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Resenha do livro "Antropologia do corpo - Le Breton (2016)"

Este texto busca trazer de maneira clara e objetiva um resumo da tese que Le Breton defende em seu livro “A antropologia do corpo”, publicado pela editora vozes, no ano de 2016. Os conteúdos apresentados envolvem até a metade do livro, por volta do primeiro até o quinto capítulo, que trazem mais o teor histórico do pensamento de Le Breton, e como este corpo se modificou e assumiu o estatuto que possui na modernidade.

1. O corpo nas tradições místico-religiosas

Em primeiro lugar, é importante pontuar que o corpo e o conhecimento sobre este possuem uma raiz de construção simbólica cultural, isso significa dizer que o que se entende e como se lida com o corpo, perpassa o pensamento histórico no qual ele está inserido, sendo necessário pensar por exemplo em qual o pensamento filosófico vigente, quais são as práticas sociais, os costumes, a cultura, ou seja, é necessário identificar esse corpo em seu contexto, e a maneira como qual ele interage com o mundo a partir dos significados e sentidos que são atribuídos a ele.

Partindo desse pressuposto, podemos pensar o corpo primeiramente nas culturas de povos indígenas, o autor traz o exemplo dos Canaques, um grupo de indígenas que tem em seu sistema religioso um panteísmo característicos dessas culturas. Para os canaques, o corpo é parte do cosmos, sendo ele comparado aos elementos de um vegetal, por exemplo, a pele humana seria equivalente a casca de uma árvore, o sangue seria a seiva e assim por diante. Segundo essa tradição os homens teriam uma reverencia com a natureza, pois fazem parte dela, são iguais a ela no grau de importância e pertencimento cosmológico.

O autor cita também culturas africanas onde esse corpo é visto como relacional, ou seja, ele é parte de indissociável de uma relação indissociável entre outros corpos, não existindo essa separação entre eu e o outro como vemos nas relações ocidentais modernas.

2. O corpo no pensamento medieval

O corpo na idade média traz consigo uma influencia forte de pensadores da igreja cristã, sendo os mais conhecidos Santo Agostinho, Santo Anselmo, entre outros. O que esses pensadores trazem é uma percepção de mundo onde o ser humano é parte de um sistema cosmológico divino, sendo assim, esse corpo é parte de um todo, não existindo distinção entre os corpos. Pode-se observar então que no próprio contexto socioeconômico no qual essas pessoas estão inseridas, o corpo se torna coletivo, pois viviam em comunidades, sob o julgo da igreja, que tinha o poder de fala centralizado para si, e dizia  até onde esse corpo podia ou não ser explorado.

Outra característica do pensamento acerca do corpo pode ser notada nas obras de arte produzidas naquele período, como por exemplo, as representações de pessoas tinham necessariamente que estar atreladas a símbolos religiosos, e normalmente não se dava importância para o rosto, que simbolicamente não existia naquele período, pois fazer parte do todo anulava a condição e a noção de individualidade, que só foi nascer posteriormente.

Nas pinturas também eram observáveis a ausência da assinatura dos pintores, pois estes ainda não gozavam dessa noção de criadores, eles assim como os demais, eram meios das manifestações divinas, não sendo necessário a presença de seus nomes nas obras artísticas.
Já na vida social, era possível observar por exemplo, o repúdio que certas profissões tinham pela sociedade, como os barbeiros, que infligiam mudanças no corpo, que por ser considerado sagrado, não poderia ser tocado por ninguém.

Pensar esse corpo na idade média é pensar em corpo coletivo, sem rosto, sem identidade pessoal, um corpo que está inserido em uma ordem cosmológica maior regida pela revelação que mora nos mistérios de um Deus e de seus saberes inacessíveis aos homens.

3. O corpo no iluminismo

Passar para a noção de corpo no iluminismo, é entrarmos no campo do conhecimento pré-científico, conhecimento esse influenciado por vários pensadores como Galileu, Pascal, Copérnico, entre outros, que trouxeram em sua teoria uma mudança radical no pensamento místico-religioso característico do período medieval.

Esses autores trouxeram entre outras coisas, noções como a de que a terra não é o centro do universo, de que homem vem de átomos, fundando a noção de um corpo individual, além dos conhecimentos dos intelectuais, que trouxeram gradativamente uma maior autonomia para o homem nessa relação entre ele e o sagrado.

Essa mudança de pensamento se deu principalmente por uma maior força de uma elite intelectual que passou a ter poder político, colocando o conhecimento do clero em segundo plano, e por consequência, dando margem e outros saberes.

Nesse contexto, podemos pensar em uma mudança de paradigma profunda, onde devido principalmente a René Descartes, a própria cosmologia do homem sofreu profundas mudanças. Apesar dele ter sido apenas um reflexo de sua época, seu pensamento influenciou grande parte do pensamento ocidental moderno, entre suas principais influencias, temos por exemplo, a noção de que  o universo é uma máquina, regida por um deus mecânico, e tal qual um relógio, as partes desse gigantesco mecanismo podem ser compreendidas em seus pormenores, para se compreender o todo novamente.

Nesse sentido, o corpo serial também visto como um mecanismo, que para ser estudado, pede o conhecimento de anatomistas, e estudiosos que entendem sobre os órgãos, e o conhecimento destes. Nesse contexto surge então um paradoxo para o homem do renascimento, que vê-se cada vez mais distanciado de uma noção coletiva de corpo, não fazendo mais parte de um todo regido por uma divindade, e passa a se tornar um agente transformador da natureza através do uso da razão, em outras palavras, ele passa de agente passivo para agente ativo, se tornando transformador de sua própria realidade e não mais dependente de uma noção divina.

Nesse novo contexto, surge uma dicotomia muito particular no que se refere especificamente ao corpo, que passa a se tornar uma propriedade, uma entidade separada do espírito, que ainda pertenceria a um ser divino, enquanto o corpo relegado ao mundano, não é parte total do ser, podendo ser alienado, transformado, e estudado sem tanto pudor. O homem passa então a ter um corpo, e não ser um corpo.

4. O corpo na modernidade

No pensamento moderno, pode-se perceber uma forte influencia do pensamento de René Descartes, sendo essa influencia mais perceptível nas ciências modernas, que compartimentaram esse corpo em diversas partes, surgindo as áreas de especialização, que se dedicam a estudar os pormenores de como funciona o coração, o fígado, o psiquismo, etc. Esse traço ainda pode ser percebido na maneira como o corpo é simbolizado pelo pensamento popular, sendo comparado constantemente como uma máquina.

No entanto, o autor pontua que apesar do pensamento científico ser mais proeminente, o conhecimento místico-religioso ainda faz presença nos dias atuais, podendo ser vistas culturas milenares onde a medicina vem de conhecimentos alternativos, onde esse corpo ainda é parte de um todo maior, principalmente nas manifestações populares esse aspecto pode ser percebido, existindo por vezes um debate entre o conhecimento cientifico e o conhecimento popular.


Le Breton, David. Antropologia do corpo. 4ª Ed, Editora vozes.
Thales Coelho
Enviado por Thales Coelho em 19/07/2019
Reeditado em 28/07/2019
Código do texto: T6699794
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Thales Coelho
São Luís - Maranhão - Brasil
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