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Diário das minhas leituras/43

16/10/2019 – CHARLES BUKOWSKI
Li “Crônica de um amor louco”, meu primeiro contato com esse escritor muito celebrado na atualidade. Não é realmente a minha praia, mas o que eu reconheço no Bukowski é o mérito de um estilo que põe em cheque os próprios valores "tradicionais" da literatura. Tanto na linguagem como no conteúdo, Bukowski rompe com aquilo que a crítica especializada valoriza na literatura. Convenhamos: os escritores amados pelos críticos e pelos acadêmicos podem ser, e com frequência o são, bastante maçantes e enfadonhos. Então, de certo modo, o que Bukowski faz é também uma libertação desse modelo em que estruturas rebuscadas são valorizadas mesmo que dificultem ou até impeçam a compreensão do leitor médio. Sempre se entende o que Bukowski quer dizer e penso que boa parte do seu sucesso é consequência dessa negação da retórica da literatura dita séria. Dito isso, não compreendo por que o verbete de Bukowski na Wikipedia cita como a primeira influência do seu estilo o Dostoievski. Ora, isso me parece ser a própria negação da ruptura que Bukowski representa diante da literatura "sagrada". Dostoievski é um dos "monstros" da literatura, e imagino que em alguma medida deva ter realmente alguma influência sobre Bukowski, mas parece-me que elencá-lo por primeiro entre as influências, sabendo que há outras bem mais visíveis, como Fante ou Hemingway, é antes uma tentativa de aproximar Bukowski da literatura tradicional e fazer com que esteja mais perto do status de alta literatura – e Bukowski não precisa disso. Está dito ainda que é o "pessimismo" de Dostoievski que influencia Bukowski, mas tenho para mim que o escritor russo não é exatamente um pessimista, e sim algo que mais tarde poderia ser entendido como existencialista ("Crime e castigo", lembre-se, tem um final felicíssimo). Em relação a Bukowski, certamente ele não é um escritor otimista, e em alguns momentos parece se aproximar de ser existencialista - é interessante que ele mesmo não promove grandes reflexões, mas elas são inevitáveis ao leitor diante do "desconforto" que acompanha a leitura. Uma leitura indispensável desse livro é o conto em que relata o estupro de uma criança, com todos os detalhes sexuais a que tem direito, feito que, mesmo que moralmente repugnante, é de uma grande ousadia literária. Acho que só vi algo semelhante em um conto do Miguel Ángel Astúrias, mas de forma menos explícita (o nosso Dostoievski tem um conto em que o interesse por uma criança é sugerido, mas nada chega a ser consumado). É curioso que a maioria dos contos de Bukowski seja em primeira pessoa, mas esse da pedofilia e outroa de necrofilia estão em terceira pessoa. O próprio nome do conto da pedofilia, que, ao menos em português, é “O diabo em forma de gente”, parece suavizar um pouco aquilo que se poderia pensar não a respeito do personagem, mas do próprio escritor. Em meio a todas as transas, masturbações e bebedeiras narradas, chamou-me a atenção também o que poderia ser a criação de um novo gênero: a ficção científica pornográfica.

