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É questionável a atual definição de saúde fornecida pela Organização Mundial de Saúde[1] que é “situação de perfeito bem-estar físico, mental e social” da pessoa sendo ultrapassada por postular uma perfeição inatingível e utópica, sendo contrário até as próprias características da personalidade humana.
 
Além de prover a renúncia de parte da liberdade pulsional do homem em troca de se obter maior segurança. Aliás, também é discutível a distinção havida entre soma, psique e sociedade, quando se adota o conceito de homem integrado e registrando-se a integração desses três aspectos na construção de um ideal de saúde.
 
Igualmente deve ser revista a noção de qualidade de vida sob a inspiração antipositivista. Flagra-se também um resgate ao subjetivismo e reverte a um questionamento sobre a vigente definição de saúde bastante embasada em avaliações externas, consideradas objetivas.
 
Cogita-se em ser irreal a definição de saúde editada pela OMS que ao aludir ao “perfeito bem-estar” o que já enuncia uma utopia. Ao enfocar o subjetivismo, como bem-estar traz em seu bojo além de conceitos externos de avaliação (é o modo peculiar com qual se trabalha a saúde coletiva), já quanto à perfeição, resta mesmo indefinível.
 
Ainda que fôssemos objetivistas para aferir com precisão o grau de perfeição do bem-estar ou ainda a felicidade de um sujeito (externo à ele, elevar-se-ia automaticamente às categorias que, existem por si mesmos, e não sujeitas a uma descrição dentro de um contexto que lhe emprestasse sentido, a partir da linguagem e da experiência íntima do sujeito. Só então poder-se-ia cogitar de felicidade para um sujeito que, dentro de suas crenças e valores o legitimasse.
 
Ainda que se considerasse a angústia como repercussão automática e somática (seja de maior ou menor grau) inerentes às próprias condições de ser humano.
 
Deve-se lembrar que divergir de posturas sociais e culturais e quiçá marginalizar-se ou, simplesmente, ser marginalizado frente à essa mesma sociedade, não obstante o sofrimento que tais situações trazem é comum e, por vezes, até mesmo saudável para o ser humano que deve se conduzir de forma crítica e reflexiva sobre o ambiente e contexto onde vive.
 
Bergson[2] contrapôs duas formas de moral possíveis, a saber: a estoica e a dinâmica. A estática fixou-se nos costumes, nas ideias e instituições, reduzindo-se realmente de caráter conservador; já a faceta dinâmica resulta de impulso criador que se relaciona à vida em geral, representando uma ética de ruptura e da criação de novos valores.
 
A pergunta pela felicidade é essencial na filosofia imanente de Spinoza[3], a qual é apresentada como o gozo de uma alegria eterna e estável com Deus, causa de todas as coisas. São três os âmbitos que constituem a questão da felicidade nesta filosofia, a saber: o afetivo, cognitivo e o ético. Segundo a filosofia da ação, a felicidade é, portanto, a atividade vital de fruição da alegria concomitante ao conhecimento intuitivo de terceiro gênero, ou seja, o sentimento de eternidade e união com Deus.
 
Freud, em mais de uma oportunidade, procurou apontar como que a perfeita felicidade de um indivíduo dentro da civilização é algo impossível.
 
Já para Kant a felicidade é o estado em que se encontra no mundo um ser racional para quem, em toda a sua existência, tudo decorre conforme o seu desejo e a sua vontade; pressupõe, por consequência, o acordo da natureza com todo o conjunto de fins deste ser, e simultaneamente com o fundamento essencial de determinação da sua determinação de vontade. Na sua obra “Crítica à razão prática” enunciou a conexão harmônica da felicidade com a moralidade. Kant colocou a felicidade no âmbito do prazer e do desejo.
 
Em defesa da felicidade intelectual, com base no fato de o homem ser um animal racional, Aristóteles concluiu que a maior virtude de nossa alma racional é o exercício do pensamento, pelo quê, segundo o filósofo, a felicidade chega a se identificar com a atividade pensante, o aproximar o ser humano da divindade.
 
