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"A filosofia explica Bolsonaro" de Paulo Ghiraldelli Jr.: narrativas interessantes para tentar entender o presidente, mas prejudicadas pelo comportamento beligerante de seu autor, bem como falácias oportunas e uma edição descuidada do livro

“A filosofia explica Bolsonaro”, livro do professor e filósofo brasileiro Paulo Ghiraldelli Jr. Na obra, o autor se debruça sobre a figura do atual Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro. São analisados também seus filhos, que possuem protagonismo no Governo, bem como aliados. É analisada também a extrema-direita brasileira.

Paulo Ghiraldelli é uma pessoa com um currículo acadêmico respeitado. Bacharel em filosofia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, mestre e doutor em filosofia pela USP, mestre e doutor em filosofia e história pela PUC-SP e pós-doutorado em medicina social pela UERJ. É escritor de mais de 40 livros nas áreas de filosofia e educação. Já ministrou em universidades, sendo também o fundador e diretor do Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA). Possui um canal no YouTube com centenas de milhares de seguidores (1). É, portanto, uma pessoa cujas opiniões, ainda que se discorde delas, merecem uma conferida. Afinal, em um país com muitos influenciadores digitais e pseudo-intelectuais (Luiz Felipe Pondé e Olavo de Carvalho, por exemplo), escutar pessoas que falem com certa propriedade é o mínimo que se espera. Naturalmente, isso não torna tais pessoas imunes a críticas, incluindo o autor, como veremos adiante.

SOBRE O LIVRO

O livro de Ghiraldelli foi lançado no final de 2019. A presente leitura foi feita no final de fevereiro de 2020. O autor, obviamente analisa apenas o primeiro ano de mandato de Bolsonaro. Aqui temos um problema: livros sobre Bolsonaro e/ou seu Governo se tornam, rapidamente, obsoletos. A culpa disso não está no autor, mas na capacidade que o presidente tem de criar, de maneira ininterrupta, situações de crise e polêmicas gratuitas. Em 2019, o Brasil não teve uma única semana de paz, sem que o noticiário tivesse que lidar com algum atrito, polêmica, crise diplomática, escândalo, etc. O militante bolsonarista precisa de um alvo, de um assunto ou problema, previamente estabelecido/fabricado, para se manter “pilhado”, em um front acéfalo, que não leva a nada minimamente relevante para o país. Provavelmente, Ghiraldelli, ciente disso, opta por uma análise mais ampla, sem ficar preso em episódios muito específicos, ainda que sejam citados em momentos oportunos (2).

Um outro detalhe a ser considerado é o título. Quando se diz “a filosofia explica Bolsonaro” o que temos, na realidade, é “o autor opina sobre Bolsonaro”. Digo isso pois, em pouquíssimos momentos, outros filósofos são citados/lembrados na obra. Embora o Ghiraldelli seja um filósofo e educador de formação, o livro carece de uma bibliografia recomendada, referências consultadas e notas de rodapé. Com isso, algumas narrativas podem soar como uma opinião aleatória, um ataque pautado em achismo. Não seria tão correto pois é visível influências de Peter Sloterdijk, Karl Marx, etc., nas narrativas construídas por Ghiraldelli. Há uma visível influência do ur-fascismo de Umberto Eco na análise da extrema-direita brasileira que apoia Bolsonaro. Também é possível notar uma influência de Ladislau Dowbor e Maria Lúcia Fatorelli na análise do atual capitalismo brasileiro e suas pseudo-reformas (as duas figuras não tão consensuais dentro da esquerda). Tais influências são conhecidas por pessoas que já assistiram os vídeos do autor em seu canal no YouTube. Contudo, um leitor comum não conseguirá, provavelmente, captar essas fontes. Um texto sem fontes corre o risco de não ser levado a sério e, com isso, a obra corre o risco de ficar restrita ao grupo de pessoas que já conhecem e/ou acompanham o Ghiraldelli na internet. Não se trata de um livro acadêmico, como o próprio autor diz nas primeiras linhas, mas isso não exime o livro de ter que apresentar os fundamentos bibliográficos de suas narrativas, algo não apresentado em boa parte da obra. Citações ocasionais de filósofos no corpo do texto, em momentos oportunos, não são suficientes, ao meu ver, para gerar novos leitores críticos pois a maior parte das narrativas não tem uma referência atrelada.

