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O POÉTICO E O PROSAICO: PROPOSIÇÕES DIFERENCIADAS

Cada texto tem uma proposta, desta sorte o rosto verbal aparece com máscaras diferenciadas. Cada uma delas com sua sugestão e teleologia. São coisas bem diversas o texto de proposição intelectiva e o poético, que tem nascimento e recepção no universo emocional do leitor. Na última hipótese a razão pouco participa. A sugestão poética se estabelece ou não na cuca do receptor, podendo atingir até o patamar da comoção – o nó na garganta e o marejar da lágrima. O racional, em regra, expressa-se pela espécie prosaica e o desafio dela é o convencimento do receptor, vale dizer: este tem de concordar e aderir ao resultado da proposição dialética, ou então exsurgirá a síntese do que pensa o leitor, que pode ser aprovativa ou não do que está posto como tese pelo autor – e esta é a resultante de um processo racional. Nesta segunda hipótese, a floração estética – o Belo – tem muito pouca importância, porque a peça não é apenas fruto de (e para) o prazer e gozo consequentes. Na proposta que exige a intelecção, não ocorre essa superficial sensação aprazível e/ou de encantamento, porque, em regra, “o pensar dói", tendo em vista que geralmente o processo dialético dá-se por consequência de uma ou várias ocorrências não imediatas. Leva tempo para se corporificar, devido a leitura preliminares, pesquisa, estudos específicos e muita paciência. Quanto a mim, em poesia ou na prosa poética, dá-me prazer em fazer alegorias, que nascem, decerto, a partir de uma infância pobre, mas muito encharcada de momentos de intensa felicidade. Permanece em mim o guri sapeca repleto de imagens e/ou aquele alter ego que auxilia a imaginar personagens inusitados, que remoem o espiritual até o surreal imagético que fala por si. O que pertence ao dia a dia, em assuntos, personificações e linguagem é muito mais fácil de ser bem recebido e entendido pelo leitor. A minha Poesia (destarte nem sempre tão ingênua ou singela, mas pleníssima de humildade) naturalmente se traveste de diversas máscaras, indumentárias ou vestimentas peculiares. Faz isso para agradar a mim próprio ou ao meu, por vezes, trôpego e/ou insolente alter ego. Deve ser capaz de cooptar o meu leitor, que é vário e exigente, com vários patamares espirituais de conhecimento experimental. O receptor é o meu alvo e alimento. É só observar com cuidado o teor dos comentários sobre os textos, nas atuais redes sociais, ressaltando as postagens no perfil do Facebook. Tenho sofrido algumas críticas sobre o "ar professoral" a mim atribuído, no caso de textos mais longos (como este) por alguns leitores nem sempre capazes de desprender-se do reiterado dia a dia e vir a dispender algum precioso tempo, que é o necessário cadinho para escarvar, alargar ou redimensionar, a fim de que se torne possível ampliar os seus domínios espirituais e/ou muita paciência e zelo para o enfoque e abrangência de alguns textos, especialmente no campo da teoria literária, ensaios, tutoriais e artigos sobre cultura e literatura. O que fazer? Nesses espécimes, em regra prosaicos, encontra-se pautada a longa trajetória dos meus quase 73 anos e um pouquinho de leitura. Essas caraminholas verbais são o produto sempre inacabado (para mim o texto nunca está definitivamente pronto) que podemos dispor no momento e representam também o humilde registro de nossa passagem como autor frente aos leitores, para o desejado e possível apossamento deles devido ao assunto, conteúdo e/ou beleza rítmico-formal. Muitos destes “condenados ao pensar”, como eu, vivem querendo expor suas criações, sempre dispostos a burlar, a discutir e oficinar suas ideias, a revisar seus escritos, visando produzir textos mais elaborados e metaforizados, especialmente em Poética. Porém, é esse experimental de uns e outros que me faz hígido e íntegro de perplexidades, sempre à busca do Novo, do humano e do estético, sob variegados prismas ou enfoques. Cada um, enfim, vê o mundo segundo o concebe. Na minha concepção (curiosamente, visto a codificação de linguagem inerente à Poética) a peça lavrada em Poesia sempre desce mais fácil ao mundo dos fatos do que o prosaico, mesmo que o poema seja a resultante do exercício da eterna arte literária, mercê de não pertencer a este por sua natureza não fática, irreal, portanto, fruto da invenção, da farsa, da fantasia e dos sonhos. É, por suposto, o enfrentamento do homem à busca de si próprio para poder conviver pacificamente com a realidade, que é sempre dura, exigente e hostil quanto ao exercício da confraternidade. No entanto, é a fraternidade ontológica que conforta o poeta-autor, o poeta-leitor, o escritor que se cinge à prosa e ao escritor-leitor. Cada um com o seu universo de proposta simples ou ardilosa palavra, na concepção de seu pessoalizado mundinho. Vale a explicitação em verso e/ou prosa. É o que nos conforta ou oprime.

– Do livro inédito OFICINA DO VERSO: O Exercício do Sentir Poético, vol. 02; 2015/19.
https://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/6742043
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 10/09/2019
Reeditado em 12/09/2019
Código do texto: T6742043
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 72 anos
3459 textos (863669 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 21/09/19 09:26)
Joaquim Moncks