Com o fim do mundo helênico e o advento da Idade Média, a felicidade desapareceu dos questionamentos filosóficos. Pois os filósofos doutores cristãos mais do que a felicidade, valia a salvação da alma.
 
Bertrand Russell[4] dedicou-se ao tema em sua obra “A conquista da felicidade” usando o método da investigação lógica para concluir que é necessário alimentar uma multiplicidade de interesses e de relações com as coisas e com os outros homens para ser feliz. Em síntese, a felicidade é a eliminação do egocentrismo.
 
Afinal, para Freud a civilização passou a existir quando os homens fizeram um pacto entre si, pelo qual trocaram uma parcela de sua liberdade pulsional em prol de um pouco de segurança.
 
Assim, a própria organização social e a condição mesma da existência do homem em grupos, baseiam-se em renúncia que, assegura ao indivíduo certos benefícios, mas que gera um constante sentimento de mal-estar.
 
Do qual não se pode fugir, donde resulta que entre o indivíduo e a civilização sempre existirá uma zona de tensão. Pode-se situar o referido mal- estar em momento anterior à constituição dessa civilização da qual se referiu Freud.
 
Pois o homem construiu a civilização exatamente para escapar da incômoda insegurança em que vivia, decorrente de sua exposição a um status de coisas não exatamente sem leis, mas simplesmente sob a égide da lei do mais forte, o que não deixa de ser uma regra selvagem e injusta. O verdadeiro império da barbárie.
 
O filósofo Castoriádis[5] afirmou que Freud não conseguiu provar que o social tinha origem na sexualidade ou no assassinato do pai primevo.
 
Pois onde ele pensava que havia natureza, já havia cultura, isto é, já havia cultura, isto é, nessa suposta pré-civilização já havia o instituído.
 
Étienne da La Boétie durante o século XVI escreveu in litteris: “É o próprio povo que se escraviza e suicida, podendo escolher entre ser submisso e ser livre, renuncia à liberdade e aceita o jugo, quando consente com seu sofrimento, ou melhor, o procura”.
 
Aliás, questionou Étienne como um único tirano poderia manter o jugo sobre milhares de homens e dezenas de cidades. Seria devido ao hábito servil, ignorância ou fraqueza moral? Ou pela enganação das políticas que oferecessem tão-somente pão e circo e dos discursos religiosos e supersticiosos que envolvem o tirano com um manto de devoção.
 
Cabe lembrar que La Boétie[6] quando analisamos a nossa própria situação pós-moderna e quando questionamos sobre os limites de nossa liberdade.
 
Em 1989, o filósofo espanhol Julián Marias[7] dedicou-se ao tema com sua obra “A felicidade humana”, em que estuda a história dessa ideia, da Antiguidade aos presentes dias, ressaltando que a ausência de felicidade no mundo contemporâneo, talvez seja um sintoma peculiar do quanto o mundo anda muito infeliz.
 
Byung-Chul Han em “Sociedade do Cansaço”[8] discutiu a ascensão do novo paradigma social, em que a sociedade disciplinar de Foucault é substituída pela sociedade do desempenho.
 
Tal modelo social é movido por um imperativo de maximizar a produção. Somos, portanto, sujeitos de desempenho e constantemente somos pressionados a aperfeiçoar nossa performance e majorar nossa produção. Produzimos até a exaustão e, certamente isso afeta nossa saúde. E, o resultado é que a sociedade gera fracassados e depressivos, a quem só resta recorrer aos medicamentos para continuar produzindo cada vez mais e de forma eficiente.
 
A queda da liberdade faz que coincida a coação e, nos entregamos voluntariamente à liberdade coercitiva, o que é simplesmente paradoxal.
 
Recentemente sobre o coronavírus[9], ou Covid-19 teve o número de infectados majorado em razão da mudança de método de diagnóstico. Isso significa que as imagens do pulmão em pacientes suspeitos da doença passam a ser consideradas suficientes para confirmar o vírus, no lugar dos exames de DNA ou sanguíneo.
 
Tal mudança representa a antecipação do tratamento para a cura bem como a uniformização com os procedimentos de classificação patológica.
 
