ANÁLISE - AVE CELESTE - DE PAULO CAMELO

Esta leitura do soneto “Ave Celeste” do poeta do RL Paulo Camelo, foi

realizada em parceria com os recantistas Dudu de Oliveira e Nilza Azzi.

Ave Celeste

Suave brisa, entraste em meu viver

voando leve, no teu modo brando,

em bela pluma, foste te aninhando

e o corpo todo encheu-se de prazer.

Suave musa, eu vou seguir te amando,

eu quase ocaso e tu, amanhecer,

pois o teu sopro me faz reviver

sustendo o tempo e, firme, te esperando..

O teu olhar sorriso me fascina

e eu me enterneço ao som da doce voz

que me cativa, que me prende tanto.

Ave celeste, aura de luz, divina,

eu viro jovem quando estamos sós

e me apresentas o teu corpo santo.

Figuras de linguagem:

Apóstrofe:

“Suave brisa, entraste em meu viver” (v.1);

“Suave musa, eu vou seguir te amando” (v.5);

“Ave celeste, aura de luz, divina,” (v.12);

Referencias sinestésicas:

“voando leve” (v.2);

“em bela pluma” (v.3);

“ocaso e tu, amanhecer,” (v.6);

“som da doce voz” (v.10);

“aura de luz,” (v.12);

Metáfora:

“eu quase ocaso e tu, amanhecer,” (v.6);

Perífrase:

“Ave celeste, aura de luz, divina,” (v.11);

Polissíndeto:

Recorrência do conectivo “me” no primeiro terceto;

Levantamento de aspectos morfossintáticos do texto:

Artigos definidos: 05

Pronome pessoal do caso reto: 05

Pronomes pessoais do caso oblíquo: 08

Pronomes possessivos: 04

Preposições: 02 (Contrações: 02)

Conjunções: 08 (Aditivas: 05; conclusivas: 01; explicativas: 02)

Advérbios: 02 (Intensidade: 01; tempo: 01)

Substantivos: 21

Adjetivos: 12

Verbos: 18 (Gerúndio: 05; infinitivo: 02; pretérito: 03; presente: 08)

Figuras de efeito sonoro:

A assonância pode ser analisada considerando a ocorrência das vogais: /e/,/o/,/a/,/ã/ ; que anota vogais orais abertas, nasais fechadas e reduzidas.

A aliteração em oclusivas /t/, /d/, /p/, /b/, constritivas nasais /m/, /n/; vibrantes /r/, /rr/ e fricativas lábio dentais /f/ e /n/.

Este registro realiza uma sonoridade suave pela nasalização que predomina na leitura, as assonâncias principalmente nas tônicas, conferem uma fluência e continuidade, apoiando o ritmo construído.

A pauta rítmica com uma variação harmônica entre sáficos e heróicos tem sua tensão devidamente registrada, tal efeito realiza a conexão do ritmo com o semântico e anota um alto nível de realização no poema.

Anotações Léxicas, Semânticas e Sintáticas:

O Poema Ave Celeste divide-se em quatro estrofes metrificadas, onde cada estrofe corresponde a um período completo e tem a sua unidade de tempo e espaço claramente distinta. O poema apresenta algumas relações que devem ser registradas para subsidiar a análise dos planos que compõe o poema; há algumas relações de fácil identificação, o paralelo entre as dimensões terrenas e espirituais, entre concreto e abstrato, adoração e desejo.

Inicialmente consideremos o tempo e a forma como ele é tratado no poema em suas unidades, as flexões verbais registram uma relação de proximidade pela opção pelo presente, uso do infinitivo e o gerúndio dando uma extensão ao presente.

Destaca-se no texto a presença marcante de substantivos, adjetivos e verbos. Essas são as características da narrativa; é sob essa forma que o texto se constrói. A ação evolui do passado para o presente, com leves características descritivas.

