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FOLCLORE II - TEXTOS


 
1---"LENDA - Episódio heróico ou sentimental com o elemento maravilhoso ou sobre-humano, transmitido e conservado na tradição oral popular, localizado no espaço e no tempo.  De origem letrada, lenda, legenda, (lat.) "legere", possui características de fixação geográfica e pequena deformação.  Liga-se a um local, como processo de informação, ou à vida de um herói, sendo parte e não todo biográfico ou temático.  Conserva as 4 características de conto popular:  anonimato, antiguidade, persistência e oralidade.  Os processos de transmissão, circulação e convergência são os mesmos que presidem a dinâmica da literatura oral.  É independente da psicologia coletiva ambiental, acompanhando, numa forma de adaptação, seus movimentos ascensionais, estáticos ou modificados.  Muito confundida com o MITO, a LENDA dele se distancia pela função e confronto - o MITO pode ser um sistema de LENDAS, gravitando em torno de um tema central, com área geográfica mais ampla e sem exigências de fixação no tempo e no espaço."  -  Dicionário do Folclore Brasileiro, de LUÍS DA CÂMARA CASCUDO.
 
2---MERGULHO NO MUNDO DO FOLCLORE - O Folclore Brasileiro é cheio de personagens que despertam a nossa imaginação.  Assim, o Dia do Folclore, 22 de agosto, é ótima oportunidade para conhecermos essas LENDAS criadas pelo povo.  Os MITOS são produtos da imaginação e das experiências de toda uma era, de toda uma cultura em imagens coletivas - eles se desenvolvem gradativamente à medida que as pessoas contam e recontam estórias.  -----  MITOS REGIONAIS - Percorrendo o Brasil em todos os pontos, vamos encontrar mitos que vivem apenas em algumas regiões.  Chega-se e em qualquer conversa, noite alta, lá vêm as estórias, muitas salpicadas de pavor e sangue.  Nas áreas urbanas mais desenvolvidas, a decadência dos fantasmas e monstros é visível e implacável.
 
3---ESTÓRIAS  -  BOTO COR-DE-ROSA, lenda amazônica.  Estória de um jovem guerreiro cuja grande beleza causou inveja ao deus Tupã, que então o transformou em boto, condenado a viver nos rios da região.  O jovem, no entanto, não se conformou em seu castigo e volta sempre à terra nas primeiras horas em bailes e noites de festa, transformado num bonito e elegante rapaz, branco, forte, grande dançador e bebedor, para namorar, conversar e conquistar a primeira jovem formosa ribeirinha que encontre.  Um detalhe:  vem sempre de chapéu para esconder as narinas de boto, que ficam na cabeça.  Antes da madrugada, pula na água e volta a ser o boto.  Ele é o "pai" de todos os filhos da responsabilidade socialmente desconhecida.   -----   CARBÚNCULO, o lagarto.  Vive no Rio Grande do Sul, possui um diamante na cabeça e tem o poder de dar riqueza infinita a quem o consiga possuir - à noite, transforma-se numa bela mulher.  Até hoje vive com seu único dono, um ex-sacristão, nos morros que fazem divisa com o Uruguai.   -----   MULA-SEM-CABEÇA, uma das lendas brasiieiras mais criativas e sinistras.  De acordo com as crenças populares, diz-se que mulheres que fizeram algo errado, em especial se apaixonar por um padre ou namorá-lo, se transformam em mula-sem-cabeça de quinta para sexta-feira e galopam pelos campos nas noites escuras, soltando fogo e relinchando, às vezes chorando feito gente, encanto somente quebrado se alguém tirar o freio que elas carregam no pescoço, quando então surgirá uma linda mulher triste e arrependida.  Em outra versão, ela tem cabeça, solta fogo pelas narinas e a metamorfose só terminará quando alguém tirar sangue da mula com uma alfinetada.  Essa estória, fórmula para inibir tetações, surgiu na Península Ibérica, parte da Europa hoje dividida entre Portugal e Espanha, provavelmente no século XII quando as mulas eram esses  animais considerados seguros e resistentes como meios de locomoção para os padres, indo sempre de uma aldeia a outra.  -----  SACI-PERERÊ, figura querida de MONTEIRO LOBATO.  Antes da descoberta do Brasil, os índios já conheciam um passarinho preto encantado que pulava de árvore em árvore com uma perninha só e se chamava 'yaci-yeretê', tinha cabeça vermelha e era ventríloquo, isto é, cantava e assobiava estridentemente de um lado da floresta e se ouvia do outro, fazendo com que o caçador se perdesse nas matas e não conseguisse caçar direito, pois ele era um diabinho protetor da caça.  Mais tarde, transformou-se num indiozinho de uma perna só e cabelos cor de fogo.  Aí vieram os africanos, aprenderam as estórias da terra e criaram um negrinho de uma perna só, também com cabelos de fogo e um pito na boca igualzinho ao do velho escravo.  Em seguida, o português transformou a cabeça de fogo num gorrinho daqueles dos pescadores de Nazaré.  O escravo, na sua língua diferente, já tinha arrevezado o nome para 'matinta-pereira'.  Na miscelânea de línguas, entre índio guarani, homem branco e homem negro, surgiu o menino mágico "saci-pererê", fusão das três raças, nossas origens, que unidas viraram uma só cultura.  Negrinho de uma perna só, fuma cachimbo e é muito brincalhão.  Em sua carapuça vermelha, o Saci guarda seus poderes.  Para capturá-lo, jogue uma peneira sobre os redemoinhos de vento;  depois, para que ele obedeça suas ordens, tire a carapuça e prenda-o numa garrafa - sua grande qualidade é desfazer nós.   -----   SUMÉ, ensinador.  Os índios tamoios eram poderosos e valentes, mas não sabiam cultivar a terra.  Certo dia, viram um homem branco andando sobre as águas do mar, vindo na direção deles - era Sumé, um ser poderoso que usava um camisolão comprido até os pés,  acalmava tempestades, acabava com as secas, amansava feras terríveis, e tinha sido mandado por Tupã para ensinar mágicas aos índios.  Uma prolongada seca estava acabando com os alimentos naturais e Sumé começou a ensinar como conseguir riquezas agrícolas da mãe-terra que, muito poderosa, bastava cuidar bem dela para colher fartura.  Os índios prepararam a terra, plantaram as sementes que Sumé trouxera e foi grande o espanto ao verem surgir depois tamanha quantidade de alimentos.  Além disso, ele também ensinou os segredos da navegação no mar e a arte de fazer cordas e tecidos;  a tribo viveu algum tempo em companhia deste homem branco, cheio de bondade e sabedoria.  Mas o tempo passou, os índios esqueceram os benefícios de Sumé, pajés e caciques com inveja do homem branco, levando os guerreiros a se revoltarem contra ele.  Num pôr do sol, Sumé estava à beira-mar falando aos índios sobre os segredos da natureza, quando então o cacique lhe atirou certeira flecha no peito.  O calmo homem branco a arrancou e foi-se afastando, de costas para o mar.  Outra flecha o feriu novamente, tirou-a sem nada dizer e foi andando sobre as ondas, andando, andando, olhando a tribo que ficara na praia, espantada, até que desapareceu no horizonte.
 
                                         FIM
Rubemar Alves
Enviado por Rubemar Alves em 23/06/2018
Código do texto: T6371960
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Sobre o autor
Rubemar Alves
Salto - São Paulo - Brasil, 51 anos
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Rubemar Alves