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CANTADORES, REPENTISTAS E VIOLEIROS - PARTE III


 
1---"Negro, em banho, perde 3 coisas: / o tempo, a água e o sabão, / quanto mais ele se esfrega, / mais fica como um tição. / Queres tomar meu conselho? / Melhor deixar banho de mão".
 
2---Na PELEJA de JOSÉ AUGUSTO, narrada pelo próprio, com ANA ROXINHA DA BAHIA, o preconceito racial do sertanejo contra o negro não aparece de forma muito atenuada  (ARIANO SUASSUNA, um dos pouquíssimos intelectuais nordestinos a reconhecer a existência do fenômeno).  A neta de ROXINHO DA BAHIA, apesar de ter vindo de um Estado de miscigenação aceita sem maiores reações, segue a tônica de quase todos os violeiros, tratando o negro com grande desprezo:  "Do boi se espera a pontada, / do vulcão, a lava e cratera, / da cobra se espera o bote, / e da montanha, uma fera, / do burro se espera coice, / do negro que se espera?"  Ele, a princípio luta como pode contra o preconceito:  "Roxinha, não é a cor / que recomenda o sujeito, / que sua mãe era branca / e que miséria tem feito".  Mas termina aceitando a inferioridade do homem de cor, num escalonamento racial:  "...é melhor preto puro / que um branco misturado".  Mais adiante, decepcionantemente, procura negar sua própria condição racial, por ser violeiro e não viver como vivem os outros negros:     "Eu sou um dos pretos brancos".   -----   O Cego ADERALDO não fica por menos em seu desprezo ao descendente de africano,  Na peleja com ZÉ PRETINHO, protesta por encontrar um negro que ousa com ele cantar:  "Este negro foi escravo / por isso é tão positivo, / quer ser na sala de branco / exagerado e ativo".  O cego, não contente em derrubá-lo com um jogo de palavras  (quem a paca cara compra, a paca cara pagará) que o crioulo não soube dominar, usa da prepotência não muito comum entre os cantadores diante de um adversário que se reconhece vencido:  "Negro na sala de branco; só serve para dar desgosto".   -----  Preconceito fantástico.  Escassos negros bons cantadores e violeiros frustrados em não ter muitos pretos contra quem possam firmar se mais como poetas, aí buscam na imaginação seres fantásticos, dos reinos das trevas, invariavelmente de pele escura.  MANUEL RIACHÃO estava cantando em Assu, RN, "quando apareceu um negro da espécie de urubu, beiços grossos e variados, um olho encarnado e outro muito amarelo".  Veio o convite para um martelo  (gíria) - ele não gostava de cantar com negro desconhecido, mas desafio é desafio.  O preto começa a dizer que tem muita proteção a oferecer ao sertanejo e Riachão responde:  "...que proteção tem você / para proteger alguém? / Sua pessoa e os trajes / mostra o que você tem, / a sua cor e aspectos  esclarecem muito bem".  No fim, Riachão reconhece estar pelejando com o diabo, salvo pelo apelo à Virgem Maria.  o diabo também se veste de mulher, sob a pele de mulher feia e fedorenta, da qual mesmo cantadores experientes só se livram pelos poderes de Santa Maria.   -----   Explicações.  SUASSUNA diz que preconceito contra negros é mais arraigado no sertão onde a miscigenação foi menor que no litoral - constata o fenômeno, mas tenta atenuar:  "...em grau menor do que em outras nações".  Segundo o sertanejo, cor negra e variantes são suficientes para definir o caráter de um indivíduo:  "A mulher que me casei / é quase preta e por isso / me fez uma traição", peleja de VICENTE SABIÁ com ANTÔNIO COQUEIRO.  ---  A primeira importante tentativa de interiorização  do negro no Nordeste, Palmares, provocou reações nos donos de terra que viam seus domínios em perigo  e nos plantadores de cana e usineiros para quem a fuga de escravos era grande perda de capital - para os demais nordestinos, bem vista a entrada de negros no sertão.  Com a abolição, o negro buscava o interior por não ter lugar certo para ir e conseguiu mais vantagem, por maior resistência ao duro trabalho com a terra, entre os sertanejos sem terra, os alugados, ou sobrevivendo como vaqueiros - terra onde não dava cana era ocupada pelo boi.  O negro recém-vindo da escravidão era mais servil, facilmente se prestava aos desmandos dos donos de terra, o mais odiado inimigo do sertanejo.
 