Sobre os textos contidos no livro, não os abordarei detalhadamente pois acredito que o leitor deve conferir e tirar suas próprias conclusões. As narrativas construídas por Ghiraldelli, criticando o presidente e pessoas ligadas a ele, possuem certo fundamento e são coerentes na maior parte do tempo. O texto é interessante. O problema reside em certas afirmações que podem, facilmente, ser consideradas falaciosas pois são construídas em argumentum ad hominem. Por mais que certos personagens reais sejam figuras execráveis, o ataque provocativo, por vezes contido no texto, afasta os eleitores que votaram em Bolsonaro. No artigo sobre os filhos do Bolsonaro, por exemplo, o possível tamanho diminuto do órgão genital de Eduardo Bolsonaro é citado (assunto que ganhou estranha notoriedade devido a ataques de uma ex-noiva dele), sem uma razão prática clara disso. Faltou uma nota de rodapé, uma referência, que explique a importância desse fato tosco num texto de filosofia/ciência política e que ajude, um possível eleitor do futuro, a entender todo o contexto citado. Citei esse exemplo isolado, mas isso ocorre várias vezes durante a leitura.

A POSTURA PROBLEMÁTICA DO AUTOR

Ghiraldelli é considerado uma figura polêmica dentro da esquerda. Ao meu ver, é mais do que isso: Ghiraldelli, muitas vezes, se comporta de forma belicosa. No início do livro, ele afirma: “(…) estou longe daqueles que dizem que “não é para polarizar”. Faço textos para radicalizar, polarizar e criar conflitos. Não faço livros para ter adversários, faço-os para ter amigos e inimigos”. Isso é problemático pois qualquer pessoa, absolutamente qualquer um, que ouse criticar algo que o Ghiraldelli disse/escreveu, passa a ser um “inimigo” em potencial. Em boa parte dos vídeos de Ghiraldelli, no YouTube, há ataques contra outras pessoas da esquerda brasileira. Uma das brigas mais antigas é com o jornalista Luís Nassif, agredido por Ghiraldelli por, supostamente, ter recebido dinheiro do Partido dos Trabalhadores (PT) durante os anos em que ocorreram escândalos de corrupção na gestão petista. O Nassif escreveu, anos atrás, um texto sobre o assunto (3). Houve ainda polêmica com alunos da UFRRJ, que interromperam uma aula do Ghiraldelli, acusando-o de discurso depreciativo contra minorias, fato que dividiu a comunidade acadêmica daquela instituição (4). Também se envolveu em polêmica com a jornalista Rachel Sheherazade (na época, alinhada à direita, hoje numa posição mais progressista) (5). Ele escreveu também textos polêmicos sobre pedofilia e estupro (6). Em tempos recentes, Ghiraldelli fez ataques contra pensadores progressistas tais como Leandro Karnal e Jessé Souza. Também atacou influenciadores de esquerda como o biólogo Pirula, a Sabrina Fernandes (do canal Tese Onze) e o escritor Henry Bugalho, ambos com atuação no YouTube. Alguns influenciadores progressistas, como a Gabriela Prioli (da CNN e YouTube), também foram atacados. Um apanhado de todas essas posturas pode ser conferido numa live transmitida por Carlito Neto, do canal “O Historiador” (6). Para dar o devido contraponto, recomendo a leitura da entrevista que o Paulo Ghiraldelli deu à revista IstoÉ (7) e a conferência de seu próprio canal de vídeos.

Essa postura belicosa do Paulo Ghiraldelli o isola. Políticos não participam de seu canal (9) provavelmente influenciados por esse histórico. Os ataques contra o Pirulla e o Henry Bugalho, citados acima, tem motivação estranha: seria porque, talvez, ambos abordaram o Ghiraldelli em algum vídeo antigo ou seria porque, por serem nomes em evidência, para se aproveitar da visibilidade dada pelo algoritmo do YouTube, Ghiraldelli crie polêmicas para tornar seu canal mais popular? Se for, trata-se de uma estratégia utilizada por influenciadores de direita no próprio YouTube como, por exemplo, Nando Moura, que por meio de discursos de ódio e ataques deliberados contra figuras conhecidas da esquerda, fez o seu canal crescer e se tornar tão relevante ao ponto do próprio presidente o citar como referência. Pode ser, é claro, sem querer ser injusto, uma mera divergência de opiniões, mas o histórico do autor faz com que todas as opções sejam consideradas. Por mais que o canal do Ghiraldelli tenha centenas de milhares de seguidores, isso não denota uma liderança no campo da esquerda.

