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Os chá de erva

Tarde!
Adescurpe as demora, mas é que esses dia eu andei meio perrêngue. Deu umas dor nos quarto que entrevô tudo. Coisa de véio!  Mas agora tá começâno a sumí e já tô de vórta pras nossa prosa.
Isso é duas coisa que véio sabe fazê muito bem: ficá desandado com as doença e escangaiá o tempo nas prosa. E eu pelo jeito vô bem nas duas.
Ôtro dia amanheci entrevado. Parecia que tava com a espinhela caída. Fiquei assim uns bão duns trêis dia. Aquela dorzinha vinha zuâno fininho, fininho e depois esparramava que vinha lá dos carcanhá até os cucuruto. O que sarvô foi os chá de erva... Ê trem bão! Num há dor forçuda que reséste.
A única vêiz que vi que as erva num déro muito jeito, foi no finado cumpadi Zé da Mula.
É verdade... foi uma judiação.
O Zé era um cabôco muito ajeitado. Firme. Vivia curcuviâno esses morro tudo com a mulinha dele. Num tinha tempo feio com ele não. Chuva braba, sorzão de rachá. Podia fazê quarqué tempo, tava ele lá com a mulinha.
Diz que o trabáio dele era procurá gado fugido. Isso eu num sei, porque eu nunca vi ele achá nenhum. E se achô, é capaiz de de tê sido a vaca que achô ele, de tanto que a bicharada gostava dele.
Tinha um capricho com as vaquinha que parecia que elas entendia certinho tudo que ele falava.
Diz que uma vêiz ele achô uma lá nas baixada, perto do brejão. Por pôco a vaca num tinha ido pro brejo. Ela tava meio sem sabê os caminho de vórta. Ficava só nos berro, que nem que chamâno ele.
Num deu ôtra, o danado escoitô de longe. Parecia até que sabia das pissicossologia das bichôna. Diz que só fêiz um sinár assim pra ela, de longe, e a bichôna deu uma vorta lá no pé do morro e se achegô até onde ele tava, bem de mansinho. Deu aquela oiadôna pra ele, umas lambida nos beiço que nem que se tivesse dano uns bejinho no Zé. E assim eles se entendia.
Com muié o danado era um fracasso. O povo falava que ele havéra de casá com uma vaca que ia dá mais certo. Mas com muié era um tropeço. As pôca vêiz que andô se enrabichâno pro lado da Rosarva, coitado, ficô sozinho. Ela se ajeitô com um outro, um cabôco desses viajante, faladô, que sumiu mais ela nesse mundão. Até hoje ninguém dá notíça deles.
Daí o Zé achô que num havéra de tê mais querênça e só quis sabê das mimosa.
O povo as vêiz fazia umas mardade com ele. Vê se pode, coitado! Que Deus o tenha!
Pois é, as vêiz o povo falava que era por causo de que ele levô um par de chifre que as vaquinha ficâro tudo doida por causo dele. Mais o Zé, num se importava ou se importava ninguém percebia.
Pois é... mas o causo que eu tava querêno contá era dos apuro que ele passô, que num teve esse remedinho que deu jeito. Nem as erva.
Ele já lá ia berâno ai uns trinta e poucos ano e teve um dia que foi segurá um novío, desses marrudo, que tava fazêno estrago nas cerca, e na hora da puxada diz que sentiu um créqui nas espinha, e que do jeito que tava ficô. Nunca mais conseguiu desempená.
Os trem começô aí. Depois disso, aquele Zé que nóis tudo conhecia deixô de sê o mesmo. Destampô a toda hora aparecê uns negóço diferente. Um dia nos braço, outros dia nas perna, depois nas carcunda. E a coisa lá foi tomâno conta do hôme.
A Dona Celinha, a muié do Tunico Cipó, que morava pertinho dele, levava todo santo dia uns chá de erva, pra vê se o hôme se endireitava. Mas nada, sô! Cada dia pior.
A Dona Celinha diz que desconfia de que ele tava era querêno isso mesmo. Que devia de tê perdido amor pela vida, por que toda vêiz que chegava na casa dele o hôme só desandava numa falação que já tava era ficâno véio... essas coisa!
Um dia, vêno que o hôme tava nas pior, chamáro o Quinzinho da farmáça que oiô pro Zé e num teve jeito. Tratô de arranjá pra levá pros hospitár de Posalegre que o bicho nem se mexia direito. Só de vêiz enquando sortava uns gemidinho lá do fundo.
Quando puséro ele no carro pra levá, tava que nem aquela garça que um deputado mandô pro seu prefeito. A coitada veio lá dos amazona até aqui, drento duma cáxa de sapato. Quando sortáro a bichinha ela só conseguia andá toda encoída. Nunca mais alevantô.
O povo tudo aqui ficô assim meio com dó do Zé, por causo das judiação dos negóço dos chifre, e ficava tudo querêno acompanhá os acontecido com o hôme. Toda vêiz que ia um lá pros Posalegre, era de encomenda dá uma passadinha no hospitár pra tomá conhecimento das coisa e depois espaiá.
Isso durô umas duas semana, quando, de repente, o hôme aparece novinho em fôia. Todo sartitante.
O povo queria sabê o que tinha acontecido com ele, mas ele falava que a coisa era muito compricada. Que só mesmo os médico de Posalegre que podia de dá jeito. Que a doença dele tinha uns nome estranho e que ele num sabia falá direito.
Aquilo foi um desespero. Veja só! Todo mundo aqui nas maior procupação com o danado, e agora ele nem fala o quê que foi!
Tinha uns que falava que era ponomonia drupa. Ôtros que era simpres. Teve umas cumadi que andáro falâno que era é milagre mesmo, porque do jeito que ele saiu daqui, era pra encomendá a arma do coitado e agarráro nas reza lá com Santa Rita.
Mas foi só um tempinho antes dele morrê que descobríro a verdade: o que ele teve mesmo foi um daqueles morroidão de virá dos avesso. O tráia num deu nem um pio.
E óia! Foi aí que eu vi que pra essas coisa nem as erva funciona.
Do que que ele morreu?
Óia... isso eu num sei não...
Chico Da Mona
Enviado por Chico Da Mona em 23/08/2007
Código do texto: T620907
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Sobre o autor
Chico Da Mona
Goiânia - Goiás - Brasil, 62 anos
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