21/10/2019 – LYGIA FAGUNDES TELLES
Na introdução da antologia, o crítico Eduardo Portella afirma que as personagens de Lygia Fagundes Telles "buscam incessantemente a parceria; reúnem-se, na esperança de uma construção solidária"; Realmente, esse movimento em direção ao outro se encontra em grande parte dos contos. É de se observar que, normalmente, o desejo de aproximação não é expressado em palavras, mas simplesmente por um fluxo de consciência (às vezes confuso) de que o outro nunca tomará conhecimento. Em meio à turbulência de pensamentos em suas mentes, as personagens podem variar de uma resolução a outra e podem, igualmente, terminar agindo de maneira contrária aos seus próprios desejos, em uma espécie de auto-sabotagem, como se evidencia em contos como "As pérolas" e "Herbarium". Na verdade, não é certo sequer que o encontro ou a "parceria" resulte, por si só, em alguma satisfação, pois sempre se estará querendo provas ou algo mais (vide "Apenas um saxofone"). Mas o que me chama mais a atenção nessa antologia são os contos em que as pessoas buscam tanto a comunhão com o outro que acabam se tornado inconvenientes e indesejáveis. É o caso de "Verde lagarto amarelo", quando um irmão, o preferido, busca o contato de outro, o solitário que desejaria permanecer assim, e um não vê o mal que faz ao outro, não vê que pode estar roubando inclusive aquele pouco que o outro considerava seu. Também inoportuno era o jovem que resolveu ficar em hotel ocupado apenas por idosos, os quais se ressentem da sua juventude e, talvez, agem contra ela, no belo "A presença". E há o caso mais visível de aproximação indesejada em "Pomba enamorada ou uma história de amor", em que se pode falar efetivamente em perseguição ao objeto do desejo amoroso. Um dos grandes momentos do livro, o célebre "A confissão de Leontina" demonstra muito bem que não é com flores e sorrisos que o mundo vai receber os nossos desejos e carências. De maneira que essa "construção solidária" apontada por Portella nem sempre se realiza porque, nos casos em que é expressada, não conta com a contribuição do outro. O livro conta também com "Seminário dos ratos" e "As formigas", textos de estrutura similar, a sugerir poderes impensados em criaturas ditas "inferiores", capazes, agora, de interferir de forma decisiva na vida dos humanos, já então com menos controle sobre si mesmos, o que provavelmente pode encerrar diversas simbologias. Há um exercício com "Missa do Galo" do velho Machado e mais alguns contos, grande parte deles privilegiando o fluxo de consciência e construída de uma maneira inteligente que, em geral, leva a um desfecho surpreendente.

28/10/2019 – O NOVO CONTO ISRAELENSE
Estive tão entusiasmado pela literatura judaica, seja ela feita em ídiche ou em hebraico, que peguei outro livro destinado a ela. Mas “O novo conto israelense”, se bem que apresenta os seus momentos notáveis e que me remeteram ao que de melhor já li dessa literatura, freiou um pouco o meu entusiamos, pois nele encontrei também muitos contos difíceis de ler e que definitivamente não caíram no meu agrado. Este é um livro que se destaca por um tom incrivelmente lírico e poético. Acho que todos os contos podem ser descritos dessa maneira. Alguns o elevaram a um ponto que se tornou difícil a minha compreensão, mas em outros eu pude realmente saborear toda a beleza que eles tinham a oferecer. Os contos que mais me agradaram foram “O silêncio contínuo de um poeta”, de A. B. Yeochua, que trata de um poeta, é claro, e o seu filho temporão, que tinha algum problema mental a ponto de ser considerado idiota pelas pessoas ao seu redor, mas que depois de grande passou a querer escrever poesia como o seu pai. Texto sensível e cheio de momentos belos, em uma linguagem bastante direta; “Morte na aldeia”, de Itzchak Ben Ner, também bastante sensível, sobre um homem que, de certa forma, roubou a esposa estrangeira de outro, e eles todos viviam em uma mesma e pequena aldeia, o tempo passa, o amor entre os dois se tornou já uma ilusão e a mulher estava às portas da morte, quando o homem então, confessando a sua culpa, vai até a casa do marido abandonado e se oferece para devolvê-la, mas a família recusa; e “A morte do Deus Pequeno”, de David Schahar, sobre um sujeito que tinha realmente o apelido de Deus Pequeno, graças a umas teorias bem singulares que tinha a respeito do tamanho de Deus, e que morre sozinho, o que levou a uma série de reflexões existenciais interessantes por parte do seu inquilino, talvez a pessoa mais próxima dele. Nesse livro, também li os meus primeiros textos do Amos Oz, que comparece com dois contos (“Caminho de vento” e “O nomâde e a víbora”), sendo que gostei mais do primeiro, sobre o filho que um homem muito respeitado no seu kibutz que é paraquedista e, em um dia de apresentação, cai no meio da fiação elétrica, mas teve várias chances de se salvar e nunca tinha coragem suficiente para isso. “Badenheim-1939”, um dos contos de Aharon Apelfeld, também é interessante por mostrar de que modo a aproximação da guerra começou a afetar uma comunidade judaica, que ainda não entendia muito bem o que estava acontecendo. Entre os contos mais difíceis de ler, para mim, estão o de Yeshaiau Koren e os dois de Amália Cahana Carmon. Tem ainda Nissim Aloni com um bom drama em “Ser padeiro”, e termina com dois contos de Yehuda Amihaim, também eles marcados essencialmente pela poesia.