Ghiraldelli argumenta que existe uma esquerda identitária que, num discurso pró-minorias, tomou espaço no debate político na medida em que o PT assumiu o comando do país, abandonando as ruas, o que afastou a esquerda do povo e possibilitou a ascensão da atual extrema-direita brasileira: bélica, violenta, intolerante, preconceituosa e retrógrada. É uma narrativa válida e é atualmente um debate existente dentro da esquerda brasileira. Porém, acredito que Ghiraldelli use essa narrativa como uma justificativa para excessos cometidos por ele no passado (citados anteriormente). Uma coisa, obviamente, não justifica a outra pois excessos… são excessos. E o identitarianismo é uma pauta que merece um debate maduro, razoável, sustentado por dados.

A verdade é que, ao longo dos anos, Ghiraldelli se sabotou várias vezes, tendo que se reinventar. Nada contra. O problema é que a postura problemática persiste. Paulo Ghiraldelli caminha, a passos largos, para se tornar a figura que ele mais execra. Ele tem se tornado uma espécie de “Olavo de Carvalho da esquerda”. Tal como Olavo, ele utiliza a erudição como uma forma de impor uma narrativa. Enquanto o guru conspiracionista e charlatão cita leituras (visto que ele não completou os estudos) e autopropaganda, Ghiraldelli cita também leituras e seu currículo, de forma narcisista, em falácias de apelo à autoridade. Enquanto Olavo possui alunos e discípulos que o seguem de forma cega, Ghiraldelli possui seguidores nas redes sociais. Se os olavistas questionam o guru, este os ataca com termos chulos e incentiva os demais membros a isolarem o “rebelde”; se algum seguidor de Ghiraldelli o critica/refuta, este é chamado de “burro” e outros termos. O Ghiraldelli criou, inclusive, um insulto para usar contra pessoas de direita, mas que ele também usa para qualquer pessoa que o critica: “DCP” ou “Deficiente Cognitivo Programado”, no qual uma pessoa, por livre vontade, abre mão de pensar, em favor de uma ideologia. São feitos ataques modificando o nome dos alvos com trocadilhos infantis, prática também olavista: nas palavras do Ghiraldelli, Gabriela Prioli vira “Gabriela Piolho”, Henry Bugalho vira “Bagulho Bochecha”, etc. Eu mesmo, que já tive uma conversa muito amistosa com o Ghiraldelli sobre uma outra resenha minha no passado, fui ofendido (chamado de “burro”) pela atual namorada dele em um chat promovido em seu canal do YouTube, quando fiz uma crítica parecida com a que você está lendo (10). Trata-se de um modus operandi do autor, que contamina quem o ajuda e/ou segue.

É visível que existe uma necessidade de Ghiraldelli em tentar monopolizar o debate e os caminhos da esquerda, algo que ele próprio critica o PT de fazer. Há também discursos fantasiosos como a de que ele foi o primeiro a pedir o impeachment de Bolsonaro, que ele lidera um movimento de resistência, etc. Há uma incapacidade de reconhecer quando erra, pedindo desculpas. Um exemplo emblemático foi envolvendo a Deputada Tabata Amaral (PDT). Ghiraldelli reagia com rispidez e ataques a qualquer crítica feita a ela, vindos da esquerda, oriundos da relação dela com o Movimento Acredito, quase um “partido clandestino”, nas palavras de Ciro Gomes (8). Contudo, ele foi obrigado a rever seu posicionamento quando a mesma Tabata votou a favor de uma Reforma da Previdência que atacava direitos dos aposentados, principalmente os mais pobres. A reforma foi aprovada. Não houve pedido de desculpas aos seguidores que ele atacou.

Nunca se precisou tanto de uma união das esquerdas, principalmente do PT e do PDT, para fazer frente ao cenário que se apresenta para as próximas eleições presidenciais, nas quais teremos, provavelmente, Jair Bolsonaro tentando a reeleição (se não sofrer impeachment devido aos crimes cometidos) e algum candidato da centro-direita-liberal (Sérgio Moro?). Afinal, o PT ainda está enfraquecido para uma disputa num segundo turno, Ciro Gomes possui um eleitorado já estabelecido e que não cresce, e outros nomes da esquerda são inexpressivos (em questão de votos). O jornalista Glenn Greenwald parece um dos poucos que percebeu isso e tem tentado propor um debate Ciro-Lula há tempos (11). A postura de Ghiraldelli prejudica todas essas iniciativas de se criar uma frente ampla para bater de frente com a direita.