Outra marca de tempo no poema é a evolução da figura adorada e desejada pelo eu poético, ela transita como um torpor na primeira estrofe quando é “suave brisa”, adiante se torna a musa e na última estrofe cristaliza como a idealização da pureza e virtude como um anjo, estas mudanças conferem transições de tempo e estado dentro do poema. Estas são apresentadas no nível abstrato e comparativo no primeiro quarteto, (o tempo passado), o tempo da captura: “a ave” que pousa inesperadamente.

Atentemos agora para outra dimensão importante que o poeta deve se valer de recursos para denotar: o espaço. A primeira estrofe registra as impressões do “viver” do poeta, registrando suas reflexões em considerações e solilóquios, é um efeito de proximidade, apoiado na apostrofe, trata as divagações como segredos esta projeção permanecerá por todo o poema, conduzindo o fluxo de sensações e revelações como uma constatação e uma entrega.

As anotações sobre o registro sinestésico do texto apontam para sensações táteis de leveza, a construção de uma figura iluminada, suave e harmoniosa. Toda a primeira estrofe busca este registro de leveza, denunciando algum peso na anterioridade do poeta, esta leveza se funda numa cena quase abstrata contida nas reflexões construídas.

O último verso desta estrofe registra uma anotação importante, o poeta “encheu-se de prazer” é uma circunstancia de gradação, que acusa um vazio antecedente, que se compõe nesta completude.

Na segunda estrofe a deidade que reflete o amor espiritual e preenche o eu poético, se converte em musa, ou seja, a idealização onírica torna-se agora a razão da sua lírica, a sua inspiração. A seqüência da narrativa adquire uma coloração mais real, definindo que a ave é “a musa”. Essa musa põe o poeta em confronto com duas realidades, o ocaso e o amanhecer; a velhice e a juventude; entre outras polaridades.

A imagem aparta-se da idealização e se projeta na sua particularização do amor romântico; porém não perdeu as características divinas “pois o teu sopro me faz reviver” (v.7), onde a citação da criação de Adão reitera a deidade e realiza a fusão das imagens. A complementaridade que o poeta sugere na primeira estrofe se funda inteiramente numa bela metáfora: “eu quase ocaso e tu, amanhecer,” (v.6). Nesse quarteto, o uso enfático do gerúndio remete para a específica duração que se estende, no tempo e fora do tempo; suspenso.

O último verso da estrofe é uma busca da atemporalidade a quase eternidade que este amor promove: “sustendo o tempo e, firme, te esperando.” (v.8).

O primeiro terceto proclama uma contemplação, num fluxo que parte do poeta em direção a musa na reiteração do conectivo “me” um polissíndeto que compõe a estrofe, estabelecendo uma proximidade e uma dinâmica declaratória.

O tempo é o presente, a experiência do possível, do factível; do fascínio e da entrega; no segundo terceto, em clima de sonho, a “ave”, a “luz divina” é trazida para o convívio do Poeta como a mulher real que ele pode contemplar “sem penas”, nu e perfeito.

O último terceto revela a transformação da musa em anjo, a ave celeste, este ente, uma representação do paraíso reiterada em: “Ave celeste, aura de luz, divina,” (v.12), o penúltimo verso registra um desejo maduro, de alguém em busca de uma idealização juvenil “eu viro jovem quando estamos sós” (v.13); e a aspiração a atemporalidade que o anjo promove.

Em relação aos aspectos apresentados, a “ave”, algo do céu, a mulher está colocada no mesmo nível (também divina), a ponto de ele descrever o corpo como santo. Esse belo soneto exprime a visão alquímica de que o sexo é sagrado e o corpo é santo porque representa uma via, um caminho a oferecer uma possibilidade de elevação.

Cumpre ainda destacar os paralelos presentes no texto, para construção de contigüidade ou oposição, a saber: concreto e abstrato; espiritual e temporal, jovem e maduro. O final reserva a realização do desejo num ritual mutuo de entrega onde a santidade do anjo purifica este fruto do pecado original.