Afirma-se contemporaneamente que com a medicina em grande parte socializada, seja pública ou privada, com o profissional de saúde habitualmente mal renumerado (e, por vezes, até não dispondo de tempo e espaço afetivo para dedicar-se seriamente aos seus pacientes), torna-se irreal e irrealizável a expectativa de “perfeito bem-estar” da OMS.
 
Aliás, o relacionamento profissional de saúde-paciente, é sabidamente, parceria entre duas pessoas, onde uma delas detém o conhecimento técnico científico, que põe à disposição da outra, que o aceitará, ou não,, contrariamente ao que pensam muitos médicos que percebem esse relacionamento como uma subjugação,, suspendendo-o, diante de dúvidas, críticas ou desobediências do paciente, também aqui, a escolha do termo foi proposital, visando à ênfase na forma de percepção desses profissionais.
 
É nessas condições, de pleno exercício da autonomia de duas pessoas, que o tratamento sói ter sucesso, a menos que uma delas o paciente renuncie à sua própria autonomia, optando pela sujeição a uma postura mais paternalista do profissional de saúde, o que é frequente, dada a condição de regressão que o mal-estar habitualmente produz no cliente.
 
Tal fenômeno que em psicanálise é chamado transferência, pode levar o paciente a conceder ao médico um lugar de poder absoluto, em uma autêntica substituição da figura onipotente do pai imaginário de criança pequena.
 
Reconhecer-se no lugar transferencial pressupõe certa sensibilidade do profissional. E, usar tal lugar para o exercício do poder, no entanto, já implica uma ação a ser pensada e discutida no plano da ética.
 
Acredita-se de ter esclarecido, a inadequação de ainda se fazer distinção, mormente num conceito da OMS, entre o aspecto físico, mental e social.
 
A estreita unilateralidade da definição da OMS ainda traz a discussão sobre o conceito de qualidade de vida. Que dentro da Bioética entende-se ser conceito intrínseco, só possível de ser auferido pelo próprio sujeito.
 
Portanto, prioriza-se a subjetividade, sendo a realidade de cada um. Conclui-se que os rótulos de “boa ou má” qualidade de vida, ainda na acepção de saúde pública, principalmente para elaboração de políticas públicas que necessita de indicadores. De forma que são imprescindíveis as estatísticas de taxa de mortalidade pelas várias doenças. E, ainda apontar quais as doenças, se são endêmicas ou não.
 
Indispensável, igualmente, é perceber que o conceito de doença não é um dado estatístico, principalmente considerando doentes físicos, mentais ou sociais e todos os que se situarem fora do âmbito da chamada “normalidade”.
 
Doença é condição particular anormal que afeta negativamente o organismo e a estrutura ou a função de parte ou de todo um organismo e, que não é causada por um trauma físico externo. O Ministério da Saúde traz simplificado conceito de doença, colocando-a como uma alteração ou desvio do estado de equilíbrio de um indivíduo com o meio ambiente (MS, 1987).
 
O médico e filósofo Canguilhem em sua tese de doutorado discorreu sobre o normal e o patológico, afirmou que a doença não é variação da dimensão da saúde, é uma nova dimensão da vida.
 
De acordo com alguns estudiosos, a doença pode ser encarada como um fator externo ao equilíbrio normal do organismo, resultado de uma reação saudável de defesa ou até mesmo de adaptação do indivíduo às condições novas e diferentes.
 
Portanto, é bastante difícil designar se uma pessoa está saudável ou doente se levarmos em consideração o normal saudável ou doente se levarmos em consideração o normal e anormal, uma vez que estes são adjetivos um tanto subjetivos e, por vezes, nos faltam parâmetros comparativos de normalidade.
 
Historicamente, doença, patologia e anormalidade representam um único estado, enquanto a terminologia normalidade significa saúde.
 
Uma vez diferenciados os conceitos sobre saúde e doença e para relacionarmos aos preceitos de Epidemiologia precisamos entender o processo saúde-doença associadamente, incluindo todos os fatores extrínsecos e intrínsecos entremeados neste processo. Passamos a analisar a partir de agora a história natural das doenças nas populações.
 
