Em tempos de depressão emocional, um anjo avisa: é preciso crer.

Tenho algumas convicções sérias. Uma delas: anjos existem. Algumas anjas já passaram pela minha vida, como a minha avó, a tia Norma, a Heloísa e, sobretudo, o meu filho, um anjo companheiro, doce e divertido.

Dia desses notei uma preciosidade num sebo que frequento. O livro intitulado“Sorrisos de Bombaim”, de Jaume Sanllorente.

Pela primeira vez tive o santo privilégio de ler um relato extremamente bem elaborado e emocionalmente profundo por parte de um jornalista de Barcelona que, numa viagem de férias, foi a Bombaim e se deparou com a lastimável miséria das favelas habitadas pelos dalits, os intocáveis, os mais pobres, da mais baixa casta indiana.

As descrições me provocaram choro, náuseas e uma noite sem dormir. Jamais havia me deparado com a tragédia das crianças, com mutilações propositais para que se tornassem mendigas capazes de provocar piedade e posterior recebimento de umas poucas rúpias. A venda de crianças para prostíbulos, dos mais sórdidos e imundos espaços para qualquer ser vivente.

Movido pelo sentimento profundamente humano e cristão, o jovem Jaume de apenas trinta anos se dispôs a criar uma ONG, vender os seus bens, tendo antes consultado o próprio pai, e se mudou em definitivo para Bombaim com o propósito de alfabetizar as crianças dalits para que viessem, um dia, a construir a sua própria dignidade.

Procurou, primeiro, um orfanato nas piores condições num bairro periférico, tristemente marcado pela existência dos mais vis prostíbulos, com crianças abandonadas e famintas, sem a mínima perspectiva de vida. Começou por ali a pagar as dívidas da casa, a se ocupar da alfabetização de meninos e meninas sempre respeitando as diferenças religiosas e culturais, ganhando respeito e simpatia... mas nem sempre.

Recebeu ofensas, ameaças diversas, mas dizia que o sorriso e a história de vida daquelas crianças haviam marcado sua vida e sua trajetória pessoal para sempre.

“A viagem que mudou meu destino” é o subtítulo da obra e mudou também o caminho de vida, no início, de quarenta crianças. No final do livro, mais de duas mil.

E ainda, passou também a se envolver com as pessoas marcadas pela lepra, no seu abandono, na sua miséria abissal, na sua tristeza, na pior amargura da certeza da morte junto da solidão.

Na página 170/171, ele cita o Brasil no Programa da Renda Mínima .

Transcrevo:

“A situação nas favelas me fez consultar os planos estabelecidos no Brasil no governo Lula da Silva por meio de pagamento de rendimentos fixos a famílias pobres, estas eram incentivadas a escolarizar os filhos. (...) O programa (...) pretendia reduzir o trabalho infantil, visto que o depósito monetário permitiria compensar o que as famílias deixariam de receber pelo fato de seus filhos não mais trabalharem(...) além disso, aumentaria o nível de escolarização dos filhos das famílias pobres, com o consequente impacto sobre a redução da pobreza futura. A educação se convertia no principal instrumento para romper o círculo da pobreza(...).

Fiquei extremamente grata pelo fato de o jornalista ter consultado informações precisas sobre o nosso hoje tão abandonado país, quando ainda existiam propostas sociais antes de um malfadado golpe. Obrigada, Jaume.

Obrigada também por trazer alento, esperança e fé para essa sociedade tão absolutamente excluída, sobretudo crianças famintas, tendo um muro cinza apenas como o único horizonte.

Grata pela inspiração, pelo abandono de si mesmo, por abraçar calorosamente pessoas necessitadas de tudo, por deixar escrito naqueles corações que a humanidade se faz viva quando se trabalha para a felicidade no sentido coletivo.

Obrigada, Jaume. Você soube, através do seu brilhantíssimo trabalho, apresentar ao mundo um outro lado das possibilidades de viver com ao menos um pouco de justiça e serenidade. Imagino São Francisco te observando amorosamente com um sorriso macio e olhar brilhante, na certeza de que a paz ainda é possível.

“Sorrisos de Bombaim” – Jaume Sanllorente – Ed. Larousse.

www.sonrisasdebombay.org

Vera Moratta
Enviado por Vera Moratta em 01/12/2020
Reeditado em 12/02/2021
Código do texto: T7124997
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