3---O ROMANCE nordestino desenrolou-se onde o herói é sempre um retirante, vaqueiro ou boiadeiro comprador de gado, lutando contra proprietários prepotentes e desalmados, protegidos por um exército de pretos.  NEGROS e donos de terra, do Amazonas ao Paraná, encontraram sempre um sertanejo valente que os derrotou no tiro ou no punhal para libertar os oprimidos.   -----   O maior exemplo está na série de 3 folhetos, estória de seringueiro cearense lutando no Paraná.  No último romance, "O coronel Mangangá e o seringueiro do norte" - "...de manhã, o seringueiro ajuntou todo o habitante, avaliou a fazenda do Mangangá inconstante e cada um recebeu uma parte interessante", daí então "nunca mais houve desgraça na fazenda Canaã".  Esse coronel, como todos os grandes donos de terra retratados em romance, "era ruim que só a desgraça, malvado de fazer dó".  o negro a seu serviço, Canguçu, irmão de outro malfeitor também terrível empregado, "nasceu para ser insolente, ser chaleira do patrão, desonrar e sangrar gente  (...) qualquer que ele pegasse não tinha lamentação, matava e tirava o couro para mostrar o patrão".   ---   Em "O encontro de duas feras", "A história de Zé Mendonça, o sertanejo valente", "As aventuras de um boiadeiro", "A firmeza de Alzira e o heroísmo de Zezinho", "O valente Sebastião", "O sertanejo Antônio Cobra Choca", "O Nero do Amazonas", coronéis do tipo padronizado, terrível "negrada" a seu serviço.  "No lugar onde morava era o maior cangaceiro, sendo ele muito rico, afamado fazendeiro  (...)  se alguém no seu engenho, batesse alto a porteira, ele mandava-o pegar e botar na caldeira  (...) sangrava por brinquedo e bebia o sangue sorrindo  (...) só conhecia o carrancismo, este velho fazendeiro".   -----   Os MESTIÇOS, principalmente os sararás, com todas as características do negro, lábios grossos, cabelos encarapinhados, mas pele branca e cabelos louros, eram vistos com algum desprezo, mas não aliados aos donos da terra, conseguindo chegar à categoria de herói.  "Esse Antônio Cobra Choca era um tipo sarará, os beiços cheios de frieiras, os cabelos encruzados, o corpo era um tanto banzeiro, era desses que cuspia e a baba dava veneno".  Na luta contra o fazendeiro que "na arte de conquistar era muito viciado, infinidade de moças já tinha deflorado, à responsabilidade ele nunca foi chamado".  Cobra Choca sai vitorioso e casa com a filha branca do inimigo e vai viver em paz.   ---   MISCIGENAÇÃO aceitável.  Mendonça, outro nordestino valente, derrota o coronel Piancó, dono do Engenho Lageirão - Mendonça "era um cabra sarará, tinha o nariz de taboca, o rosto largo e comprido, o cabelo de toioca".  Esse coronel tinha um cão que tinha costume mijar sobre as pessoas que chegavam à fazenda e que pelo coronel eram obrigadas a ficar agachadas, facilitando o trabalho do cachorro mijão - Mendonça mata o cachorro, aplica uma surra no irmão de Piancó, mas dá uma de racista, seduz uma menina de 15 anos e se recusa a casar;  para contornar a situação, o fazendeiro da-lhe dinheiro e roupa nova, contanto que case com a negrinha grávida.  Resposta meio desconcertante:  "Quem gosta de Negro é onça.  O senhor criou a negra, também cria o molequinho".  ---  Reviravolta.  O ROMANCEIRO tem um grande senso de justiça.  Cobra Choca, o sarará valente e aceito pelo status, vai lutar contra Mendonça  (motivo para outro romance...) e força-o a casar com a negrinha - nasce uma menina que "apesar de cabrinha, tinha traços de uma fidalga, era muito engraçadinha",  Mas  nos ROMANCES EM VERSOS, o destino dá muitas voltas e o filho de um sarará com uma branca (casal Cobra Choca) acaba casando também à força com a filha de um sarará com uma negra  (casal Mendonça) e, sem fazendeiro para atrapalhar, está implantada a paz no SERTÃO com a MISCIGENAÇÃO.
 
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FONTE:
 
"O preconceito racial na literatura de cordel", artigo de JEOVÁ FRANKLIN DE QUEIROZ, jornalista, e pesquisador-colecionador de xilogravura nordestina - Petrópolis, Revista de Cultura Vozes, ano 64, vol. LXIV, n. 8, out./70
 
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Rubemar Alves
Enviado por Rubemar Alves em 01/12/2019
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Sobre o autor
Rubemar Alves
Salto - São Paulo - Brasil, 52 anos
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