Policarpo e Floriano

POLICARPO E FLORIANO
Miguel Carqueija

Resenha do romance “Triste fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto. Klick Editora/O Globo, Rio de Janeiro-RJ, 1997. Coleção Livros O Globo, 12. Capa> a partir de “Au café” (Gustave Caillebolte).

Um dos cáusticos e desiludidos romances de Lima Barreto, que nas primeiras décadas do século 20 foi o mais agudo crítico da sociedade brasileira. A publicação original em livro data de 1915, saiu antes por folhetim em 1911.
Como sempre Lima Barreto não poupa os terríveis defeitos da sociedade nacional. Entretanto, aqui o mais importante é denunciar corajosamente a ditadura de Floriano Peixoto, que mandara matar sem julgamento os dissidentes das rebeliões como a da Marinha em 1893. Eu me lembro que no meu tempo de criança ainda se cantava um hino (sic) em honra do déspota. Recordo o primeiro verso: “Floriano, herói brasileiro...” e custou muito tempo mesmo, eu já era super-adulto quando descobri tratar-se de um feroz ditador — e deve ser por isso que ganhou a alcunha de “o Marechal de Ferro”.
Quaresma é apresentado desde o início como um tipo folclórico, um nacionalista exacerbado que procura valorizar somente o que é brasileiro, como alimentos, e leva a sua monomania a querer substituir o idioma português pelo tupi-guarani. Quando redige um ofício em tupi-guarani na repartição onde trabalha, acaba passando uns tempos no manicômio e sendo forçado a se aposentar.
Após essa triste experiência resolve ir morar num sítio, acreditando agora que a redenção do país estaria na agricultura. Sua nova decepção é o pauperismo local combinado com a inércia dos habitantes, que não tomam a iniciativa de cultivar a terra, sendo o nosso país tão fértil.
Entretanto a mensagem final nada tem de folclórica ou patusca. O desastre final de Quaresma, prefigurado no título da obra, configura-se na sua desastrosa resolução de apresentar-se como voluntário no exército de Floriano, quando este teve de se haver com a rumorosa rebelião da Armada. Querendo ser um patriota e crendo estar do lado certo, Policarpo vai servir a Floriano... e o trágico resultado vem nos capítulos finais desse livro instigante.
Rio de Janeiro, 13 a 18 de março de 2018.