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13.2- Enriquecimento da Narrativa – o DISCURSO DIRECTO e o DIÁLOGO

Em geral, ensina-se que a DESCRIÇÃO e o DISCURSO DIRECTO são PAUSAS na Narrativa.

Considero que essas DEFINIÇÕES são meramente FORMAIS, e não despertam a nossa sensibilidade para a Arte das Palavras.
São definições baseadas em regras...
= Na narrativa predomina o pretérito perfeito do modo indicativo;
= O discurso directo é introduzido pelo “travessão” ( – )

Prefiro uma explicação que tenha em conta a FUNÇÃO dos diferentes ELEMENTOS da NARRATIVA.

Pensemos bem:

O que é um ROMANCE :
Em capítulos anteriores, já demos a entender o que é um Romance: é uma narrativa longa, que nos conta a vida das personagens com todo o pormenor. Esta é uma DEFINIÇÃO FUNCIONAL.
Em geral, aceita-se que para ser romance, a narrativa terá para cima de 40.000 palavras. Esta é uma DEFINIÇÃO FORMAL.

Pois bem:
Para manter o interesse dos leitores, o Escritor, ou Autor, terá que dispor de várias técnicas, ou estratégias, ou elementos que mantenham o dinamismo da sua história e assim interessar os seus leitores do princípio até ao fim!

Já conhecemos algumas dessas técnicas: ENTRELAÇAR, ou ALTERNAR:
Momentos de narrativa pontual
com
Momentos de narrativa dinâmica
com
Momentos de descrição – quer do tempo, quer do local, quer dos “retratos” físico ou psicológico das suas personagens.

Falta-nos falar de:
DISCURSO DIRECTO
e
DIÁLOGO.

Tanto o DISCURSO DIRECTO, como o DIÁLOGO, trazem para a nossa frente as personagens ao vivo, a CONVERSAREM umas com as outras! Parece que estão ali, na nossa frente, a fazer ouvir a sua voz, e que nós somos os espectadores privilegiados a ver como tudo está a acontecer!
É quase como que um pouco de Teatro que nos é apresentado!


Então, perguntamos: o que é o DISCURSO DIRECTO?

O DISCURSO DIRECTO é a reprodução fiel do que diz uma personagem;

O DIÁLOGO é a reprodução fiel de uma conversa entre duas ou várias personagens.... Uma conversa imaginária, bem entendido!


NOTE BEM:
tanto o DISCURSO DIRECTO
como
o DIÁLOGO: são assinalados por um sinal gráfico: – (o travessão).


***


Hoje, vou retirar um exemplo à obra de uma grande ESCRITOR português do século XX, que muito aprecio:
BERNARDO SANTARENO – 1920 – 1980.
No ano passado, 2020, celebrou-se o centenário do seu nascimento.
Bernardo Santareno é, principalmente, um escritor dramático. É autor de várias peças de Teatro.

Para entendermos a sua obra, é necessário recordar vários pormenores, enquadrando o Autor no CONTEXTO político e social da época em que viveu:

1- Em Portugal, tem-se praticado a pesca do bacalhau desde o século XVI.
No século XX, a pesca do bacalhau foi incentivada pelo Estado Novo.
A pesca do bacalhau desenvolvia-se nos bancos da Terra Nova, e nos mares da Gronelândia.
Os navios bacalhoeiros partiam para a pesca em Abril e regressavam em Novembro.
Mas com os anos, os navios envelheceram e não ofereciam condições de salubridade aos pescadores.

2- Durante o Estado Novo, imperou a exploração do Trabalho, como é sabido. No caso da Pesca do Bacalhau, os pescadores eram mal pagos e mal alimentados...
E, como se sabe, não havia direito a protestar.

3- O navio bacalhoeiro era conhecido como o LUGRE.
A pesca era praticada por pescadores solitários, cada um lançado ao mar numa pequena barcaça de um só ocupante: o DÓRI.
Os dóris eram lançados ao mar de madrugada, e o pescador teria que voltar à noite, com o seu barquito cheio de peixes...
Os pescadores enfrentavam o frio extremo, a neve, e o nevoeiro... Por vezes, acontecia que um ou outro se perdia...
A frota bacalhoeira era acompanhada por um navio-hospital. Era este navio que recebia a correspondência das famílias e a distribuía pelos pescadores.

***

Bernardo Santareno era médico.
Para satisfazer algum gosto de aventura, e a sua curiosidade humana de escritor, Bernardo Santareno concorreu ao lugar de “médico de bordo”. Acompanhou as campanhas de 1957 e 1959.

Bernardo Santareno posicionou-se contra a Ditadura, e isso fez com que o conjunto da sua obra fosse perseguido pela Censura do “Estado Novo”. Várias das suas peças de Teatro foram proibidas pela Ditadura.

SOBRE A PESCA DO BACALHAU,
BERNARDO SANTARENO escreveu duas obras:

“Nos Mares do Fim do Mundo” – relatos e memórias dessas suas viagens;
“O Lugre” – peça de teatro que se desenvolve a bordo de um navio bacalhoeiro.


É da obra NOS MARES DO FIM DO MUNDO (1) que retiro o exemplo que escolhi para o capítulo de hoje :

Pág 95:
DISCURSO DIRECTO:

NOTE BEM que o DISCURSO DIRECTO é assinalado por um sinal gráfico:– (o travessão).

Primeiramente, o Autor faz um retrato do ti’Fausto.
Só depois reproduz as suas palavras:

““Lá está o ti’Fausto. (...) Natural da Fuzeta algarvia, anda há um ror de anos... sei lá... mais de quarenta!, na pesca do bacalhau. Tem filhos homens, já casados, como ele também pescadores. Um sonho, de todas as horas e minutos, uma obsessão: conseguir aguentar, mais quatro anos ainda, nos bancos da Terra Nova e da Gronelândia, pois só então, aos sessenta e dois, terá direito à reforma!
– Sempre são quatrocentos mil réis todos os meses, senhor doutor: na é muito, mas pra mim e prá velhota...
Um silêncio, durante o qual o ti’Fausto, bem unidos os lábios pregueados, os olhitos velados por não sei que sombra desalentada, olha fixamente o mar:
– Na sei, senhor doutor, na sei se lá chegarei. Já o ano passado parti esta perna, ali naquele cabo!... A gente voa envelhecendo... E quem é que quer um velho?...
Depois, num trejeito de todo o seu corpo nervoso, com uma risadinha miúda, verdadeiramente fresca, o velho reage:
– Ora, na quero saber! Eu cá na penso: A pensar morreu um burro, pois atão! E ao cabo, o futuro a Deus pertence.
Ao fim de noites como esta, suadas de labor, insónia e vento, é que mais se patenteia o cansaço do Ti’Fausto.””



INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR:

Sobre “ Romance ”
https://mundoeducacao.uol.com.br/literatura/romance.htm

Sobre A PESCA DO BACALHAU:
Faina maior, a pesca do bacalhau
https://ensina.rtp.pt/artigo/faina-maior-pesca-bacalhau/


De BERNARDO SANTARENO:
«NOS MARES DO FIM DO MUNDO» DE BERNARDO SANTARENO
https://transportesentimental.blogs.sapo.pt/nos-mares-do-fim-do-mundo-de-bernardo-347636


_________________________-

(1) -
Nos Mares do Fim do Mundo:
Letras Errantes e E-Primatur
Lisboa, 2016



Myriam
Janeiro de 2021
Myriam Jubilot de Carvalho
Enviado por Myriam Jubilot de Carvalho em 27/01/2021
Reeditado em 29/01/2021
Código do texto: T7170360
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Myriam Jubilot de Carvalho
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