CONCLUSÃO

O livro do Paulo Ghiraldelli possui narrativas interessantes, mas que não são isentas de questionamentos válidos e de falácias. A velocidade com que as coisas no atual Governo acontecem, tornam os livros sobre o assunto rapidamente defasados. Entretanto, tais livros são importantes por tirarem um retrato caótico do momento. No caso da presente obra, há uma carência de referências bibliográficas e notas de rodapé para auxiliar ao leitor que não acompanha o autor no dia-a-dia, dando a impressão que a edição foi feita de forma apressada, descuidada.

Por mais que devemos separar o criador da criação, a postura beligerante e narcisista do autor não deve ser negligenciada. Ela contamina a avaliação do livro, tumultua por baixo o debate dentro da esquerda, favorecendo grupos de direita que, supostamente, o autor combate.

É uma leitura válida, regular, que deve ser feita com o senso crítico ligado e afiado.

(1) GHIRALDELLI, Paulo. Filósofo Paulo Ghiraldelli. YouTube. Disponível em: <https://www.youtube.com/user/pgjr23>.

(2) Nota de julho de 2020: Alguns acontecimentos, ocorridos após o lançamento do livro, tornam a obra um pouco obsoleta. Cito, como exemplos, inquéritos criminais abertos contra os filhos do Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e os ataques contra o STF, o Congresso, o Senado e a imprensa, cometidos por militantes bolsonaristas em retaliação. Alguns aliados do Bolsonaro citados no livro romperam com o presidente, tais como a Deputada Joyce Hasselmann e o ex-juiz Sérgio Moro (que prendeu Lula – quando ele liderava a corrida presidencial – e ganhou o cargo de Ministro da Justiça), que saiu fazendo acusações graves e fundamentadas contra Bolsonaro. Cito ainda a forma irresponsável e criminosa como o Governo Federal lidou com a pandemia de covid-19, maior crise sanitária mundial dos últimos cem anos e que, no presente momento, matou mais de 80 mil brasileiros, número que seria bem inferior se Bolsonaro tivesse seguido as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS). Nos últimos dias, Bolsonaro foi denunciado no tribunal internacional, em Haia, por genocídio e crimes contra a humanidade.

(3) NASSIF, Luís. O caso do “filósofo” Ghiraldelli. Jornal GGN, 27 de agosto de 2010. Disponível em: <https://jornalggn.com.br/noticia/o-caso-do-filosofo-ghiraldelli/>.

(4) PINTO, Ana Carolina. Alunos da Rural invadem sala e acusam professor de machismo, racismo e homofobia. Extra, 19 de novembro de 2013. Disponível em: <https://extra.globo.com/noticias/educacao/vida-de-calouro/alunos-da-rural-invadem-sala-acusam-professor-de-machismo-racismo-homofobia-10822275.html>.

(5) R7. “Espero que ela seja estuprada”, diz professor de filosofia sobre apresentadora de TV. R7, 27 de dezembro de 2013. Disponível em: <https://entretenimento.r7.com/famosos-e-tv/espero-que-ela-seja-estuprada-diz-professor-de-filosofia-sobre-apresentadora-de-tv-07102019>.

(6) NETO, Carlito. Precisamos falar sobre Paulo Ghiraldelli e o papel da esquerda. YouTube, O Historiador, julho de 2020, 97 minutos. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=lzK9nUIKXCw>

(7) GIRON, Luís Antônio. Entrevista – Paulo Ghiraldelli filósofo: Petista faz auê, bolsominion é perturbado. IstoÉ, 13 de dezembro de 2019. Disponível em: <https://istoe.com.br/petista-faz-aue-bolsominion-e-perturbado/>.

(8) ARCANJO, Daniela. Ciro diz que movimento de Tabata é ‘partido clandestino’ e que ela faz dupla militância. Folha de S. Paulo, 13 de julho de 2019. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/07/ciro-diz-que-movimento-de-tabata-e-partido-clandestino-e-que-ela-faz-dupla-militancia.shtml>.

(9) Nota de julho de 2020: Em tempos recentes, Guilherme Boulos (PSOL) negou um convite para participar de uma conversa com Ghiraldelli, por exemplo.

(10) Fato ocorrido em uma live, no YouTube, em julho de 2020.

(11) Nota de julho de 2020.

NOTA: 2/5 (regular).

FICHA: GHIRALDELLI, Jr., Paulo. A filosofia explica Bolsonaro. São Paulo: LeYa, 2019, 176 páginas.

P.S.: Caso tenha gostado do que escrevi, visite https://mftermineideler.wordpress.com/
Manoel Frederico
Enviado por Manoel Frederico em 07/09/2020
Reeditado em 13/09/2020
Código do texto: T7057175
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Sobre o autor
Manoel Frederico
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