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Teatro_PASSADO, PRESENTE!

Passado, presente!


PRÓLOGO

Ao chegar ao teatro, o público depara-se com Efigênia entregando panfletos do conjunto habitacional a Vila.

EFIGÊNIA- Boa noite, interessado em investir em um imóvel?  Estou divulgando o conjunto habitacional A Vila, condomínio fechado classe A com escola, hospital, posto policial com vigilância 24 horas, onde só moram famílias tradicionais. Qualquer coisa pode ligar nesse número, sou Efigênia, corretora.

ATO I

(I)
Casa dos Moraes.
Gioconda limpa os móveis com um espanador enquanto Amauri lê um jornal de cabeça para baixo. Gioconda deve limpar os móveis e volta e meia, parar e ficar imóvel.
GIOCONDA- Está acontecendo o que não queríamos,Ângelo está sendo corrompido por essa sociedade e por essas músicas que vem lá de fora!
AMAURI- Saudades da minha época de Cabo. A vida era dura, tinhamos que andar na linha.
GIOCONDA- Está ouvindo o som da corneta, querido? Eu acreditei que Ângelo pudesse ser um adolescente diferente desses outros que vemos na televisão, que ele seguiria princípios militares, que dedicaria a vida a seguir as boas normas.
AMAURI- Certamente esse espírito rebelde, ele herdou do seu pai.
GIOCONDA- Ora, mas ele nem conheceu papai. O frango deve ficar pronto em duas horas. E meu pai não era rebelde e sim, líder estudantil. Certamente ele herdou esse espírito da sua mãe, que era uma, como posso dizer...vadia!
AMAURI- Está ouvindo o som da corneta? Mamãe não era vadia, era atriz!
GIOCONDA- O que não muda muito, não é? Acho que vou preparar um chá!
AMAURI- É muito fácil inventar justificativas para esse menino ser dessa forma, quando na verdade sabemos bem o por que.
GIOCONDA- Ângelo é um menino frágil, fácil de ser influenciado.
A luz abre no quarto de Ângelo que deve estar organizando as coisas.
AMARURI- Ângelo é um menino perturbado, tem problemas na cabeça, coitado. Por que não fez omeletes ao invés de frango?
GIOCONDA- Não entendo de quem ele pode ter herdado esse problema já que somos tão normais. Já sei, nem omeletes nem frango, vamos comer chá com torradas.
AMAURI- Faz um tempo que você não limpa as teias de aranha dessa casa, veja lá, uma aranha enorme andando pelo teto.
GIOCONDA- Acho que preciso fazer a unha do pé. Você gosta dos meus pés, Amauri? Está ouvindo a corneta?
AMAURI- Na verdade, ouço outro tipo de música, aquela que vem de lá do outro lado.
GIOCONDA- Da cidade?
Som no quarto de Ângelo, que nesse momento já está de boné de aba reta.

Não passarão
Tentam me proibir de ser quem sou
e eu digo não à opressão.
Eu digo alto e em bom som:
-Eles não, eles não passarão!
Vivemos em um tempo
Onde devemos dar as mãos,
Seguir em frente sem desistir
Por aqui eles não, eles não passarão.
4X - Não, não passarão
Enquanto eles seguram armas,
Tenho uma flor em minha mão.
Enquanto eles pregam o ódio,
O meu papo é sobre união.
E cada vez mais eu grito pelas ruas,
Fascistas, racistas, homofóbicos, misóginos,
Não passarão.
GIOCONDA- (VOZ)- Ângelo!!!!!
ÂNGELO- Puta que... (ele desliga o som, pega um caderno e finge estudar)
Entram Amauri e Gioconda.
GIOCONDA- Como está conseguindo estudar com esse barulho maldito? Que cheiro é esse, alguém está queimando mato por aí!
ÂNGELO- É...incenso!
GIOCONDA- Incenso é coisa de estudante de humanas!
AMAURI- Quem deixou a porta do seu quarto aberta?
ÂNGELO- Vocês, quando entraram!
GIOCONDA- Está ouvindo a corneta? Eu e seu pai não vemos a hora de nos mudar desse lugar, não faz bem pra você ficar perto de tanta...
ÂNGELO- Diversidade? Quando vocês vão entender que não se foge do que realmente nos pertence?
GIOCONDA- Você acha bom comermos torradas ao invés de frango? Ou prefere omeletes?
AMARURI- A corneta!
Os dois estatizam.
AMAURI- Isso são coisas dessa época, Quando nós, militares, controlávamos nosso país, coisas como essas jamais aconteciam. Vai fazer chá de quê, Capim limão?
ÂNGELO- Vocês estão falando como se fosse bom viver na ditadura, onde apenas ser si mesmo e não pensar dentro de uma caixa, já era um erro.
GIOCONDA- Não, Amauri, o chá será de erva doce, o seu preferido. Era uma época onde tudo no país andava da forma correta.
ÂNGELO- Espero que um dia vocês acordem e percebam que da próxima vez que baterem panelas, é porque estão vazias.
Sai.
GIOCONDA- Amauri, não adianta. Precisamos mudar desse lugar e ir pra um lugar mais próximo da nossa realidade, antes que a gente perca nosso filho pro mundo. Quem pintou as paredes de verde?
AMAURI- São verdes? Não havia reparado. Sim, vamos procurar um lugar melhor pra morar. Hoje mesmo vou em algumas corretoras, procurar um imóvel novo!
GIOCONDA- Ouça, a corneta!
Os dois fazem continência e a luz fecha.

(II)
Nota do dramaturgo: uma mulher vendendo balões deve passar pela cena em algum momento.
Entram em cena, Hortência e Azaléia.

