DO TEMPLO PARA A LOJA- A TRANSIÇÃO DOS TEMPLÁRIOS PARA A MAÇONARIA

                                
     Do alto dos andaimes de Notre Dame, Pierre Montreil contemplava Paris. O quanto essa cidade havia crescido nos últimos anos! De fato, Filipe, O Belo, com suas maquinações, com sua volúpia em transformar a França em um Estado nacional, fora responsável também por uma grande transformação na paisagem urbana das cidades francesas, especialmente na sua capital. Quase todos os núcleos urbanos, de uma maneira geral, haviam encorpado. Ocorrera uma migração em massa dos campos para a cidade, em razão das novas leis que Filipe impusera ao país, tornando mais fácil e menos onerosa a libertação dos servos da gleba, antiga e detestável lei que vinculava as pessoas à terra, como se elas fizessem parte da propriedade e passíveis de serem transferidos com ela, como se fazia com os animais e demais utensílios que nela existia.
Esse era o sistema feudal. Ele atava as pessoas em um elo de suserania e vassalagem, onde os barões mais aquinhoados mantinham uma rede de nobres menos providos de fortuna, através de uma cadeia de vassalagem que começava no mais simples dos cavaleiros e terminava na pessoa do rei, o maior de todos os suseranos.
E na base desse sistema, o povo. Não havia fazenda que não pertencesse a um nobre, nem cidade ou aldeia que não fizesse parte dos domínios de algum barão. O rei concedia os feudos aos seus escolhidos e os escolhidos faziam os seus próprios vassalos. E o povo, nas cidades, aldeias e fazendas de cada feudo eram os braços e pernas que sustentavam o sistema, trabalhando para produzir a riqueza que os mantinha.
Por isso é que ocorria, às vezes, o fato de um vassalo se tornar mais rico e poderoso que seu próprio suserano. O poder sempre dependia do tamanho e da riqueza que as propriedades feudais garantiam para o seu senhor. Feudos como a Aquitânia, a Normandia, o Artois, eram territórios disputadíssimos, pois contavam entre os mais ricos no reino da França. Daí a constante disputa entre os reis de Inglaterra e França, pois a Normandia e algumas possessões na Aquitânia pertenciam ao rei da Inglaterra, que por essa razão, era vassalo do rei da França. Essa estranha relação de suserania entre um rei e outro frequentemente era motivo para conflitos. Esses conflitos, de um modo geral, sempre eram resolvidos por casamentos entre as duas casas reais. Ora um príncipe francês casava-se com uma princesa inglesa, ora era o contrário, uma princesa francesa que se casava com um membro da família real inglesa.
Isso foi o ocorreu com os dois reis, de França e Inglaterra. A guerra que havia se iniciado entre os dois países em 1294 só terminou em 1303, pela assinatura do Tratado de Paris, quando Filipe, o Belo, deu sua filha Isabel, então com onze anos de idade, em casamento para Edward, herdeiro do trono inglês. Esse casamento iria, mais tarde, ser o estopim de uma nova guerra entre os dois países, quando o filho de Isabel de França e Edward II, da Inglaterra, viria a reivindicar o trono francês. Esse foi o motivo político da Guerra dos Cem Anos.
      
     Sentado nos andaimes montados no frontispício da catedral de Notre Dame, Pierre Montreil olhava para a Ilha dos Judeus e pensava nos acontecimentos dos últimos anos. A extinção da Ordem do Templo, a cremação dos seus comandantes, as mortes, do rei, dos seus ministros, do Papa... As dificuldades pelas quais a França passava no momento, com as péssimas colheitas, os invernos rigorosos, as revoltas populares, a política interna e externa instáveis, as guerras externas. Eram calamidades que pareciam não ter fim.
No entanto, as dificuldades da família real e as mudanças políticas ocorridas no seio do poder tinham sido benéficas para ele. O poder conquistado por Charles de Valois junto aos filhos de Filipe, o Belo, que se tornaram reis de breve reinado, trouxe-lhe bons dividendos. Valois era entusiasta das grandes construções, e ele, como Mestre Arquiteto, líder da Compagnionnage, estava tirando bastante proveito disso.
Amigo e confidente de Jacques de Molay, membro do Círculo Interno Superior, fora a ele que o velho Grão-Mestre do Templo, em um dos seus últimos encontros realizado na masmorra do Castelo do Templo, dias antes de ser levado à fogueira, fizera suas últimas declarações e depusera sua esperança de que a Ordem do Templo sobrevivesse e viesse, de alguma forma, realizar o projeto acalentado pelos mestres do Circulo Interno Superior. Naquela ocasião, Montreil apresentara à de Molay um balanço completo do que restara da Irmandade em território francês, informando ainda o Grão-Mestre sobre as notícias que recebera a respeito dos demais reinos onde a Ordem havia existido.
– Todas as nossas 556 preceptorias em França foram ocupadas pela polícia do rei – disse Montreil.
