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O CABELEIRA 1876

Em 1876, o cearense Frankling Távora publicou um romance histórico sobre o que talvez tenha sido o primeiro cangaceiro do Nordeste, o Cabeleira, enforcado cem anos antes.  O argumento, portanto, é real e conta a história de José Gomes, que se transformou num bandido por causa do seu pai, Joaquim, que o ensinava a matar. No meio da narrativa, o autor emite opinião sobre a maldade humana (1876, p. 18), e fica um tanto ridícula essa intromissão. Sugere que o menino nasceu com bom coração (dentro do senso comum de Rousseau, a teoria do bom selvagem), mas foi influenciado pelo meio e por seu pai. Tal colocação quase faria com que o livro ingressasse na escola naturalista, mas alguns posicionamentos melodramáticos o definem como romântico. A mãe de José mostra racismo ao dizer que pelo menos o filho não era negro como o pai (TÁVORA, 1876, p. 19). Luisinha se engraça pelo menino José, que lhe pergunta se ela gostaria de se casar com ele. Luisinha diz que casaria se José parasse de fazer mal aos bichinhos e bater nos meninos (TÁVORA, 1876, p. 25). O desejo da moça terá repercussão no final da história, porque transformou o caráter do cangaceiro. O romantismo também se dá no fato de criar a personagem pai totalmente má, enquanto a mãe era totalmente boa. Não se trata de seres humanos realistas, como os de Machado de Assis.
Alguns professores de Letras podem pensar que os clássicos da literatura nacional têm importância apenas como registros históricos, mas isso está longe de ser verdade. Basta ler os livros, para sentir a força deles. Um é melhor que o outro no sentido de prender o leitor. Quando Cabeleira começa com as matanças, o livro passa a ficar empolgante como uma história de aventura. Luisinha, por exemplo, vai pegar água num poço mais longínquo e um homem tenta estuprá-la. Então aparece sua mãe para protegê-la. O homem a agride com violência e dá a impressão em Luisinha de que a mãe Florinda havia morrido (naquele momento, não, só depois). Luisinha descobre que o homem era Cabeleira, seu amigo e amor de infância. Este a liberta, vai proteger o esconderijo dos cangaceiros e termina matando, junto de seus colegas, a quatro homens de bem.
É comum o romancista fazer a narração ficar tensa, atrair a atenção do leitor e, estranhamente, mudar de assunto, cambiar o foco e passar a outro tema. Muitos fazem isso, talvez a maioria. O que conseguem é apenas esfriar a expectativa do leitor, talvez até fazê-lo desinteressar-se.
Depois de Cabeleira parar de matar e jogar suas armas num lago, promessa que fez a Luísa, esta morre, e um pelotão de militares e sertanejos vão ao encalço do bandido. Aqui muda o foco da narrativa. Um sertanejo chamado Marcolino promete a si próprio que caçará o cangaceiro e começa a persegui-lo. Cabeleira estava com fome e pensou em matar um homem para roubar-lhe a comida. Mas lhe apareceu Luísa numa visão, rogando-lhe que não o matasse, e Cabeleira obedeceu à visão de sua amada.
No final do livro, depois de Cabeleira ser enforcado, o autor faz longa defesa de bandidos, afirmando que a Pena de Morte não contribuiu em nada com a diminuição da criminalidade no Norte e no Nordeste brasileiros. Parecia um petista defensor dos Direitos Humanos para bandidos, mas ele escreveu tal declaração em 1876. Enfim, é um clássico e vale a pena lê-lo.
Eduardo Jablonski
Enviado por Eduardo Jablonski em 05/09/2020
Código do texto: T7055255
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Eduardo Jablonski
Santo Antônio da Patrulha - Rio Grande do Sul - Brasil, 51 anos
68 textos (6015 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/03/21 16:11)
Eduardo Jablonski