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FOLCLORE III - FRAGMENTOS DE ENTREVISTA


 
1---ELE, condutor de sua própria narrativa biográfica:    "DÉLCIO TEOBALDO - Escritor, jornalista, radialista, músico, artista plástico, pesquisador de culturas populares, professor de comunicação social.........(Ufa, digo EU!)  Raízes familiares profundas de um Brasil miiscigenado, rico em expressões culturais:  neto de batuqueira angolana, de cirandeira portuguesa e de caboclo contador de estórias;  filho de camponesa benzedeira e de dançador de caxambu e caboclinho...  Mineiro de Ponte Nova, Zona da Mata,  ouvi ladainhas, congadas, fulôs, cantos de calamboteiros e de lavadeiras... - vida fundamentada em contos/ritmos/festas, doces e licores portugueses do Algarve, poder de chás/benzas/unguentos da tradição guarani-banta. -----  Resgate sério da cultura popular através da multimídia no geral, multiplicando informações em aulas, palestras e em meus livros:  "A filosofia das tradições afrobrasileiras", "Cantos de fé, de trabalho e de orgia - o jongo rural de Angra dos Reis" e livro infantil  "Quatro trancados no quarto";  autor do musical "Chico Prado - negro na obra de CHICO BUARQUE DE HOLANDA", homenagem aos 60 anos de idade e 40 de carreira do compositor."
 
2---ELE diz:  "A cultura popular é uma ação política de baixo para cima, do centro para as superfícies e de dentro para fora, mostrando com o povo comunga, se organiza e mostra competência -   incômodo social, provocação diária, isto é, faca com duas pontas que fere-incomoda-provoca-discussões-reações - cultura produzida espontaneamente pelo povo, visível num objeto reciclado, audível numa brincadeira de roda, invasora olfativa num prato de comida:  cultura, soma desses saberes e possibilidades, geralmente não considerada, incentivada.  Nossa herança!  Sociedade dividida entre Brasil rural X Brasil urbano, Brasil popular (brega, sempre condenado, buraco vazio, espaço a ser pensado) X Brasil erudito (chique, deu certo), separação burra e inconsequente num único território.  Origem familiar no ruralismo, cultura rural agrícola, avó doceira transformava farinha-ovos-leite em bolos, mãe bordadeira transformava fios de linha em figuras fantásticas sobre o pano, avô ferreiro transformava metal bruto em talheres, pai pedreiro transformava terra-areia-cimento-água em casas...  Cresci sentindo meu mundinho de criança ser transformado o tempo inteiro por meus super-heróis de carne e osso. Como repensar estes valores?  Percebi que no Rio de Janeiro, cidade grande, eram saberes de pouco valor de mercado.  Ah, os dois Brasis!  Mas sou cidadão, artista e arteiro;  sei que o jovem pode ver a cultura popular do ponto de vista do professor.  Cultura é o que se vê, come, experimenta no dia a dia, universo grandioso e ilimitado, não apenas 'figuras', como o Saci Pererê, a Mula-sem-cabeça e outros simbolos reservados ao Dia do Folclore, 22 de agosto.  Quando THOMS formou a palavra 'folclore' (povo + saber), era para ficar claro um processo dinâmico e transformador.  Burrice limitar a cultura popular - o folclore poderia ser mais bem trabalhado na escola porque atende a todas as exigências do currículo, como por exemplo história e geografia na literatura de cordel, matemática nas quadrinhas do tipo "um dois, feijão com arroz, / três quatro, feijão no prato...",  educação física e artística em jogos como pique-esconde, bumba-meu-boi e capoeira - é mostrar ao aluno que ele vive e constrói o tempo todo a sua cultura, identidade e história (agora, com "agá').  Minha pesquisa sobre africanos, deuses e comunhão com o divino  se deu através da manifestação da natureza (tempestades, raios, trovões) e estado de euforia (dança e canto), assim como o filósofo  NIETZCHE sobre deuses gregos antes de SÓCRATES.  Sim, em ritual de gestação, ministrei um fórum de nove meses, e comparei os jongos com a cultura universal, "viajei' ao olhar o mundo do ponto de vista da cultura matriarcal africana, a mais antiga e inexplorada matriz do planeta, entendendo aldeias no coração de toda cidade, onde VILLA-LOBOS, compositores e cantores modernos beberam da mesma fonte, a popular erudição dos jongos.  O jongo de Angra dos Reis está no documentário "Morre Congo, fica Congo".  Só aí então escrevi o livro.  Os batuques e caxambus de meus avós e pais e também o jongo angrense são exemplos de que ainda existe grandeza no conhecimento humano.  No plural, os jongos são manifestações orais-rítmicas ligadas aos ciclos de plantio-cultivo-colheita, comuns às culturas mais remotas pois o homem sempre louvou-cantou-dançou o prazer de possuir sementes para plantar e assim comemora quando chuva e sol fazem a germinação, prazer da boa mesa em todas as culturas, sejam rurais ou urbanas, ricas ou pobres, nacionais ou internacionais - os jongueiros agradecem com benditos os frutos da terra, vários jongos para várias colheitas: conto (estória) e ponto (verso cantado) do jongueiro que cultiva cana-de-açúcar nunca igual ao do que planta e colhe banana ou café, não escritoss, porém sobreviventes na memória do povo.   -----   Editei meu primeiro livro, "Isto é coisa da idade", em 1995.  Estou (2003) no terceiro livro infanto-juvenil, mercado por consequência da carreira de professor.  "Quatro trancados num quarto" é a reação dos excluídos - quatro personagens do imaginário popular (Saci-Pererê, Mula-sem-cabeça, Bicho-Papão e Caipora) que. de repente. se descobrem ultrapassados-marginalizados num mundo que supervaloriza os games e joga no lixo os contos de "era uma vez", universo partido entre o popular e o moderno, o irreal e o real.  No quarto, eles repensam seus valores, dão a volta por cima e se reencontram como elementos indispensáveis à fantasia humana - o Saci personifica o negrinho aleijado e risível por quem não avalia sua miséria, a Mula representa a criança portadora de deficiência que se comunica por gestos, o Bicho-papão com lençol velho sobre a cabeça é o menor marginal, sem nome e sem rosto que se enrola em trapos e dorme sob a marquise, cheirando cola para enganar a fome, e o Caipora que luta pela defesa de bichos e plantas.   -----  Espécie de trilogia da possibilidade de sonho:  livros anteriores - "Isto é coisa da idade" e "Palavra puxa prosa" - e este."
 
3---MENSAGEM de TEOBALDO - "Não admitam o Brasil duplicado.  Não  aceitem que existam um país rico e outro pobre, um vencedor e outro derrotado, um legal e outro ilegal, um que deu certo e outro condenado à miséria.  Coloquem-se no meio, no miolo da questão.  Interfiram, provoquem com seus saberes.  Não conheço poder maior que o pensamento e consequente ação coerentes e organizados."
 
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FONTE:
 
"Délcio Teobaldo, entrevista" - Rio, jornal FALA, CRIANÇA! - Secret. Munic. de Culturas, ano 2, n.9, nov.-dez./2003.
 
                                                   F  I  M




Rubemar Alves
Enviado por Rubemar Alves em 27/06/2018
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Sobre o autor
Rubemar Alves
Salto - São Paulo - Brasil, 51 anos
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