A execução impecável de um poema é registrada na intertextualidade, quando o texto permite leituras em todos os seus níveis. Desde a superfície Ave Celeste aponta para uma idealização de meta poema, não há elementos flagrantes para tal consideração, mas a proposição de “musa” ratifica tal possibilidade.

Sendo a poesia um substantivo de gênero feminino, abre-se integralmente para esta riquíssima leitura, que confere uma densidade consonante com todos os elementos do poema:

Ave celeste

Suave brisa, entraste em meu viver

voando leve, no teu modo brando,

em bela pluma, foste te aninhando

e o corpo todo encheu-se de prazer.

Suave musa, eu vou seguir te amando,

eu quase ocaso e tu, amanhecer,

pois o teu sopro me faz reviver

sustendo o tempo e, firme, te esperando.

O teu olhar sorriso me fascina

e eu me enterneço ao som da doce voz

que me cativa, que me prende tanto.

Ave celeste, aura de luz, divina,

eu viro jovem quando estamos sós

e me apresentas o teu corpo santo.

A referência ao objeto da atenção do poeta é feita com delicadeza, existe uma gradação na identificação do objeto ao qual se refere o poeta, que vai a cada estrofe se tornando mais densa, para no final chegar à plenitude, através do emprego de sucessivas metáforas, como que retomando o refinamento na identificação do ser a que se refere o poeta:

Primeira estrofe = brisa

Segunda estrofe = musa

Terceira estrofe = olhar sorriso (face, rosto)

Quarta estrofe = ave (celeste)

Existe um substrato psicológico, que envolve o leitor de modo sutil e com a delicadeza das imagens poéticas, construídas através do emprego de metáforas.

Primeiro Quarteto – Já na primeira estrofe o poeta aponta a natureza do objeto a quem se dirige (brisa-ave). A metáfora identifica a amada a um elemento da natureza, que voa e chega de modo sutil e delicado na vida do poeta, fazendo-o (ou ambos) experimentar prazer (Suave brisa, entraste em meu viver/voando leve, no teu modo brando,/em bela pluma, foste te aninhando/e o corpo todo encheu-se de prazer.

Segundo Quarteto – A amada é identificada com a musa, a qual o poeta declara seu amor e fidelidade. A metáfora construída pelos opostos ocaso/amanhecer estabelece uma correspondência entre os conceitos de fim e começo, respectivamente, poeta e musa, sugerindo um ciclo sem fim, um eterno findar e recomeçar entre o poeta e a amada, tão certo quanto saber que após a noite inexoravelmente vem o dia. Essa cumplicidade torna tudo atemporal, tão profunda que exerce o efeito sobre o poeta de também retornar (eu viro jovem), exercendo aí o poder sobre o tempo, como veremos na última estrofe (Suave musa, eu vou seguir te amando,/eu quase ocaso e tu, amanhecer,/pois o teu sopro me faz reviver/sustendo o tempo e, firme, te esperando.

Primeiro terceto – Continua a gradação, o poeta traz cada vez mais para perto o rosto dessa amada, aqui ao mesmo tempo uma metáfora e metonímia - olhar sorriso por face ou corpo - que conversa docemente com o poeta, o seduz e o mantém cativo (O teu olhar sorriso me fascina/e eu me enterneço ao som da doce voz/que me cativa, que me prende tanto.

Segundo terceto – Mas o encantamento ao qual a amada submete o poeta o faz elevá-la à condição de divindade, e seu efeito sobre ele é de plenitude, pois assim como a musa, o poeta também entra na esfera da transcendência do tempo, o eterno (Aura celeste, aura de luz, divina,/eu viro jovem quando estamos sós/e me apresentas o teu corpo santo.