Na Antiguidade Clássica, Galeno[10] estabeleceu a teoria das latitudes de saúde, que se divide em saúde, estado neutro e má-saúde.  Estas dimensões podem ocorrer isoladamente ou em combinação de uma com as outras. Assim, nove combinações são possíveis. Este esquema foi utilizado por mais de mil anos na medicina ocidental.
 
Na Idade Média, as causas das doenças retornam ao caráter religioso. No entanto, no final desse período, com as crescentes epidemias, retoma-se a ideia de contágio entre os homens, sendo as causas a conjugação dos astros, o envenenamento das águas pelos leprosos, judeus ou por bruxarias.
 
Ainda, no Renascimento, os estudos empíricos originam a formação das ciências básicas e com isto surge a necessidade de descobrir a origem das matérias que causavam os contágios. Assim, surge a teoria miasmática.
 
Frise-se que a saúde e a doença na cultura ocidental apresentam diferentes realidades. O conhecimento sobre o corpo é fragmentado, com perspectivas teóricas redutoras do conhecimento biológico, psíquico e social. Nesse sentido, o conceito moderno de doença compreende a análise estrutural da matéria/ corpo, fundamentada na anatomopatologia.
 
Em resumo, o pensamento científico na Idade Moderna tende à redução, à objetividade e à fragmentação do conhecimento, traduzindo os acontecimentos por meio de formas abstratas, demonstráveis e calculáveis.
 
Na presente contemporaneidade vige a imensa complexidade sobre a definição científica de doença, na tentativa de explicar a realidade ou sistema vivos através de modelos que procuram não apenas integrar as partes, descrever elementos de objetos, sobretudo, levam em conta as relações estabelecidas entre os mesmos.
 
Do fim do século XVIII ao início do século XX, a medicina social foi capaz de criar as condições de salubridade adequadas à nova sociedade, e de abrir espaço para que a prática médica individual viesse gradativamente a ocupar o lugar central nas práticas de saúde.
 
No século XIX, aparece a bacteriologia e a concepção de que para cada doença há um agente etiológico que poderia ser combatido com produtos químicos ou vacinas.
 
No entanto, a saúde e a doença envolvem dimensões subjetivas e não apenas biologicamente científicas e objetivas, e a normatividade que define o normal e o patológico varia. As variações das doenças podem ser verificadas historicamente, em relação ao seu aparecimento e desaparecimento, aumento ou diminuição de sua frequência, da menor ou maior importância que adquirem em variadas formas de organização social.
 
Torna-se necessário o redimensionamento dos limites da ciência, ampliando a sua interação com outras formas de se apreender a realidade, e é preciso inovar na forma de se utilizar a racionalidade científica para explicar a realidade, e principalmente para agir. (In: BACKES, Marli Terezinha; DA ROSA, Luciana Martins; FERNANDES, Gisele Cristina Manfrini; BECKER, Sandra Greice; MEIRELLES, Betina Hörner Schlindwein; DOS SANTOS, Sílvia Maria de Azevedo dos Santos. Conceitos de Saúde e Doença ao Longo da História Sob o Olhar Epidemiológico e Antropológico. Disponível em: http://www.facenf.uerj.br/v17n1/v17n1a21.pdf Acesso em 18.02.2020).
 
O ser humano possui a capacidade de reagir aos agentes agressores, mantendo a homeostase. Assim, o conceito de saúde envolve a reação aos estímulos externos de modo favorável que, ao agirem sobre os seres vivos, abrangem aspectos físicos, psicológicos e sociais, de maneira interdependente.
 
Entretanto, na abordagem contemporânea sobre o adoecer, ainda há o predomínio da dimensão biológica em detrimento das dimensões psíquicas e sociais, provocando uma redução na configuração do campo da saúde.
 
Embora haja o reconhecimento de que os aspectos psíquicos e sociais, o meio ambiente e o estilo de vida contribuam na origem das doenças, ainda se conhece pouco sobre a relação entre esses fatores ou eventos e a doença, que são avaliadas por meio de estudos epidemiológicos de risco.
 
O conceito epidemiológico de risco é alvo de constantes críticas posto que baseado em questionamentos que abarcam valores e significados relacionados a certos hábitos e comportamentos considerados como de risco e de agravos à saúde.
 