HORTÊNCIA- Ouvi dizer que haverá uma manifestação aqui no centro da cidade em prol da cultura e da educação.
AZALÉIA- Em prol de se mamar nas tetas do governo isso sim.
HORTÊNCIA- Pois quando voltarmos a Vila, vamos dizer a todos e organizar uma marcha pela moral e pela família tradicional.
AZALÉIA- Onde está Margarida
Entra em cena, Margarida.
HORTÊNCIA- Finalmente. Espera, não acha que vai sair conosco dessa forma, não é?
MARGARIDA- Como “dessa forma”? Do meu jeito?
AZALÉIA- Esse batom vermelho e essa saia, típicos de uma vadia.
MARGARIDA- Vocês devem conhecer muitas vadias para saber como se vestem, não é?
HORTÊNCIA- Não precisa, isso é tão característico que não precisa nem conhecer para saber. Uma mulher deve se dar ao respeito.
AZALÉIA- Isso inclui se arrumar de um jeito que induz os homens a transar com você!
MARGARIDA- E vocês acham que um homem vai me assediar só porque estou com essa roupa? E o que me difere de vocês, por exemplo? Assédio é assédio e um homem não vai deixar de violentar vocês porque usam essas roupas.E já passou da hora de vocês perceberem que nós, mulheres, devemos nos unir e não ficar criticando uma a outra pois estamos todas no mesmo barco.Já ouviram falar de sororidade?
HORTÊNCIA- E o que o soro tem a ver com isso? Olha, mulheres precisam se dar ao respeito, caso contrário os homens caem em cima.
AZALÉIA- Ou como já dizia nossa tia, amarrem as cabras que os bodes estão soltos.
MARGARIDA- Que dó de vocês. Aliás, vocês acharam mesmo que eu estou indo com vocês a algum lugar? Me poupem. Sempre vivi embaixo das asas de vocês mas já fiz dezoito anos e não sou obrigada!
AZALÉIA- A gente quer o melhor pra você e não queremos ver nossa irmã sendo chamada de vadia pelas ruas.
MARGARIDA- Pois, se ser eu mesma é ser vadia, então, sou vadia!

Sou vadia
Sou o que sou desse jeito que estou, amo minhas roupas, meu cabelo meu batom.
Se querem me fazer ser quem não sou, é melhor mudarem o tom.
Não me importa o que pensam, não mudo meu jeito por ninguém.
E mesmo que achem que não tem nada a ver com isso,
Digo: vocês são vadias também.
Numa sociedade machista ser mulher é ser vadia.
Numa sociedade patriarcal, ser mulher é ser vadia.
Tentaram nos calar, nos inibir, nos retalhar,
Mas por direito eu digo, o que é meu não vão tirar!
Sou mulher e sou vadia sim, e não me importa o que vão falar de mim.
Não voltaremos pra cozinha nem pras roupas a costurar.
Eu estou no meu lugar, batalhei pra conquistar.
Se ser vadia é ter coragem, vou gritar até o fim. Sou vadia sim!


AZALÉIA- Pelo visto, já foi corrompida pela sociedade.
HORTÊNCIA- Não ligue pra ela, está sendo influenciada pela mídia. Bem, estamos indo.
MARGARIDA- Já vão tarde!
Passa em cena, Ella.
MARGARIDA- Ella, espera.
ELLA- Margarida, não posso ficar muito tempo na rua.
MARGARIDA- Eu sei. Olha, você sabe sobre a manifestação que haverá na cidade. Queria tanto que você pudesse fugir e irmos juntas. Vou sair na encolha.
ELLA- Impossível, você sabe bem como é minha mãe.
MARGARIDA- Lembra aquela vez que conversamos e você me disse que seu desejo era se libertar de tudo isso, dessas roupas, desse jeito que não é seu? Que você sempre quis se chamar...
AS DUAS- Pedro!
MARGARIDA- Ella, nós duas sabemos quem você é de verdade. Você acha que conseguirá ser feliz sendo alguém que você não é?
ELLA- Não é questão de querer, Margarida, é questão de simplesmente ter que aceitar. E se eu for expulsa de casa, como vai ser?
MARGARIDA- Você vai perder uma casa pra ganhar outra. Você mesma! Pense direito sobre isso. Haverá uma reunião para decidir sobre a marcha que farão na manifestação. Você precisa escolher um lado, escolha o seu!
 (III)
Pela platéia, Efigênia oferece os panfletos ao público até chegar ao palco.
EFIGÊNIA- Como é difícil. Mas enfim, fui dar uma de rebelde e dizer aos meus pais que queria ser livre e não queria fazer faculdade de direito, agora estou aqui, tentando vender imóveis em troca de uma mísera comissão. Ah, Deus podia logo era me mandar um monte de gente pra eu oferecer tudo de uma vez.
Ouve-se barulho de instrumentos vindos de longe. (possivelmente de fora do teatro) Vem o cortejo pela platéia, cantando e gritando palavras de ordem. Pedem direito a cidade, cultura, saúde e educação. No cortejo tem personagens e frente a ele, vem Jhonny e Susan. Chegam ao palco.
JHONNY- Atenção, atenção! Esse aqui será o nosso ponto final que começará com uma caminhada pela avenida, certo?
SUSAN- Não esqueçam quantos mais cartazes e panfletos, melhor.
JHONNY- Só não esqueçam quando entregar o panfleto, pedir às pessoas que não joguem no chão, afinal, não adianta querer ter uma cidade melhor e com mais equidade, sem cuidar bem dela, né?
EFIGÊNIA- Moço, tudo bom? Vocês que serão os responsáveis pela manifestação?
JHONNY- Não só a gente, mas você também, se quiser.
EFIGÊNIA- É que eu quero aproveitar que terá bastante gente pra distribuir meus folders, estou vendendo imóveis na Vila.
SUSAN- A Vila, aquela do outdoor com criança fazendo arminha com a mão ao lado do pai e da mãe e embaixo escrito em letras garrafais...
SUSAN E JHONNY- O lugar da família tradicional.
EFIGÊNIA- Ah, ótimo que vocês já conhecem. Fica no centro, tem acesso a tudo, tem um ótimo colégio, hospital de primeira e o mais importante: segurança!
JHONNY- Nossa, que lugar maravilhoso, ta ouvindo Susan?
SUSAN- Sim, maravilhoso mesmo. E qual o critério pra morar lá?
EFIGÊNIA-Primeiramente, é preciso ter uma família tradicionalmente brasileira.
SUSAN - Então já me encaixo. Meu pai não me assumiu, minha mãe me criou sozinha trabalhando como empregada doméstica e fui criada por minha vó, como acontece em muitas casas onde moram famílias tradicionalmente brasileiras.
EFIGÊNIA- Não, não é desse tipo de família que estou falando. A família a que me refiro é a base, o alicerce, pai, mãe, filho, entende? Bem, continuando, para morar lá, além de ter uma família tradicional e com princípios, as pessoas precisam estar cansadas!
JHONNY- Opa, então já vou chamar o pessoal lá do bairro pra morar lá. O que tem de gente cansada por lá. A Dona Zefa mesmo que sai as cinco da matina e chega em casa as sete da noite e ainda tem que cuidar dos filhos e deixar comida pronta pro dia seguinte. Tá cansada a veia.
EFIGÊNIA- Não, não é desse tipo de cansaço. É cansado de desordem, de ver as pessoas ocupando espaços que não deveriam estar, entende?
JHONNY- Como nós? Esse lance de lugar ideal só serve para os privilegiados, entende? E esse país não é um país de equidade, então, acredito eu, que você está vendendo seu imóvel para as pessoas erradas.
EFIGÊNIA- Mas e a segurança? Todo mundo quer morar num lugar seguro, não é?
JHONNY- Sim, claro!Afinal, somos induzidos o tempo inteiro a ter medo. Se dizem que aqui não é seguro, constroem um lugar seguro e caro, assim, todos saem ganhando. O cara que assaltou é porque não tem emprego e então precisa roubar pra se alimentar. Ficando preso, ele deixa de contribuir com o governo e assim, dificilmente irá se aposentar ou seja...
SUSAN- O governo não terá custos com esse cidadão que mofará na cadeia. E tudo isso por quê? Porque o medo rende muito dinheiro e não é pra você que certamente irá ganhar uma comissão tão mixuruca que mal dará pra passar o mês. Agora vamos, ainda precisamos pegar o metrô lotado e hoje ainda tem sarau na praça, galera!
EFIGÊNIA- Espera, posso ir também?
JHONNY- E seus imóveis?
EFIGÊNIA- Depois eu vendo. Eu preciso conhecer outros mundos pra encontrar meu verdadeiro mundo. Meu sonho sempre foi ser antropóloga.
SUSAN- Olha, então seremos fonte de pesquisa antropológica. Periféricos: como vivem, como se vestem, o que comem. Vamos, quem sabe você não encontre seu verdadeiro mundo!
Saem em cortejo com Efigênia atrás, confusa.