Nessa última estrofe, o ser de referência atinge a plenitude concreta, densa, ao mesmo tempo em que é posto o retorno para o âmbito das coisas sutis, neste caso o nível etéreo, o sobrenatural, abstrato e explicitamente divino (Ave celeste)..

A interpretação do poema, baseada nos elementos focados, nos leva a concluir que esta cumplicidade se dá entre o poeta e a sua amada e esta não pode ser outra senão a poesia, que de modo sutil e delicado entrou na vida do poeta, é o motivo do seu deleite, do seu gozo, tem o poder de insuflar-lhe vida, fazê-lo reviver - em cada poema? Esta relação entre o poeta e a poesia transcende o tempo, e o poeta declara a sua firmeza e fidelidade à sua musa.

Existe por parte do poeta um encantamento, um fascínio, ante a poesia, sua musa, a qual conversa com ele e o seduz.

A cumplicidade entre poeta e poesia é tão profunda que é elevada à condição de sobrenatural, divina, e a gradação aqui chega à plenitude, e esta condição é transferida ao poeta quando na intimidade com a amada, então ele também faz esse movimento de retorno ao rejuvenescimento, porque a poesia lhe confere vigor, no âmbito das coisas sagradas.

Esse rejuvenescimento do poeta face à intimidade com a sua musa, a poesia, sugere a dinâmica da renovação, o novo que sempre vem, um eterno recomeço do ciclo de identificação entre o eu poético e a poesia, sugerindo um ápice, uma simbiose, onde já não saberão quem é poeta ou quem é poesia.

Dir-se-ia que o poeta renasce e se eterniza em cada poema, produto da simbiose entre ele e a poesia.

Como que numa metalinguagem, há uma profunda cumplicidade e delicadeza entre o poeta e o ser a que se refere, e o resultado desse entrelaçamento (simbiose) é o poema, que vai se construindo na crescente densidade das imagens poéticas:

Suave brisa/suave musa/olhar sorriso/ave celeste.

A delicadeza e suavidade recíprocas, denotam a cumplicidade entre poeta e poesia, e esses elementos no âmbito da denotação são expressos através do extrato fônico, com predominância das vogais /a/, /e/, /i/.

O verso é o decassílabo, com ritmo predominantemente sáfico, o preferido para os poemas líricos, acrescido de uma acentuação secundária, que estabelece uma construção híbrida de sáfico e heróico.

O poema apresenta uma musicalidade suave e delicada, com uma cadência que se mantém, quase dá para imaginar sons de violinos à maneira de canto dos anjos, como se recitasse uma ladainha, uma prece, o cavalheiro ajoelhado diante da dama, tudo dá a conotação de movimento que se prolonga e se renova, e nada pode quebrar o clima de confidência, entendimento e sedução entre o eu poético e a musa.

O colóquio entre o poeta e poesia revela uma ação delicada, suave, mas duradoura, expressa pelos verbos no gerúndio e adjetivo com som nasal, como que nos remetendo à palavra dita num sussurro (voando, brando, aninhando, amando, esperando, tanto, santo).

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O poema depois de realizado pertence ao leitor, que utiliza dos recursos que dispõe para se relacionar com a proposta apresentada pelo autor. Estas anotações são subsídios apontados a partir de um modelo que busca dar visibilidade a alguns aspectos relevantes no poema.

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Esta análise foi realizada em parceria com as Recantistas Diana Gonçalves e Nilza Azzi, e tem como objetivo apresentar aspectos relevantes da composição do Poeta Paulo Camelo, nosso confrade.

Como todas as análises que realizamos, estamos abertos a comentários e anotações, caso se apresentem necessárias e seja matéria de minha atenção.

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Esta análise foi realizada com a autorização do autor Paulo Camelo.

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Publicado com autorização de Dudu de Oliveira e Nilza Azzi.

O trabalho foi realizado dentro da proposta idealizada por Dudu de Oliveira e Nilza Azzi, para o Fórum do RL.