De sorte que é necessário ampliar a compreensão dos limites desses conceitos, com o fito de aperfeiçoar os métodos, criar novos conceitos que possam ser usados de forma mais adequada e integrada com o fim de estruturar as práticas de saúda na perspectiva da promoção de melhor qualidade de vida.
 
Ademais, devem os profissionais da saúde superar o modelo biomédico de assistência à saúde, apenas centrado na doença e voltado para o diagnóstico e a terapêutica, o tecnicismo e as relações impessoais e, ainda, investir nesse novo modelo de atenção, focalizado na promoção da saúde, considerando todas as dimensões do ser humano, a saber, a biológica, a psicológica, a social, a cultural e a histórica, e com atenção a diversidade cultural de nosso país, buscando um aperfeiçoamento[11] contínuo e progressivo na qualidade  da assistência à saúde dos indivíduos respeitando as suas singularidades e particularidades.
 
 
Referências:
BACKES, Marli Terezinha; DA ROSA, Luciana Martins; FERNANDES, Gisele Cristina Manfrini; BECKER, Sandra Greice; MEIRELLES, Betina Hörner Schlindwein; DOS SANTOS, Sílvia Maria de Azevedo dos Santos. Conceitos de Saúde e Doença ao Longo da História Sob o Olhar Epidemiológico e Antropológico. Disponível em: http://www.facenf.uerj.br/v17n1/v17n1a21.pdf Acesso em 18.02.2020).
BERGSON, H. As duas fontes da religião e da moral. (1932). São Paulo: Abril Cultural, 1979. Coleção Os Pensadores.
CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico. 4a ed. ampliada. Rio de Janeiro: Forense Universitária; 1995.
CASTIEL, LD. O buraco e o avestruz: a singularidade do adoecer humano. São Paulo: Papirus; 1994.
CASTORIADIS, C. L’institution imaginaire de la Société. Paris: Seuil, 1975.
DONNANGELO, Cecília. Saúde e sociedade. São Paulo: Duas Cidades, 1979.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução: Giachini, Enio Paulo. Petrópolis: Vozes, 2017.
KANT, Immanuel (1724-1804). Crítica da razão prática Tradução de Monique Hulshof. Petrópolis, RJ: Vozes.
Bragança Paulista, SP: Editora Universitária São Francisco, 2017. (Coleção Pensamento Humano).
SEGRE, Marco; FERRAZ, Flávio Carvalho. O conceito de saúde. Disponível em: www.scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89101997000600016 Acesso em 10.02.2020.
SPINOZA, B. Obra Completa III. Tradutor Romano, Roberto, Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2014.
FOUCAULT, Michel. História da loucura. São Paulo: Perspectiva, 1972.
FREUD, Sigmund. Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna (1908). Rio de Janeiro: Imago, 1980.
___________________. O mal-estar da civilização (1930) Rio de Janeiro: Imago, 1990.
LANGDON, EJ. A doença como experiência: a construção da doença e seu desafio para a prática médica. Revista Antropologia em Primeira Mão. 1995.
LUNARDI, Valéria Lerch. Problematizando Conceitos de Saúde, a partir do tema da governabilidade dos sujeitos. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/RevistaGauchadeEnfermagem/article/download/4219/2229. Acesso em 18.02.2020.
World Health Organization. Carta de Ottawa. In: Ministério da Saúde (Br). Promoção da saúde: Cartas de Ottawa, Adelaide, Sundsvall e Santa Fé de Bogotá. Brasília (DF): Ministério da Saúde/FIOCRUZ; 1986.
 
[1] O conceito de saúde não é apenas a ausência de doença ou enfermidade. Sendo assunto muito ligado às próprias pessoais, alheia a qualquer padronização ou determinação fixa pré-estabelecida. A crítica mais incisiva ao conceito fornecido pela OMS foi feita por Dejours que focalizou a dificuldade em se definir "o estado de bem-estar".
Ademais o eminente caráter mutável, móvel e subjetivo atribuído ao conceito de bem-estar reafirma uma intensa subjetividade. Em 1986, surgiu o conceito de saúde na Conferência Nacional da Saúde (CNS) em que a saúde resultaria, dentre outras, de condições de alimentação, moradia, educação, lazer, transporte e emprego e, das formas de organização social de produção, constata que, além de se dar a superação da tradição higienista e curativa pela determinação social da doença.
Assim, a saúde situa-se no âmbito superestrutural, resultante de uma base socioeconômica.
 
