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Vestidos antes de nascerem
 
O título deste artigo foi abduzido de um verso de poema de Bruna Beber, uma das vozes interessantes da poesia contemporânea brasileira. A metáfora se refere a edifícios em construção que são vestidos por uma malha fina e transparente, numa nudez não nudez, como ocorre nas cores em nudes de vestidos e roupas femininas semitransparentes e collants de balés. Mas nos perguntemos, por enquanto, o porquê de os poetas poderem estar vestidos antes de nascerem em suas condições de representantes da poesia contemporânea.
Carlos Drummond de Andrade escreveu um verso famoso: Tenho duas mãos e o sentimento do mundo. Aqui propositalmente transcrito como contraponto ao verso da Bruna Beber: Vestidos antes de nascerem, isto é, postos a um mundo aparentemente pronto em que o poeta tem o sentimento do mundo de forma completamente diversa dos poetas do modernismo como Carlos Drummond de Andrade, hoje poeta canônico do ocidente. Esse verso de Drummond, é muito e marcante na diferenciação entre a poesia moderna e a poesia contemporânea. Não foi à toa que Drummond escreveu o livro A rosa do povo, quando em seu sentimento do mundo vislumbrava a esperança de muda-lo, ao ponto de durante a guerra do Vietnã, outro poeta importante, falamos de Ferreira Gullar, escreveu em poesia que cada americano que um combatente vietnamita abatia, matava-o por nós!
Mas passemos rapidamente por Cazuza, e a canção Ideologia, em que há o verso: Ideologia, eu quero uma para viver, em que este verso é indicativo da mudança da temática da poesia ou da forma de expressar os mesmos problemas O fato é que vivemos a época do eterno presente. Moda é o que ocorre no momento, modernismo era o verso da hora, pós-modernismo, sempre tão difícil de conceituar o verso do pós-agora, Antônio Cícero, chegou a cunhar o termo Agoral! Sem muito sucesso, cremos. Hoje os poetas jovens são os contemporâneos, e os bissextos como este que vos fala habitam um cemitério de elefantes junto a muitos nomes dos que já partiram e foram lidos, mesmo de um passado mais remoto. Em uma declaração de dois mil e dois, Chico Buarque de Hollanda disse que a canção como compreendida no Século XX não existia mais.
Paul Ricouer escreveu que Quando a utopia se afasta de tradição há crise. Mas qual seria a utopia do poeta contemporâneo? Teria deixado de ter duas mãos e o sentimento do mundo? Ou diante da velocidade das mudanças impostas mesmo pelas tecnologias. Certa feita, Monteiro Lobato escreveu que o petróleo e o ferro são o sangue e os ossos da civilização, hoje, podemos acrescentar: e a fibra óptica é a nervura.
Obviamente, fatores econômicos interferem no comportamento criativo dos poetas, nos anos sessenta, setenta e, talvez possamos incluir aqui os anos oitenta, era grande a oferta de emprego à mão de obra qualificada do jovem, o que em geral dava aos poetas a benção para dizerem o que pensavam em suas obras sem muitas preocupações com o futuro ou as contingências do agora, realidade essa que não mais existe.
Tais mudanças trazem e produzem mudanças traduzidas em sinais e sintomas na poesia contemporânea. Leiamos para uma breve reflexão um poema da poetisa Simone Andrade Neves.
Tracionada a ferrugem dos ferrolhos
reage ao sol
e reacende o cheiro dos carvalhos
no escorrer das ocras:

O ferro a menstruar no tempo.

Transversa
a luz revela o desenho das teias:
colcha prateada de neurônios
- esses nervos da vida.

Firmes ali sem mais estar
mãos invisíveis no ensaio do tear.

Que testemunho do tempo presente daria uma poesia autoral como essa tão paradigmática da poesia contemporânea, que não a das tecnologias invisíveis, em aparelhos cada vez menores em sua visibilidade ao ponto de serem prescindidas as mãos que os fizeram. Na verdade, a mão invisível no ensaio do tear reflete cada vez mais a presença das tecnologias que tornam a ação humana invisível, e é sobre essa angústia por visibilidade é que nos diz a frase de Bruna Beber que dá título ao artigo e o poema de Simone Andrade Neves.
Ocupando, hoje, a cadeira número 36 da Academia de Letras de Vila Velha, desde 18 de outubro de 2017, sinto-me no dever de evocar o Patrono dessa cadeira, Jair Pedrinha de Carvalho Amorim, natural de Santa Leopoldina, a quem devo sempre poder bem representar, Jair além de compositor popular foi cronista e jornalista, algo que não sou nem serei; representou a poesia em suas canções, e a representou bem, hoje, em termos de poesia contemporânea quem podemos citar com tranquilidade é a compositora, cantora e musicista Adriana Calcanhoto, que sempre pautou sua atividade musical em sintonia com a poesia contemporânea, ao ponto de ser organizadora da antologia É agora como nunca! Com autores como Diego Callazans, Alice Sant’ Anna, entre outros. A nos mostrar a pujança da poesia a despeito do que sai na mídia que é em geral de qualidade questionável, ruim ou péssima.

Dito o que pude apreender dos poetas contemporâneos, parabenizo a nada vetusta Academia de Letras de Vila Velha pelos seus setenta anos de vida; compartilho com todos os presentes a honra e a alegria de aqui estar, e, aqui, entre a Enseada do Inhoá e o Convento da Penha, termino minha alocução, com a leitura completa de um poema de Bruna Beber, poetisa contemporânea do Brasil.

A cabeça mói
é dia corrido
na região do pescoço

Uma gota toca
o primeiro dente
no pingente do cordão

E cai a boca ( cheia de terra)
o reboco ( nuvens de vão)
o susto ( é de madeira)

Quem já fez
de uma pedreira
seu beliche

Não tem medo de veneno
não tem medo de viagem
come o esqueleto da maça.

A nos mostrar com a referência a maçã que há um diálogo com a tradição, ainda que muito subliminar e com o que resta do mito do pecado original. Isto é, o desejo, que o que subsiste e sempre subsistirá, que é como disse em sua canção Chico Buarque de Hollanda, que é o que nunca teve controle e que nunca terá, como também ocorre com a poesia, talvez a forma mais ampla e livre de expressão em todos os tempos e formas.
Fabio Daflon
Enviado por Fabio Daflon em 06/03/2018
Código do texto: T6272144
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Fabio Daflon
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 64 anos
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