 
30/10/2019 – DESZÖ KOSZTOLÁNYI
Terminei “O tradutor cleptomaníaco”. Antes eu já havia lido meia dúzia de contos do autor e o que havia me chamado mais a atenção neles foi a nota existencial e um tanto lírica. Porém, impressão diversa foi a que prevaleceu após a leitura dos 13 contos que perfazem essa antologia. Claro, questões existenciais marcam presença, mas para mim se sobressaiu um tom bem-humorado e até jocoso com que retrata personagens singulares do nosso cotidiano, sem, com isso, perder a ternura e a consideração por eles, mas justamente ressaltando o que eles têm de humano. Kosztolányi parece-me um escritor bem versátil, ao fim de tudo. Especificamente nessa antologia, as histórias envolvem um personagem (Kornél Esti), que às vezes vive e outras vezes conta histórias do que outros viveram. De todos os contos, o que mais me agradou foi “O pai e o poeta”. Trata-se de uma história mais condensada de um mote semelhante ao usado por Tchékhov em “Inimigos”, o meu conto favorito desse russo, isto é: o quanto estamos todos mergulhados em nossos próprios dramas pessoais a ponto de não apenas não praticarmos a compaixão em relação ao próximo, mas, inclusive, reclamarmos a compaixão que não foi recebida por parte dele. Tchékhov o faz em termos mais elevados e mesmo dramáticos, mas a história do embate entre o poeta que acha que escreveu o poema da sua vida e o pai que está angustiado por saber que o seu filho está prestes a passar por uma operação de apendicite, que é a trama no conto de Kosztolányim, reforça a mesma moral e alcança também um resultado bastante satisfatório. O conto que dá nome ao livro também é bastante interessante, sobre um sujeito que, ao traduzir uma história, começa a roubar objetos e dinheiro dos personagens, sempre atribuindo a eles menos coisas do que no original. “O dinheiro” também me chamou bastante a atenção. Nele, Kornél Esti conta que herdou uma bolada, mas não tinha ambições financeiras, e então teve que dar tratos à bola para conseguir se livrar da grana aos poucos, sem chamar a atenção de ninguém, fazendo furtivas doações como se fosse um assaltante. Um conto, “A mentira”, poderia muito bem ser classificado como crônica aqui no Brasil. São observações bem-humoradas sobre o assunto-título. “O manuscrito” também apresenta uma situação bem engraçada ao retratar os desafios de um homem importunado por uma mulher que queria que ele lesse o seu terrível romance e desse alguma opinião a respeito dele. Os contos são quase todos bem curtos, fazendo dessa uma leitura rápida e agradável. A exceção em termos de tamanho é o conto “O presidente”, com as suas 36 páginas a respeito de um sujeito que, ao presidir diversas sessões e conferências, pegava no sono no exato instante em que o orador começava a falar – achei que esse conto também poderia ser menor. Há um momento muito bonito em “O farmacêutico e ele”, quando o personagem se sensibiliza pela sorte de uma pobre farmácia e decide comprar os dois únicos produtos que ela expõe na vitrine, mesmo que não precisasse deles. “Miséria” tem uma moral curiosa, evidenciando que, depois de determinado “nível”, a miséria, como tudo o mais, nos aparece um exagero e um absurdo, de tal forma que não iremos mais nos sensibilizar com ela, e até é possível que ela nos divirta. “O salva-vidas” é um tanto existencial também. Um homem salva Kornél Esti da morte por afogamento, mas, depois disso, praticamente escraviza o personagem como “pagamento”. Em suma, lê-se rápido, lê-se bem. Precisa ser mais conhecido.
Henrique Fendrich
Enviado por Henrique Fendrich em 14/11/2019
Código do texto: T6794781
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Henrique Fendrich
Pinhais - Paraná - Brasil, 32 anos
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