[2] Henri Bergson (1859-1941) foi filósofo e diplomata francês, laureado com o Nobel de Literatura de 1927. Conhecido particularmente por "Ensaios sobre os dados imediatos da consciência", "Matéria e Memória", "A evolução criadora e As duas fontes da moral e da religião", sua obra é de grande atualidade e tem sido estudada por diferentes disciplinas, desde de cinema até bioética. A filosofia de Bergson é a princípio uma negação, isto é, uma crítica às formas de determinismo e “coisificação” do homem. 

Em outras palavras, a sua pesquisa filosófica é uma afirmação da liberdade humana frente as vertentes científicas e filosóficas que querem reduzir a dimensão espiritual do homem a leis previsíveis e manipuláveis, análogas as leis naturais, biológicas e, como imaginou Comte. Seu pensamento está fundamentado na afirmação da possibilidade do real ser compreendido pelo homem por meio da intuição da duração – conceitos que perpassam toda sua bibliografia. O próprio filósofo chegou a dizer que para compreender a sua filosofia é preciso partir da intuição da duração.
 
[3] Baruch Spinoza (1632-1677) considerado como um dos grandes racionalistas e filósofos do século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna, juntamente com René Descartes e Gottfried Leibniz. Também considerado o fundador da crítica bíblica moderna. A potência de suas obras o fez reconhecido ainda em vida, tendo recebido cartas de figuras proeminentes tal como Henry Oldenburg, da Royal Society; do inventor Ehrenfried Walther von Tschirmhaus. do cientista holandês Huygens; de Leibnitz, do médico Louis Meyer, de Haia e do rico mercador De Vries, de Amsterdã. Luís XIV lhe ofereceu uma expressiva pensão para que o filósofo lhe dedicasse um livro, mas o filósofo recusou polidamente.
 
[4] Bertrand Arthur Russell, Terceiro Conde Russell. (1872-1970) foi um dos mais influentes matemáticos, filósofos e lógicos que viveram no século XX. Considerado um liberal, socialista e pacifista. Também admitiu que nunca fora nenhuma desses adjetivos em sentido profundo. Sendo um popularizador da filosofia, fora respeitado por inúmeras pessoas como espécie de profeta da vida racional e da criatividade. A sua postura sobre vários temas fora controvertida. Da volumosa obra de Russell, destacam-se o seu livro de 1903, The Principles of Mathematics (que consiste numa apresentação informal do projeto logicista de Russell); o clássico ensaio de 1905 On Denoting (em que Russell apresenta pela primeira vez ao público sua teoria das descrições definidas), considerado um dos paradigmas da história da filosofia; o livro em três volumes, em coautoria com o Whitehead, publicados entre 1910 e 1913, intitulado Principia Mathematica (a segunda edição, de 1925, contem importantes modificações no projeto logicista de Russell-Whitehead); o seu artigo de 1910-11,"Knowledge by Acquaintance and Knowledge by Description"; e as conferências proferidas no inverno de 1917-18, reunidas sob o título The Philosophy of Logical Atomism.  “Man is part of Nature, not something contrasted with Nature” (Bertrand Russel, 1925. What I Believe).
 
[5] Cornelius Castoriádis (1922-1997) foi filósofo, economista e psicanalista francês, de origem grega e defensor do conceito de autonomia política. Considerado um dos maiores expoentes da filosofia francesa do século XX. Em 1949 fundou junto com Claude Lefort, o grupo Socialismo ou barbárie que deu origem à revista homônima e que circulou regularmente até 1965. É considerado um filósofo da autonomia e, entre as inúmeras obras destacam-se: Instituição Imaginária da Sociedade, Encruzilhadas do Labirinto, Socialismo ou Barbárie.
 