– E o que houve com os nossos Irmãos cavaleiros?– perguntou de Molay.
– Seiscentos e vinte foram presos e até agora temos notícia que cerca de cento e quarenta morreram, queimados em fogueiras, ou em consequência das torturas ou de doenças, nas masmorras –, respondeu Montreil.
– Malditos! – vociferou o Grão-Mestre. – Um dia haverão de pagar
por isso. Deus não pode deixar impune essa infâmia!
– Se Deus não fizer, nós o faremos –, disse Montreil, levantando-se e olhando cautelosamente pelo postigo da porta da cela, para ver se alguém estava escutando.
– Então tendes um plano em mente? – Perguntou esperançoso, Jacques de Molay.
     – Enquanto estiverdes presos aqui em Paris, não podemos nutrir qualquer esperança de libertar-vos–, disse Montreil. – Este castelo, como sabeis, é inexpugnável e está muito bem guardado pelas tropas do rei. – Mas nós sabemos que o Papa não quer a vossa execução, nem dos altos dignitários do Templo. Então creio que logo sereis solto, ou condenado à clausura em uma cela em alguma Ordem, de onde podereis vos evadir, ou até continuar a nos comandar em segredo.
     – Não tenho mais essa esperança, Irmão Montreil. A Ordem do Templo nunca mais será o que foi. No entanto –, ponderou o velho monge, cofiando a hirsuta e desgrenhada barba – dissestes que apenas seiscentos e vinte dos nossos Irmãos foram presos e cento e quarenta foram mortos, não é isso?
– Sim, meu Irmão –, confirmou Montreil.
– Então uma boa parte dos nossos Irmãos escapou, não é? Se não estou errado, nós tínhamos três mil e duzentos membros em França, entre cavaleiros, sargentos e Irmãos eclesiásticos.
– Sim, Irmão Grão-Mestre. E dos nossos trezentos e cinquenta monges cavaleiros, mais de cem escaparam para outros reinos ou se refugiaram nas montanhas de Lyon. Aliás –, continuou Montreil – só nas montanhas de Lyon há mais de mil e quinhentos refugiados do Templo aguardando as vossas ordens.
– Dizei a eles para esperar até que esse processo se finde e conforme for o resultado, vós os comandareis nas ações. Por enquanto não é conveniente nenhuma reação, pois como dizeis, se o Papa está indeciso em relação ao que fazer conosco, então ainda existe uma esperança –, disse de Molay.
– De qualquer modo, nós cumprimos vossas instruções –, informou Montreil. – O tesouro do Templo já foi destinado conforme estipulastes. Continuará servindo aos propósitos da Ordem. Está ajudando os escoceses na sua luta pela liberdade e financiará nossos Irmãos portugueses na sua luta contra os infiéis e na busca das terras novas, que nossos Irmãos marinheiros, como sabeis, encontraram a leste do grande oceano.  Como já fostes informado, nosso Irmão William de Saint’Clair partiu numa expedição com três das nossas galés, em busca desse novo continente.
– Fico feliz em saber disso, meu Irmão. Quem sabe nesse novo continente possa brotar um dia uma nação templária, onde os homens possam gozar da verdadeira liberdade. Se eu morrer, morrerei pensando que dei minha vida por essa causa, e assim terei certeza que o nosso sacrifício não foi em vão –, disse Jacques de Molay.
– A propósito  ̶  lembrou o Grão-estre  ̶  nosso Irmão Larmenius de Chartres, em Chipre, também já foi instruído sobre como dar continuidade ao nosso ideal, mesmo que seja na clandestinidade. Prestai a ele toda a colaboração necessária e mantei sempre contato com os nossos Irmãos fora da França.
– Sim, Irmão Grão-Mestre. Sobre isso também tenho informação que o Rei Robert I, da Escócia, assim que a guerra terminar por lá, irá fundar uma nova Ordem de Cavalaria, na qual abrigará os nossos Irmãos que para lá fugiram. Dessa nova Irmandade participarão também os nossos mestres maçons. William Sinclair, sobrinho do nosso Irmão Saint’Clair, comandante da nossa esquadra naval será o Grão-Mestre dessa nova Ordem, que segundo fui informado, terá o patrocínio do sua Majestade, o rei Robert, e será consagrada à Santo
André. A sua sede será no Castelo de Rosslyn.
– Posso então ficar tranquilo em relação aos nossos segredos iniciáticos –, disse de Molay. Eles ficarão seguros com os nossos Irmãos escoceses. Espero que os tenhais bem de memória, pois como sabeis, tive que mandar queimar todos os livros, documentos e rituais que a Ordem utilizava, para que eles não fossem descobertos e usados contra nós.
– Fizestes bem, Irmão Grão-Mestre. Esses padres ignorantes jamais iriam entender o verdadeiro significado deles. São tão rústicos que tomam por heresia toda e qualquer sabedoria que não conseguem entender.
– Heresia. Heresia é tudo aquilo que ameaça o poder da Igreja, meu Irmão –, disse o Grão- Mestre.
