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12.2- Ainda a 'magia' do Pretérito Imperfeito do Modo Indicativo – A Narrativa DINÂMICA




No capítulo anterior, servimo-nos de exemplos retirados da obra “Madame Bovary”, da autoria do autor francês, de meados do século XIX, Gustave Flaubert, para colhermos exemplos do uso do Pretérito Imperfeito do Modo Indicativo.

Vimos que esta forma verbal, o Pretérito Imperfeito do Modo Indicativo, exprime uma ACÇÃO, PASSADA, que aconteceu em SIMULTÂNEO com outra.
Mas a “magia” desta forma verbal não se fica por aí.

Para tornarmos mais compreensível o capítulo de hoje, vamos proceder como no capítulo anterior, estabelecendo a oposição entre Pretérito Perfeito e Pretérito Imperfeito (ambos do m. Indicativo):
Vamos, pois, continuar a assinalar o Pret. Perf. com aspas, e o Pret. Imperf. com maiúsculas.

E voltamos a colher excertos na obra de Flaubert, que nos fornece exemplos muito evidentes e de muito fácil apreensão.

Em primeiro lugar, vou dar o CONTEXTO do excerto que escolhi para o capítulo de hoje:

A vida conjugal de Emma Bovary não a satisfaz... A educação que recebera, no colégio, tinha-lhe criado sonhos de um sentimentalismo cor-de-rosa, incompatíveis com o ritmo monocromático, modesto, do dia-a-dia normal de uma mulher da pequena burguesia de uma cidade de província, no século XIX... Por outro lado, a mulher do século XIX, de fraca cultura geral, e vivendo confinada à vida doméstica, não encontrava formas de realização pessoal que dinamizassem a sua vida... Emma Bovary, que crescera numa educação sonhadora, vive sentimentos de tormentoso desajustamento e tormentosa desilusão. Mas não sabendo interpretá-los, na sua ingénua revolta contra a monotonia da sua vida, fixa-se contra o marido:
Reportando-nos sempre à mesma edição (1), na página 104, podemos ler:

““Então “volveu” contra ele todo o ódio acumulado pelos seus aborrecimentos e cada esforço que FAZIA para o reduzir SERVIA apenas para o aumentar, pois esse esforço inútil IA acrescentar-se aos outros motivos de desespero e CONTRIBUÍA ainda para maior afastamento. A sua própria docilidade lhe CAUSAVA revolta. A mediocridade doméstica INCITAVA-a a fantasias luxuosas; a ternura matrimonial, a desejos adúlteros. ””

Vamos comparar as formas verbais assinaladas:

“volveu”           FAZIA
                       SERVIA
                       CONTRIBUÍA
                       CAUSAVA
                       INCITAVA-a

Penso que é evidente o CONTRASTE entre “volveu” e as outras formas:
“volveu” – mostra-nos uma ACÇÃO que entendemos como TOTAL: ela “volveu” o seu ódio contra o marido: e arrumou o assunto; foi uma interpretação DEFINITIVA sobre os seus sentimento; não se sentia feliz ao lado dele, e percebeu que não havia nada a fazer; ela arrumou com o assunto de uma vez por todas;
                           “volveu”
                            está no Pretérito Perfeito do Modo Indicativo;

O pior é que a par desse FACTO PONTUAL mas DEFINITIVO, no seu íntimo, na sua psique, Emma Bovary passou a alimentar sentimentos tormentosos de desespero... sentimentos que cresciam e a destruíam, prolongadamente...
                            FAZIA
                            SERVIA
                            CONTRIBUÍA etc
                            estão no Pretérito Imperfeito do Modo Indicativo


FLAUBERT é exímio, excelente, ao servir-se deste CONTRASTE, desta OPOSIÇÃO entre estas duas formas verbais:
          É esta OPOSIÇÃO entre :
                            o ACTO DEFINITIVO
                            e
                            o ACTO INDEFINIDO, PROLONGADO, REPETITIVO...e
                                                                                         SIMULTÂNEO

                           que dá
                           DINAMISMO e MOVIMENTO à NARRATIVA!


Deste modo, nós, LEITORES, temos a impressão que a narrativa corre ali, à nossa frente!
Parece-nos que estamos a ouvir um velho contador de histórias, com as suas sugestivas inflexões de voz, falando de modo acelerado nas ACÇÕES breves (o pret PERFEITO), e logo em seguida, pausadamente, nas ACÇÕES intermináveis, que se prolongam no “tempo psicológico”... (o Pret Imperf)...
...Fechamos os olhos, e é como se  um filme se projectasse sozinho, no ecrã da nossa imaginação...



***

INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR:

Flaubert:

“Hoje na História - Flaubert conclui romance 'Madame Bovary'
Se publicação de livro em 1857 marcou época na história do romance universal, é porque não obedecia às regras tradicionais da narração”
https://operamundi.uol.com.br/historia/15292/hoje-na-historia-1851-flaubert-conclui-romance-madame-bovary

Madame Bovary, de Gustave Flaubert
O livro é um marco do Realismo no Século XIX e explora emoções universais do ser humano.
https://www2.camara.leg.br/a-camara/visiteacamara/cultura-na-camara/historia-arte-e-cultura/literatura-e-musica/clube-de-leitura/obra-madame-bovary-de-gustave-flaubert



Myriam
2021



Myriam Jubilot de Carvalho
Enviado por Myriam Jubilot de Carvalho em 11/01/2021
Reeditado em 11/01/2021
Código do texto: T7157395
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Myriam Jubilot de Carvalho
Portugal
118 textos (1856 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 25/01/21 17:12)