[6] Étienne de La Boétie (1530-1563) foi humanista e filósofo francês, contemporâneo e amigo de Michel Montaigne (este que em seu ensaio "Sobre a Amizade" fez explícita homenagem ao La Boétie. Deixou em testamento seus escritos a Montaigne, o qual mais tarde, destacou os méritos nos Ensaios e, em várias cartas, apontando o filósofo como importante homem daquele século.
A sua obra mais famosa é seu "Discurso da Servidão Voluntária", escrita no século XVI, depois da derrota do povo francês contra o exército e fiscais do rei, que estabeleceram um novo imposto sobre o sal.
A obra se mostra como uma espécie de hino à liberdade, com questionamentos sobre as causas da dominação de muitos por poucos, da indignação da opressão e das formas como vencê-las.  Já no título aparece a contradição do termo servidão voluntária, pois como se pode servir de forma voluntária, isto é, sacrificando a própria liberdade de espontânea vontade? Na obra, o autor pergunta-se sobre a possibilidade de cidades inteiras submeterem-se a vontade de um só. De onde um só tira o poder para controlar todos? Isso só poderia acontecer mediante uma espécie de servidão voluntária. 
Ele afirma então que são os próprios homens que se fazem dominar, pois, caso quisessem sua liberdade de volta, precisariam apenas de se rebelar para consegui-la. Étienne afirma que é possível resistir à opressão, e ainda por cima sem recorrer à violência - segundo ele a tirania se destrói sozinha quando os indivíduos se recusam a consentir com sua própria escravidão.
Como a autoridade constrói seu poder principalmente com a obediência consentida dos oprimidos, uma estratégia de resistência sem violência é possível, organizando coletivamente a recusa de obedecer ou colaborar.
 
[7] Julián Marias Aguilera (1914-2005) foi filósofo espanhol, considerado o principal discípulo de José Ortega Y Gasset. Foi diretor do Semanário de Estudos de Humanidades, membro da Real Academia Espanhola e da Real Academia de Belas-Artes e Doutor Honoris Causa em Teologia pela Universidade Pontifícia de Salamanca. Em 1969 publicou o livro Antropologia Metafisica, que marcou um novo nível no desenvolvimento de sua filosofia. A obra de Julián Marias é extensa e tem como temas principais a filosofia vista a partir de uma perspectiva pessoal e biográfica, a pessoa humana, a história, sociologia e a literatura.
 
[8] É uma obra curta e tratou de forma precisa e concisa de transmitir para o público leitor o aspecto tenebroso da valorização de indivíduos inquietos e hiperativos que se arrastam no cotidiano produtivo, realizando múltiplas tarefas. o sul-coreano Byung-Chul Han, professor de filosofia e estudos culturais da Universidade de Berlim, parte de uma constatação relativamente comum para o problema das relações entre sociedade e sofrimento psíquico: cada época tem suas enfermidades:  1 .Dado que os sofrimentos psíquicos são compreendidos nos dias atuais sobretudo como desvios neuroquímicos, para o autor do livro em tela nossa época se configura como uma “violência neuronal”.
Não obstante a expressão, sua explicação passa ao largo de aspectos fisiológicos do sistema nervoso: sofrimentos psíquicos como síndrome de Burnout, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e depressão são apreendidos pelo autor em sua relação direta com o modo operatório do capitalismo contemporâneo.
 
[9] Um novo vírus que ataca o sistema respiratório e se espalhou a partir da região de Wuhan, na China, foi classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como emergência internacional. Ele pertence à família dos coronavírus, um grupo que reúne desde agentes infecciosos que provocam sintomas de resfriado até outros com manifestações mais graves, como os causadores da Sars (sigla em inglês para Síndrome Respiratória Aguda Grave) e da Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio).

No Brasil, o Ministério da Saúde monitora 4 casos suspeitos até o momento. O órgão orienta que viagens para a China só devem ser realizadas em casos de extrema necessidade.... - Disponível em https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2020/01/25/tire-suas-principais-duvidas-sobre-o coronavirus-que-se-  A transmissão dos coronavírus costuma ocorrer pelo ar ou por contato pessoal com secreções contaminadas tais como: gotículas de saliva, espirro, tosse, catarro, contato pessoal próximo, como toque ou aperto de mão, contato com objetos ou superfícies contaminadas, seguido de contato com a boca, nariz ou olhos.
 