(IV)
Judith entra em cena machucada. Anda com um dos sapatos, cai no centro do palco. Entram Jean e Rafael.
JEAN- Eu falei pra correr, vagabundo!
RAFAEL- Qual foi a parte que você não entendeu que não queremos ver você por aqui?
JUDITH- Me deixem em paz, eu não estou mexendo com vocês.
JEAN- Só que essa cidade aqui não é pra gente como você. Homem nasceu pra ser homem, viadinho!
JUDITH- Eu não sou viado. Eu sou travesti!
RAFAEL- E ainda fala com orgulho.
JUDITH- Eu tenho orgulho de quem sou sim. O mundo me tirou todas as oportunidades e eu precisei correr atrás do meu, do meu jeito. Isso não me faz pior que nenhum de vocês!
RAFAEL- Você está se comparando a nós? Jean, pega ali aquele pedaço de madeira, vamos mostrar pra esse viadão que gente como ele não deve dirigir a palavra pra gente como a gente.
JEAN- A gente não pode bater nesse viado aqui, alguém pode ver.
JUDITH- Me deixem seguir meu caminho, eu não vou mais cruzar o de vocês.
RAFAEL- Falando assim, deu até pena. Mas não acho que você ainda não aprendeu que não é sobre cruzar o nosso caminho e sim, sobre não caminhar por lugar algum. Pega ele, Jean.
Após muito se negar, Judith e arrastada pra fora da cena com os dois. Os gritos dela devem se misturar ao som de uma corneta que anuncia a entrada dos Moraes.
(V)
Entram Gioconda e Amauri. Usam capas de chuva.
GIOCONDA- Ângelo, espero que sua  estapafúrdia de não usar proteção não acabe nos infectando.
ÂNGELO- Ah, a senhora sempre usando essas expressões de antigamente. Os tempos são outros, mãe!
AMAURI- Ora, nos respeite, somos seus pais!
GIOCONDA- Estamos usando essa capa porque não queremos nos contaminar com esse ar infesto dessa cidade podre.
AMAURI- Capa? Quem está usando...ah sim, estou usando!
ÂNGELO- Do que adianta cobrir o corpo se a parte infectada não está fora?
GIOCONDA- Eu vou fingir que não entendi.
AMAURI- Eu não entendi.
GIOCONDA- Bem, pelo informe que colocaram na caixa de correios, esse conjunto habitacional é maravilhoso e a nossa cara.
ÂNGELA- Fica num hospício?
AMAURI- Não filho, é a Vila...
ÂNGELA- Ele está sendo irônico conosco, Amauri.
AMAURI- Ora, menino. Não seja irônico com a gente, somos seus pais!
GIOCONDA- Engraçado, não lembro de já ter passado por aqui.
ÂNGELO- Ainda estamos na quadra de casa, mãe!
GIOCONDA- Sério? Pra mim era tudo diferente. Será que a nossa casa terá porão?  Bem, vamos.
Passa por eles a senhora vendendo balões.
GIOCONDA- Veja Amauri, essa mulher foi a festa de aniversário e está saindo com todos os balões.
AMAURI- Deve ter muitos filhos e netos para entregar. A corneta!
Os dois estatizam.
ÂNGELO- Essa mulher está trabalhando pra sobreviver. Num mundo não muito distante do de vocês, as pessoas trabalham!
Os dois voltam.
AMAURI- O que você disse?
GIOCONDA- Ele disse que ainda estamos na quadra de casa. Vamos!
Saem.
Ouve-se um barulho de carro e um balão voa sozinho pela cena.

