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A sedução do insulto

Outro dia, passei numa livraria e me espantei com dois títulos que traziam palavrões na capa. Não sei do que se tratam nem quero saber. Tinham pinta de auto-ajuda – talvez para masoquistas. Não os abri; aliás, nem os toquei. E, ao contrário do que provavelmente ocorre à maioria dos clientes de livraria (especialmente os não-leitores), essa gratuidade toda não me despertou a curiosidade. Apenas esta reflexão.

Não deve ser mero acaso. Talvez seja o início de uma nova tendência do mercado editorial, tentar seduzir o leitor pelo insulto. Como a maioria só lê a capa (e ninguém é obrigado a ir além disso), é lá que já se estampa, em garrafais medonhas, um sonoro palavrão. Não sei como é hoje, mas antigamente as peças de teatro e os filmes nacionais tinham a mania de exagerar na linguagem mais chula possível. Às vezes, para chocar; outras, para soar engraçado. (E ainda há quem ache que soltar palavrões no palco é suficiente para fazer comédia. Porque ainda há quem dê risada disso.) E, quando questionados, seus diretores buscavam alguma alegação lingüística ou antropológica. Da lingüística e da antropologia de botequim, é claro. E reclamavam de censura.

Da censura que não sofriam! Mas que sempre foi tão conveniente alegar, para fazer pose de vítima. Alegando censura, eles procuram censurar os supostos “censores”, na verdade espantalhos que eles mesmos erguem em torno de si. Sobem no falso cadafalso para se darem o direito de amordaçar quem os critica, a quem chamam de puritanos, pudicos ou filhotes da ditadura. E, assim, tornam-se mártires intocáveis. O que os credencia ao posto avançado de profetas inerrantes. Sobretudo sobre assuntos nos quais são tão leigos quanto nós, começando pela política.

Lembro-me vagamente de um programa em que o Flávio Cavalcanti teve quase um chilique quando uma banda feminina foi lá cantar uma letra de duplo sentido, cujo refrão era “saca na/ saca na gente”. Disse, basicamente, que aquilo era lixo. Estivesse vivo, não teria vocabulário para classificar algumas produções atuais. Que tentam esconder seu conteúdo e suas qualidades sob o tapete do calão. E nós? Reagimos... aplaudindo. É o calão que nos cala.
Laércio Becker
Enviado por Laércio Becker em 05/03/2018
Código do texto: T6271374
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Laércio Becker
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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