– É verdade, meu Irmão. Mas um dia todos os homens serão livres para escolher no que acreditar. Ninguém será preso nem irá para a fogueira só por ousar ter ideias próprias a respeito de religião, ou por procurar saber como a natureza trabalha para produzir os seus fenômenos – disse Montreil, com um profundo suspiro.
– É um sonho, sem dúvida. Uma utopia pela qual lutamos e derramamos o nosso sangue. Uma pátria universal, onde todas as religiões possam conviver em paz e os homens se guiarem apenas pela consciência do bom e belo que cada uma ensina. Pois esse seria o nosso reino, se triunfássemos –, disse Jacques de Molay.
─ Um reino onde a religião seria a moral que faz os homens justos e virtuosos e não uma superstição vendida nos púlpitos ─, completou Pierre de Montreil.
─ A propósito, o que sabeis sobre o destino da nossa sagrada reli-
quia ─ perguntou de Molay, olhando para todos os lados, como se a confirmar que estavam sós na cela.
─ Sei que ela foi oculta em lugar onde ninguém jamais a encontrará. Podeis ficar tranquilo quanto a isso, Irmão Grão-Mestre.
 ─ Ótimo. Oxalá Ele repouse finalmente em paz e as pessoas aprendam a viver pelo que ele ensinou e não deturpem mais a sua doutrina como justificativa para suas próprias ambições  ̶ , completou o mestre arquiteto.
─ Esse foi o nosso sonho, Irmão. Um reino onde a verdadeira doutrina de Jesus fosse praticada ─, suspirou de Molay. 
─ Foi um belo sonho, meu Irmão, e devemos nos orgulhar de tê-lo sonhado ─, disse Montreil.
─ Sim. O sonho de reconstruir o Templo de Salomão. Mas eis que esse templo também acabou sendo destruído como os outros. Quando será que a humanidade aprenderá a construir um Templo de Jerusalém perene, que seja capaz de resistir às investidas da cobiça, da inveja e da maldade humana? ─ perguntou, desconsolado, Jacques de Molay.
– Esse sonho não acabou, meu Irmão. Um dia haveremos de realizá-lo. O Templo de Jerusalém é a própria humanidade e nela se hospeda tanto o mal quanto o bem. E também sempre haverá nele um Mestre, que como vós e nossos Irmãos Templários serão sacrificados para que ele possa existir. Nós, os Obreiros de Salomão, tivemos no nosso arquiteto Hiram Abiff, o sacrificado do Primeiro Templo, o de Salomão. Ananias, o sacerdote, o sacrificado do Segundo Templo, o de Zorobabel. Jesus foi o sacrificado do Terceiro Templo, o de Herodes. Se Filipe Capeto e o Papa Clemente promoverem a vossa morte sereis o sacrificado do Quarto Templo, que embora não tivesse sido edificado, reinou sobre corações e mentes, como se fosse um verdadeiro santuário. Mas nós continuaremos a erguer templos à virtude e a cavar masmorras ao vício. Os Pobres Soldados de Cristo e os Obreiros de Salomão, ambos “Filhos da Viúva”, doravante unidos trabalharão pelo mesmo ideal. A nossa tradição será conservada pelos séculos dos séculos através dos ritos e da arte de construir edifícios e nações. Com a benção da nossa Mãe Sagrada, representada pela Rosa Mística sobre a Cruz, nossos segredos serão salvaguardados e um dia eles servirão para dar sedimento à uma nova sociedade.
– Do Templo para a Loja, então. Oxalá eu pudesse viver para ver esse sonho realizado, meu Irmão –, disse Jacques de Molay, abraçando fortemente o Mestre da Compagnionnage.
Os três abraços cruzados, peito contra peito, cada um seguido por três batidas nas costas, que os dois Templários se deram, não passaram despercebidos a messier Jean de Janville, que havia chegado silenciosamente, e ficara parado, junto à porta da cela, com o seu pique na mão.
Pierre de Montreil percebeu a presença importuna.
 ─ Chove sobre o Templo, Irmão ─ disse Montreil, ao ver o carcereiro, em pé, na porta da cela.
     ─ Resguardemo-nos das goteiras então ─, respondeu de Molay.
Imediatamente, de Molay levou a mão direita, em forma de garra, ao lado esquerdo do peito, como se estivesse arrancando o próprio coração. Esse era um gesto que tinha por objetivo ocultar a cruz no peito, quando na presença de profanos. Montreil repetiu o gesto. Esse era um sinal distintivo entre os membros do Circulo Interno Superior, e era usado quando, entre eles, pessoas estranhas ao seu convívio eram introduzidas.
À Janville, a estranha troca de sinais não passou despercebida. “Pois é”, pensou o arguto carcereiro, fazendo uma careta: “Bem que me disseram que esses Templários eram mesmo uma gente muito estranha.”


( DOLIVRO REX DEUM- A IRMANDADE DOS SANTOS MALDITOS) NO PRELO