(VI)
Entra uma jovem fazendo um Slam. No meio da batida, devem entrar diversas pessoas se manifestando culturalmente. Eles cantam e dançam numa grande festa popular.
SUSAN- Gostou de pegar metrô lotado?
EFIGÊNIA- Já havia pegado metrô sim. Apesar de morar no centro da cidade, nem sempre saio de carro porque é difícil encontrar lugar pra estacionar.
SUSAN- Saquei! E então, está conseguindo se manter com o emprego de corretora?
EFIGÊNIA- Na verdade eu cursava direito, mas minha família passou por uma grande dificuldade, meu pai passou a ganhar um pouco menos e tivemos que cortar algumas coisas, tipo, todo ano a gente ia pra algum litoral e estamos evitando. Daí tive que arregaçar as mangas. Meu pai falou com um amigo dele que tem uma construtora e ele conseguiu esse trabalho pra mim, mas tenho que ralar muito, é só meio período, mas tenho que andar um pouco. E você?
SUSAN- Me formei em artes cênicas e trabalho com atriz independente. Mas mesmo tendo passado a vida toda só com minha mãe me ajudando e a mais três irmãos, eu faço meus corres.
EFIGÊNIA- Aqui é meio perigoso, não é? Dizem...
SUSAN- As pessoas dizem muitas coisas, principalmente se é o que querem que escute. Todo lugar é perigoso só que uns são rotulados.
A música recomeça e todos dançam alegremente. Efigênia se deixa envolver pela música.

(VII)
Hortência e Azaléia tiram selfie com a camisa do Brasil.
HORTÊNCIA- Pronto, agora é postar: lutando por um país melhor. Você acha que essa frase vai dar like?
AZALÉIA- Ainda to tentando digerir o garoto que dia desses no facebook, dizendo que ir pra rua é um direito legítimo.
HORTÊNCIA- Legítimo? Onde já se viu? Eles não sentiriam tanta desigualdade se ficassem lá onde moram, agora querem ir pro da cidade, ter direitos iguais ao nosso.
AZALÉIA- E ainda há o mimimi de falta de oportunidade e desigualdade, enfim, vitimista mimizento. Eles querem que a gente carregue uma culpa que não é nossa e ainda nos faz sentir obrigados a ter que concordar com eles. Gente, eu não tenho culpa de ter nascido branca e se eu tenho a minha vida é porque eu mereci!
HORTÊNCIA- Pois o governo faz muito bem em cortar tudo. Corta mesmo. Corta cultura, corta educação pra pobre, corta a floresta. Aliás, preciso cortar as pontas do cabelo. Quero está linda pra marcha.
AZALÉIA- Tem uma galera ensaiando uma coreografia, acho que vou dançar também.
HORTÊNCIA- Ótimo, também quero!
Saem.
Passa pela cena, Gioconda.
GIOCONDA- Adorei a Vila, lugar perfeito para nossa família. Meus Deus, Amauri, você desligou o gás?
Amauri chega.
AMAURI- Desculpe querida, estava contando os ladrilhos pretos da calçada para não pisar.
GIOCONDA- Vamos, temos muito a organizar da nossa mudança. Onde está Ângelo?
AMAURI- Vem um pouco mais atrás, pedi pra ele me comprar um soro pro nariz.
GIOCONDA- Oh, Deus! São os efeitos dessa cidade, está começando a causar alergia. Não deveria ter deixado Ângelo só, se ele encontrar os pederastas? Vamos pra casa logo querido!
Margarida passa pela cena. Passam por ela Rafael e Jean.
RAFAEL- Ô lá em casa.
JEAN- Delícia. Vestida assim, eu até caso!
MARGARIDA- Ah, vão pro inferno seus heteronormativos de merda!
JEAN- Vixi, ta bravinha!
RAFAEL- Fica ainda mais gostosa brava. E aí, que tal, rola algo a três?
MARGARIDA- (rir)Idiotas!
JEAN- Qual é gatinha, ta me tirando é?
MARGARIDA- Sabem o que é intimidade? Algo que não dei a vocês!
RAFAEL- Agora que eu vi. Se manca garota, olha só pra você. Seu jeito já deixa claro o que você quer e quem você é.
JEAN- Você é daqueles tipos de garota que gostam de abusar da sensualidade pra chamar a atenção e depois quando a gente dá em cima, fica falando que nós estamos errados.
RAFAEL- A gente é homem, se vê uma mulher gostosa, tem que dar em cima mesmo, né não?
MARGARIDA- Né não! A forma que eu estou vestida não dá a vocês o direito nem sequer de me dirigir a palavra caso eu não queira!
JEAN- Já saquei qual é a sua...feminista de merda!Deve ser dessas que é a favor do aborto e acha que mulher não precisa de homem pra nada!
RAFAEL- Você quere ocupar espaços mas seu espaço é dentro de casa deixando comida pronta pro seu macho e de pernas abertas pra satisfazer o desejo dele!
MARGARIDA- Vão pro inferno!
Ela vai saindo, os dois a abordam e a acuam. Ângelo chega.
