nomes metafóricos que a Kabbalah dá a Deus em sua manifestação criadora. “Existência Negativa” e “Existência positiva” designam etapas da existência de Deus, antes e depois do surgimento do universo físico.
[11] Referência ao chamado “ bóson de Higgs”,  partícula atômica que segundo os teóricos da física nuclear é responsável pelo surgimento da massa física do universo. Essa partícula essencial,  apelidada de “partícula Deus”, foi descoberta pelo cientista Peter Higgs em 1964. Em 2013, a atuação dessa partícula foi observada e comprovada pela primeira vez em laboratório através de pesquisas realizadas nos laboratórios do CERN ( Centro Europeu de Pesquias Nuclear).
 
DO LIVRO "MAÇONARIA E KABBALAH" - O CAMINHO DA LIBERDADE INTERIOR- NO PRELO