[10] Galeno estabeleceu a teoria das latitudes de saúde, que se divide em saúde, estado neutro e má-saúde, cujas dimensões podem ocorrer isoladamente ou em combinação de umas com as outras. Esse esquema foi utilizado por mais de mil anos na medicina ocidental.
Cláudio Galeno ou Élio Galeno, (Pérgamo, c. 129 – provavelmente Sicília, a.C. 217), mais conhecido como Galeno de Pérgamo foi um proeminente médico e filósofo romano de origem grega e provavelmente o mais talentoso médico investigativo do período romano. Suas teorias dominaram e influenciaram a ciência médica ocidental por mais de um milênio.
Seus relatos de anatomia médica eram baseados em macacos, visto que a dissecação humana não era permitida no seu tempo, mas foram insuperáveis até a descrição impressa e ilustrações de dissecções humanas por Andreas Vesalius em 1543. Desta forma Galeno é também um precursor da prática da vivissecção e experimentação com animais. A maioria de suas obras e seus estudos se perderam. Sabe se, contudo, que Galeno investigou anatomia, fisiologia, patologia, sintomatologia e terapêutica.
Foi o mais destacado médico de seu tempo e o primeiro que conduziu pesquisas fisiológicas. Galeno fez muitas importantes descobertas, como distinguir as veias das artérias, o sangue venoso do arterial, propor pela primeira vez que o  corpo fosse controlado pelo Cérebro, dando a distinção entre nervos sensoriais e motores, descobrindo que os rins processam a urina e demonstrando  que a laringe é responsável pela voz.

A descrição feita por Galeno das atividades do coração, artérias e veias durou até que William Harvey estabelecesse que o sangue circula com o coração agindo como uma bomba em 1628. No século XIX, os estudantes de medicina ainda liam Galeno para aprender alguns conceitos.
Galeno desenvolveu muitas experiências com ligações nervosas que apoiaram a teoria, ainda aceita hoje, de que o cérebro controla todos os movimentos dos músculos por meio do crânio e do sistema nervoso periférico.
Por volta de 170, Galeno realizou uma experiência que iria mudar o curso da medicina: demonstrou pela primeira vez que as artérias conduzem sangue e não ar, como até então se acreditava. No campo da anatomia, Galeno distinguiu ainda os ossos com e sem cavidade medular. Descreveu a caixa craniana e o sistema muscular.
Pesquisou os nervos do crânio e reconheceu os raquidianos, os cervicais, os recorrentes e uma parte do sistema simpático. Galeno também foi o primeiro a demonstrar (baseado em experiências) que o rim é um órgão excretor de urina. Farmacologia também interessava Galeno.
 
[11] Endemia é qualquer doença localizada em espaço limitado, que é denominada de faixa endêmica. A doença só se manifesta em certa região, de causa local, não atingindo e nem se espalhando para outras comunidades.
Enquanto que a epidemia é passível de se espalhar por outras localidades. Já a endemia tem duração contínua, porém, restrito a certa área. Em nosso país, infelizmente, existem áreas endêmicas. A título de exemplo, cita-se a febre amarela que é muito comum na Amazônia. A dengue é outro exemplo de endemia, pois são observados focos da doença em um espaço limitado.

A epidemia é doença infecciona e transmissível que ocorre numa comunidade ou região e, ainda, pode se espalhar para outras regiões, gerando o chamado surto endêmico. A pandemia é uma epidemia que ganha grandes proporções, podendo se espalhar por um ou mais continentes ou por todo o mundo, causando inúmeras mortes ou destruição de cidades e até regiões.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a pandemia pode se iniciar com o aparecimento de uma nova doença à população, quando o agente infecta os humanos, causando doença séria ou quando o agente esparrama facilmente e sustentavelmente entre humanos.
GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 25/03/2020
Reeditado em 25/03/2020
Código do texto: T6896977
Classificação de conteúdo: seguro

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