ÂNGELO- Ei, idiotas.
RAFAEL- Tu chamou a gente do quê, viadinho?
ÂNGELO- Eu gritei idiotas, olharam porque quiseram.
JEAN- Filho duma puta!
Jean acerta um golpe em Ângelo.
RAFAEL- Corre,cara, ta vindo gente, bora!
ÂNGELO- Isso, corre! Cambada de enrustido!
MARGARIDA- Cala a boca, menino, vai que voltem, são dois contra um. Puta merda, acertaram seu olho em cheio.
ÂNGELO- Relaxa, pelo menos você está bem!
MARGARIDA- Tem um posto aqui perto, eu vou contigo.
ÂNGELO- Relaxa, isso passa com gelo.
MARGARIDA- Depois de ter me livrado de uma, eu te devo outra, vamos!
Estopa grita da platéia.
ESTOPA- Ele está chegando!Ouçam, ouçam bem. Aquele homem que morreu por nós, está voltando. E quando ele voltar, ele se sentará com a gente, os pobres e injustiçados. Ele viverá do lado esquerdo, onde vivem todos aqueles que estão às margens da indiferença. Ele voltará e será pra viver com os pobres, meu irmãos. Com os pobres.
Divina entra por outro lado da platéia.
DIVINA- Vamos todos, vamos marchar em prol da moral e dos bons costumes. Em prol da família brasileira. Tragam suas panelas, suas camisas verde e amarela. O mundo está sendo destruído por essa mídia que quer influenciar nossos filhos a virar gays e lésbicas. Não deixem seu filhos assistirem a esses desenhos. Bob Esponja, Elza do Frozen, são tudo gay. Eu vi Jesus no pé de macieira e ele me disse que estão querendo nos destruir. Eles querem nos destruir.
ESTOPA- Jesus não separa as pessoas e ama a todos da mesma forma!
DIVINA- Alguém cala a boca desse ser imundo. Quando Cristo voltar, ele tem morada certa. Ele vai morar com as pessoas de bem, aquelas que prezam pela moral e seguem a risca tudo aquilo que ele ensinou. Acha mesmo que Cristo vai olhar pra você, pedaço de trapo? Certamente você deve ter feito algo muito ruim pra hoje viver nas ruas como um lixo humano. Você deveria ter vergonha em falar o nome de Cristo.
ESTOPA- Foi da boca dos pobres que Jesus sempre ouviu as mais belas e verdadeiras palavras, minha senhora. Foi com os pobres que ele escolheu viver. Foi aos pobres que ele sempre defendeu.
DIVINA- Quem é você para falar de Cristo assim meu rapaz? Olhe bem para você!
ESTOPA- Eu sou o filho de Deus. As minhas vestes pobres não significam nada para ele. Minhas mãos sujas se erguem para o céu para agradecer da mesma maneira que as suas! Dessa boca feia e desdentada também saem palavras que agradam ao Senhor... como a sua! Não são as minhas vestes que me fazem menos merecedor do amor e da piedade divina. Agora, a senhora como uma mulher de Deus, deveria saber como tratar os seus semelhantes. Acha que me visto com vestes pobres e me arrasto pela cidade por que fui castigado por Deus. Mas antes viver da forma que vivo ,sujo por fora porém limpo por dentro do que me esconder por detrás de belas roupas e sustentar uma alma tão podre quanto os bueiros dessa cidade? Não é preciso ser impuro para proferir palavras impuras, assim como não é preciso ser puro para proferir palavras puras. Veja bem. Aqui estou eu, defronte a uma pessoa tão pura e tão culta e eu te pergunto: de que boca saíram as mais sujas palavras?
DIVINA- Alguém cala a boca desse louco! Olha aqui meu rapaz. Quando Jesus voltar, ele sabe bem onde estará os seus servos. Pessoas limpas, de bem, longe de toda essa sujeira. Quando ele voltar e eliminar todos vocês da face dessa terra, ele virá aqui, ver conversar com os seus filhos de bem. Ele virá para a Vila.
Abre Luz na Vila
A VILA
Livre da perdição desse mundo
Da música, arte e sujeitos imundos
Onde a paz vive a reinar
Onde o sol jamais deixa de  brilhar
A Vila decente de gente clemente
Distante das dores de um mundo pungente
Onde não vai se pecar
Onde não vou blasfemar
A Vila pra vida na vila tem vida
A vila cultiva temor e alegria
Na vila desfila pupilas e encantos
A vila é seu lar, é seu canto e descanso
A vila!
Pra quem quer saúde,educação, qualidade, segurança,
A Vila!
Quando achavas que pensar era bom
Agora que sabes que deves calar
E jamais discordar do que o militar falar
Agora tu podes ter calma !
Agora no céu poderás tu entrar !
Agora tu podes ser salvo !
Se em nossa Vila vieres morar !
A vila!
Santa paz pra nossa gente
A vila!
Salve os santos e decentes.

