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UM POEMA VALE MAIS QUE MIL PALAVRAS

Um poema vale mais do que mil palavras, e vou provar o porquê!

Não interessa quantas palavras o poema tenha. O que interessa é o valor de cada palavra no poema, porque, embora ele use palavras, não fala o que as palavras dizem. O poema faz as palavras dizerem o que o poeta quer dizer. Todo poeta é um alquimista das palavras!

Analisemos, por exemplo, as palavras do grande poeta Carlos Drummond de Andrade, em seu poema denominado “Quadrilha”: o que esse poema diz pra você? Eu não sei o que esse poema diz pra você, mas, para mim, o poema fala muito sobre o amor.

Vejamos apenas três pontos que me chamaram atenção nesse belo poema:

1. O amor verdadeiro nem sempre é biunívoco, pois ele pode não ser correspondido, claro! Então vem a pergunta: O que é o amor não correspondido? Respondo: é o fake news do amor, pois representa a completa alienação da felicidade própria. O amor verdadeiro não se pergunta sobre o retorno, o amor verdadeiro não necessita de correspondência, não precisa de espelho, o amor verdadeiro é gratuito e incondicional. O amor verdadeiro simplesmente ama, ponto.

2. As pessoas se amam, sim, isso é verdade. Mas, muitas vezes, ao amar, as pessoas se confundem sobre o que é o amor. Quem ama não foge, como João; não se enclausura, como Tereza; não se mata num desastre, como Raimundo; e nem se desilude e fecha o coração, como Maria. Quem ama verdadeiramente enfrenta os desafios, encara as dores que vierem, não morre, mas fica vivo para amar mais; quem ama, verdadeiramente, deixa o coração oxigenar, pois abre as portas e janelas da vida para novas chances e oportunidades. O amor é vida, o amor é alegria, o amor é luta diária de autoafirmação e consciência de si; o amor não é sofrimento, não é dor e não é alienação! Ninguém é capaz de amar verdadeiramente o outro se não for capaz de amar a si próprio, em primeiro lugar! Somente quem experimenta o amor verdadeiro é capaz de distribuí-lo! Na verdade, a essência do amor é distribuição!

3. No poema, o poeta não fala do amor antes de João, sequer do amor inexistente de Lili. No entanto, esta se casou, aquele fugiu! Ora, quem ama verdadeiramente não foge, e quem se casa nem sempre é por amor! Qual amado teria um nome tão parecido com a insígnia de uma empresa “J. Pinto Fernandes”? Será que Lili se casou com “José”, com “João” ou talvez com o próprio “Joaquim”, cujo sobrenome era “Pinto Fernandes”, mas que, por infortúnio, veio depois descobriu o amor não correspondido de Lili e, por isso, se matou?

Bom, tratei apenas três pontos acerca do que me impressionou nesse lindo e instigante poema do grande poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade.

E só por isso já se foram mais de quatrocentas palavras e mais de dois mil e quinhentos caracteres!

Imagine tantas outras impressões e interpretações possíveis que um poema, como esse, pode ocasionar nas pessoas!

Portanto, está provado: um poema vale mais do que mil palavras!


                        Quadrilha
(Carlos Drummond de Andrade, 31/10/1902 - 17/08/1987)

João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.
Roberto Dourado
Enviado por Roberto Dourado em 09/06/2020
Reeditado em 15/06/2020
Código do texto: T6972601
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Roberto Dourado
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 56 anos
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Roberto Dourado