DIVINA- Agora, sai da frente da nossa vila pois seu ar sujo está empesteando nosso ambiente.
ESTOPA- Será um grande prazer sair da frente da sua Vila. Sabe que é uma grande conquista estar aqui há tanto tempo e ainda conseguir pensar? (ri e sai)
DIVINA- Esse é um dos muitos que existem pela cidade. Falsos profetas. Todos ão de arder na fogueira do inferno!
Sai.

FIM DO ATO


ATO II
(I)
_Um lugar de inocentes_
Entram Divina, Gioconda e Amauri.
GIOCONDA- Ah, como é bom estar num lugar onde o silêncio traz o som dos céus. Parece que ouço anjos a cantar e sinto o cheiro do feijão que certamente esqueci no fogo!
DIVINA- Não há cheiro de feijão algum dona Gioconda. Mas sim, aqui estamos tão protegidos dos barulhos dessa cidade profana. Que bom que estão gostando da Vila. Já podem se considerar pessoas privilegiadas!
Entra em cena, Benvindo.
DIVINA- Esse é o senhor Benvindo!
AMAURI- Ah, então também é morador novo? Bem vindo!
DIVINA- Não, seu Amauri, o nome dele é Benvindo!
GIOCONDA- Prazer senhor Benvindo, sou Gioconda, esse é meu marido e meu filho Ângelo. Ora, onde está Ângelo?
AMAURI- Não o vejo desde...não sei!
Benvindo cheira Gioconda e Amauri como um cão.
GIOCONDA- Oh, senhor Benvindo, que despautério!
DIVINA- Perdoem, ele enfrenta alguns problemas, desde que uma granada explodiu perto dele. Dizem que o estopim o fez ficar meio biruta.
BENVINDO- Recruta? Alguém disse recruta? Atenção homens, sentido!
Ouve-se a corneta, todos estatizam.
BENVINDO- Olá, meu nome é Shirley e eu acho que devemos agora adorar o deus sol. –ajoelha-se-
DIVINA- A granada... relevem!Olha só quem chega. Dona Joana, uma candura de mulher. Cheia de princípios e temente a Deus, ajuda os pobres!
JOANA- (voz grossa)- Olá dona... (pigarro, voz fina) olá dona Divina, vejo que chegaram novos moradores.
DIVINA- Dona Joana, sempre gripada, não?
JOANA- Nunca me acostumei ao clima dessa cidade.
GIOCONDA- A senhora veio de onde?
JOANA- Itaquaquecetuba.
DIVINA- Não era Araraquara?
JOANA- Tá quente hoje,não? Vou em casa tomar um banho!
DIVINA- Não esqueça que a noite...
GIOCONDA- Todos os gatos são pardos!
DIVINA- Nos reuniremos para decidir sobre a marcha de amanhã.
AMAURI- Gioconda, você reparou essa Vila?Eu nunca estive aqui antes.
GIOCONDA- Sim, querido. Somos novos aqui.
AMAURI- Quer saber, vou contar quantos pombos pousaram na fiação.
Sai olhando pra cima.
GIOCONDA- A senhora, dona Divina, é casada?
DIVINA-Viúva. Moro com minha filha, Ella e com minhas sobrinhas Azaléia e Hortência, os pais delas, coitados, eram protestantes e sumiram do nada. Desde então vivem comigo. São exemplos de meninas, tirando Margarida que é meio desvirtuada!
GIOCONDA- Ah, sim. Uma família tradicional.
Chegam Azaléia e Hortência.
AZALÉIA- Tia,temos uma grande novidade!
HORTÊNCIA- Atenção, acabamos de fechar a coreografia pra marcha, querem ver?
As duas devem dançar uma coreografia tosca com uma letra pobre / Entram Bulhões e Rita. Ele deve agir de forma robótica.
BULHÕES- Bravo! Bravo! Bravíssimo!
DIVINA- Senhor Bulhões, deixe eu te apresentar, esses são...
BULHÕES- Deixe que eu mesmo me apresento, prazer, Bulhões.
GIOCONDA- O senhor que...
BULHÕES- Vou criar a lei dos afro descendentes. Sim!Não há melhor forma de combater o racismo do que deixando os afro descentes no canto deles e a gente no nosso. Por isso, eu defendo a lei que cria o “T.A”. Território Afro que nada mais é do que uma região administrativa onde os afro decentes poderão viver em paz e longe da nós, tudo pela proteção deles.
DIVINA- Essa idéia...
BULHÕES- É genial, eu sei. Preciso combater isso daí. Minha mulher, Rita vai ser responsável por fazer um senso pra descobrir onde vive o maior número de afrodecendentes, conte pra elas um pouco sobre isso, Rita!
RITA- É simples...
BULHÕES- Ela vai fazer um senso pra descobrir como vivem os afrodescentes, do que se alimentam, como se divertem, como se socializam, para que assim, possamos saber a real necessidade deles.
Todos aplaudem.
HORTÊNCIA- E o senhor...
BULHÕES- Já sei o que vai me perguntar! Qual a minha plataforma de governo, não é? Primeiro, vamos matar os bandidos e como faremos isso? Dando pra cada cidadão de bem, uma arma, assim, cada um poderá matar seu próprio bandido. Meu governo será um governo de família, tanto que vou colocar meus filhos pra assumir cargos. E além do mais, vou colocar nos ministérios e secretarias, ministros terrivelmente religiosos. Quem vai assumir esse país não será eu, será Deus!Ah, ainda nem falei do ministério da Justiça que vai ser liderado por um ministro justo e imparcial e acima de qualquer suspeita. E a senhora, dona Divina, será minha ministra dos direitos humanos!  Bem, agora precisamos ir pois ainda preciso liderar meu exército de Bulhoezinhos! Ora, mas vocês não disseram nada, não se acanhem, não esqueçam que no meu mandato, a mulher terá voz ativa.
AZALÉIA- Era sobre...
BULHÕES- Agora, precisamos ir. Azaléia e Hortência, preciso de vocês comigo pra discutirmos alguns tópicos da reunião de hoje!
Saem.
GIOCONDA- Que homem íntegro. Tem meu voto!
DIVINA- Ah, e eu não te apresentei minha filha, Ella, uma menina criada sobre princípios cristãos. Ella, querida, essa é  Dona Gioconda, nossa nova moradora. Ela veio com o marido, aliás, onde está seu marido?
GIOCONDA- Ah, está bem ali na poça d’água tentando ver se pesca algo pro nosso almoço.
ELLA- Prazer!
GIOCONDA- Muito linda sua filha, mas parece que carrega uma tristeza no olhar...
DIVINA- Ella, triste? Jamais! Ela é um menina como poucas. Na infância e começo da adolescência era meiuo rebelde, mas nada que um castigo no porão não resolvesse. Mas ela é sim muito feliz, não é, filha?
ELLA- Não, digo, sou sim!
GIOCONDA- Dá pra sentir a alegria na voz dela.
DIVINA- Agora vamos pois ainda temos muito a fazer para hoje a noite.
GIOCONDA- Eu vou esperar Amauri chegar com o peixe pro nosso almoço delicioso.
Entra Ângelo e Margarida.
ÂNGELO- Acho que todos já entraram.
MARGARIDA- Finalmente. Nem acredito que conheci você daquela forma estranha e hoje moramos no mesmo lugar.
ÂNGELO- Sabendo quem são meus pais e quem é sua família, não há surpresa alguma.
MARGARIDA- Estou tendo uma sintonia boa com você, parece que a gente se entende.
ÂNGELO-É. Somos jovens em busca de algo além daquilo que fomos educados a ter.
MARGARIDA- Não nego os privilégios que a vida me deu por estar em lugares onde nem todos possam estar, mesmo que tendo direitos. Acho que tudo isso me abriu os olhos pra entender que tudo vai muito além do que eu vivo e que eu não preciso viver o problema ter empatia.
ÂNGELO- Então é isso. Somos empatas!Eu adoraria namorar uma menina como você.
MARGARIDA- Eu também namoraria você de boa, mas...
Unísono:
ÂNGELO- Eu gosto de meninos!
MARGARIDA- Eu gosto de meninas!
Os dois riem.
MARGARIDA- O que acha de aproveitar essa reunião hoje a noite e fugir pra praça. A manifestação é amanhã mas hoje já começa um role por lá.
ÂNGELO- Acho uma ótima!
Saem.



(II)
Um grande cortejo na praça.
JHONNY- Quero expressar minha gratidão por todos estarem aqui ajudando a fortalecer. Existe uma parte da sociedade que pra alguns, é melhor que sequer, existissem. A travesti que não consegue uma colocação no mercado de trabalho e por isso precisa se prostituir para sobreviver, o gay que se esconde atrás da opressão do machismo pois durante a vida toda foi educado a ser homem e ser frágil não é uma opção. Enfim, são várias siglas pra se colocar aqui.
SUSAN- Houve uma voz que se comunicou conosco e disse exatamente aquilo que gostaríamos de dizer. Tentaram silenciá-la com tiros. Mas ela se faz presente entre todos nós, pois a voz dela se tornou a nossa voz:
Luz em um canto do palco, uma atriz interpreta Marielle Franco com o seguinte discurso:
“1-Ser mulher negra é resistir e sobreviver o tempo todo. As pessoas olham para os nossos corpos nos diminuindo, investigam se debaixo do turbante tem droga ou piolho, negam a nossa existência. Poderíamos fazer uma pesquisa objetiva perguntando quantos mulheres e homens brancos já tiveram os seus cabelos revistados, a resposta seria nenhum. Estamos expostos e somos violentados todos os dias. Para que a discussão se amplie é fundamental compreender que estamos em um lugar de tratamento diferente. É preciso reconhecer o racismo.” “2- Como querem tratar as mulheres de maneira igual para aposentar se já somos tratadas de maneira desigual todos os dias? Nós, mulheres, estamos na base da pirâmide, com os menores salários, trabalhando em jornadas duplas e ainda querem tratar a gente de maneira igual para a aposentadoria. É um discurso de igualdade só quando serve aos interesses deles. Temos que lembrar que estamos em condição subalternizada, não só pelo simbólico. Os dados objetivos das pesquisas estão mostrando isso. Infelizmente as mulheres ainda estão em situação vulnerável. .
Em seguida, todos andam pela platéia cantando: Pra não dizer que não falei das flores. Até que todos saem do teatro.
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Pelos campos há fome em grandes plantações
Pelas ruas marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte E acreditam nas flores vencendo o canhão
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Somos todos soldados, armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
Deve-se haver um minuto de silêncio e a cada dez segundos, o barulho de um tiro.

(III)

Luz na Vila. Todos estão reunidos.
BENVINDO- Com licença, meu nome é Norma, eu trouxe coxinhas, comam!
GIOCONDA- Ih, o senhor Benvindo surtou de novo, vê se pode?
AMAURI- Vê o quê?
GIOCONDA- Se pode!
AMAURI- Pode o quê?
GIOCONDA- Você desligou o gás, Amauri?
BULHÕES- Está decidido, no meu governo construirei um muro separando essa cidade, a direita da esquerda, o que acham?
Entra Margarida.
MARGARIDA- Já está dividida há muito tempo e você não percebeu. Aliás, deve ter percebido pois você sempre fez questão de deixar claro a qual lado você pertence.
BULHÕES- Que garota mais insolente.
AZALÉIA- Fica calada, Margarida!
MARGARIDA- Não! Não vou me calar, muito pelo contrário. Eu vou gritar, eu vou berrar pros quatro cantos o quanto pessoas como vocês me envergonham e me enojam.
DIVINA- Essa rebeldia foi falta de uma boa surra.
MARGARIDA- Surra, choque, asfixia. Era assim que as coisas eram resolvidas e é esse tempo que vocês acham que deve voltar, não é?
ÂNGELO- Que sorte nós temos de não fazer parte disso!
GIOCONDA- Ângelo, o que você faz do lado dessa comunista? Já pra casa!
ÂNGELO- Não, mãe. Não vou! Eu não preciso fazer parte de tudo isso. Chega um momento que precisamos escolher um lado e o meu já está decidido. É lá fora, é na rua, na cidade, com o povo.
AMAURI- Ângelo, você varreu a calçada, filho?
ÂNGELO- Meu Deus, como vocês são surtados. É isso que a lavagem cerebral fez com vocês!Essa Vila poderia ser um hospício.
MARGARIDA- Sabe pra onde vamos agora? Nós vamos pra praça, vamos nos juntar a quem realmente quer um país melhor e mais justo.
AZALÉIA- Vocês vão pro lado esquerdo?
MARGARIDA- Nós vamos pro lado de todos!
HORTÊNCIA- Não precisa voltar!
MARGARIDA- Não há volta pra onde nunca se esteve!
GIOCONDA- Ângelo e você?
ÂNGELO- A senhora sabe muito bem! Mas fiquem tranqüilos, logo mais vocês estarão tão preocupados se esqueceram o gás aberto, ou se tiraram as teias de aranha do teto, ou se o frango queimou, que certamente nem sentirão minha falta.
AMAURI- Gioconda é mesmo,o frango!
BULHÕES- Pois vão mesmo, cambada de comunistas vagabundos. Essa Vila não é lugar para vocês.
MARGARIDA- Agora o senhor disse a coisa certa!Aliás, parabéns por ter ficado calado e nos privado das suas palavras de privada! Vamos!
ELLA- Esperem! Eu vou com vocês!
DIVINA- Ella, minha filha, volte pra casa agora mesmo.
ELLA- Dessa vez não, dona Divina. Dessa vez quem decide pra onde ir sou eu mesma. Ou melhor, eu mesmo! Durante minha vida inteira minha mãe percebeu que eu vim nesse corpo mas não pertenço a ele. Quantas vezes precisei me calar, inibir o que eu sentia, viver outra vida por pressão. Agora chega. Eu preciso viver a vida sendo quem eu realmente sou e não o que esperam de mim.
DIVINA- Ella...
ELLA- Ella não. Ele!
Saem.
DIVINA- O que o mundo está fazendo com nossas crianças?
GIOCONDA- Eu errei quando deixei que o Ângelo saísse sozinho pela cidade. Foi contaminado. A gente cria o filho pra ser alguém, um militar, fazer um concurso, trabalhar numa embaixada e acontece isso.
AMAURI- Espera, estão ouvindo a corneta?
Todos estatizam. Blackout.
(IV)
Luz em Estopa na lateral.
ESTOPA- Dizem os fies que um dia, Jesus voltará a terra como um morador de rua, batendo nas portas em busca de um prato de comida. Muitos lhe baterão a porta na cara ou passarão por ele e ignorarão sua presença. Mal sabem eles sobre a beleza que existe por trás de trajes simples e de uma figura sem qualquer importância. Quem vai olhar pro Cristo nos olhos e saberá reconhecê-lo. Aqueles que o tanto procuram e louvam? Aqueles que se dizem seus filhos, enviados, emissários, profetas? Quem olhará pro pobre homem e verá nele a verdadeira imagem e semelhança de si?
Luz abre no centro e revela Judith, caída, fragilizada.
ESTOPA- De certo somos todos, seres invisíveis. Somos indigentes, mortos por acertos de contas ou uso de drogas, nunca por falta de oportunidade. Morremos e no fim, a morte nos é dada como uma desculpa, uma punição ou a resolução de um problema que todos insistem em não ver.
Judith canta. Em um determinado momento, deve passar pela cena em câmera lenta, o cortejo dos moradores da Vila, em direção a praça. Eles devem ser indiferentes a presença dela.
Me diz quem é você,
Que me olha e não me vê,
Que me ouve e não me escuta
Que me cospe,
 me maltrata,
 me agride por saber que eu também sou você.
Muitas vezes rejeitada,
Vivo a vida desprezada.
Tento ganhar meu pão,
Com a prostituição,
Pois no mercado onde tu compras,
Lá, eu não trabalho não.
Ninguém quer me assumir,
Eu procuro por onde ir,
Se dentro da sociedade
Não se aceita travesti.
Joguem pedra na Jeni.
Luz fecha lentamente na figura de Judith que morre.

(V)
Entra o cortejo pela platéia ganhando as ruas. Gritam palavras de ordem em defesa da educação, cultura e outros. Tomam o palco numa grande festa.
Do outro lado, entram o pessoal da Vila. Os grupos se encontram  e ficam separados como que por um muro.

BULHÕES- Cambada de vagabundos. Saiam da nossa cidade e voltem lá pro buraco de onde pertencem.
JHONNY- Ih, meu senhor. Está falando com as pessoas erradas pois estamos justamente onde nos pertence, a cidade é nossa!
DIVINA- Ouçam bem. O que vocês precisam é de emprego, são um bando de desocupados, por isso estão fazendo balbúrdia na rua.
EFIGÊNIA- E vocês estão aonde agora?
DIVINA- Você não é a garota responsável por vender as casas da Vila?
EFIGÊNIA- Fu!Numa época em que eu nem sabia quem era eu e achava que eu era vocês.
AZALÉIA- Olha só pra onde vocês estão. Aí só tem preto, bandido, maconheiro, gays. Está claro qual onde está a marginalidade.
SUSAN- Que dar um pulinho aqui pra ver como é viver sem máscaras?
MARGARIDA- Deixa esse povo pra lá, vamos nos divertir e deixar a mensagem que viemos passar!Sabem o que vocês merecem? Uma salva de vaias!
Todos vaiam. O grupo faz uma grande festa, entram pela platéia e interagem com todos. Até saírem de cena.

(VI)
Luz na Vila, Divina varre a rua. Entra em cena Estopa.
ESTOPA- Teria um prato de comida para dar a um pobre homem?
DIVINA- Deus que me livre. Sai da minha porta, criatura das trevas. Vai pedir comida no raio que o parta. Olha, no dia que Jesus voltar, vou ter uma longa conversa com ele. Onde já se viu. Contribuo com a igreja para ele ter o melhor templo para ser adorado, e ele me manda logo pela manhã cedo, um ser como esse que nem deveria ser chamado de gente.
Ela sai. Estopa olha para platéia, dá um sorriso e sai de cena.
Na lateral, esta a trupe com Susan de pé.
SUSAN- É preciso resistir. Sabemos que os tempos não estão fáceis. Colocaram no poder alguém que não nos representa, que é contra todas as classes, mas precisamos continuar de pé.
Luz na lateral, alguns reportes em volta de Bulhões com a faixa presidencial e Rita com cara de paisagem. Também estão na cena o pessoal da Vila que deverá aplaudir todas as falas dele.
BULHÕES- "O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro ele muda o comportamento dele. Tá certo? Já ouvi de alguns aqui, olha, ainda bem que levei umas palmadas, meu pai me ensinou a ser homem”
SUSAN- Não vamos deixar de defender nossas mulheres, exigir, cobrar respeito, segurança e direitos.
BULHÕES- “Não é questão de gênero. Tem que botar quem dê conta do recado. Se botar as mulheres vou ter que indicar quantos afrodescendentes”.
SUSAN- A única coisa que podemos fazer é nos unir, não soltar a mão de ninguém, não será fácil derrubar um se esse um for todos nós!
BULHÕES- Eu sou favorável à tortura, tu sabe disso. O erro da ditadura foi torturar e não matar”
Ouve-se a corneta, todos que estão com Bulhões batem continência. A luz se apaga e fica acesa apenas a luz sobre a trupe, que canta.
Apesar de você, Chico Buarque.
Amanhã vai ser outro día
Amanhã vai ser outro día
Amanhã vai ser outro día
Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não
A minha gente hoje anda
Falando de lado e olhando pro chão
Viu?
Você que inventou esse Estado
Inventou de inventar
Toda escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão
Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar
Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros. Juro!
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Esse samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora tenha a fineza
De "desinventar"
Você vai pagar, e é dobrado
Cada lágrima…


Fim
Elmo Férrer
Enviado por Elmo Férrer em 06/09/2019
Código do texto: T6738554
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Elmo Férrer
Luziânia - Goiás - Brasil, 36 anos
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Elmo Férrer