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Lagoa da onça

Resumo: História do desbravamento do sul do antigo Mato Grosso – hoje Mato Grosso do Sul – Como diz Almir Sater – É uma história de “casos e onças”.
 

Vale do Ivinhema era quase um mar de árvores quando a família de Seu João Elias chegou de mudança. Era o mês de julho. O frio era intenso. As árvores impediam o “vento sul” como dizem os sul-mato-grossense, por causa das muitas sombras. A bicharada completava o Éden. Tinha de tudo: tatus, capivaras, quatis, tamanduás, veados, cobras das mais diversas e as famosas onças pintadas, temidas de todos, dos animais irracionais e do ser humano, que, aliás, não se sabe quem deveria temer quem.
Dona Maria, esposa de Seu João, chorava dia e noite porque deixou a comodidade do Paraná, uma casa na cidade, a proximidade da escola para os filhos, onde a mais velha, com oito anos, era a única que estudava, mas, e quando chegasse a vez dos demais estudarem?
A casa era feita de constaneira , cheia de brechas, pelo menos coberta de telhas francesas, mas o piso era de chão batido. A água vinha de um poço, que só saia dali tirada de balde puxada por um sarilho  sem rolamentos, ampliando assim o peso da água.
O pior ainda estava para se ouvir. Seu João comprara a propriedade próxima da famosa Lagoa da Onça. O nome era bem sugestivo, uma vez que Seu Júlio da Lagoa vira várias vezes algumas pintadas tomando água ali. Quando ia à casa do velho paulista, Juca olhava assustado o couro da baita  ornamentando a parede, que, aliás, expunha crânios de outros animais como troféus. Ali, Juca aprendia sozinho que o homem era o grande predador.
Ninguém se arriscava  sair  sozinho  à  noite, ou  mesmo com o clarão do dia. Á noite, se ouvia ao longe o esturrar dos touros. Segundo os mais entendidos, a onça estava rodeando as manadas. Uns abriam a janela, colocavam o cano da cartucheira e davam tiros para o alto para assustar a bicha; outros usavam fogos de artifícios, que também era utilizado para espantar os pássaros-pretos dos arrozais, depois disso não se ouvia mais o touro esturrar, a pintada fugira; alguns recolhiam o gado em uma manga  próxima da casa e alguns sertanejos guardavam o gado em uma espécie barracão, onde serviam cana e anapiê , facilitando, assim, a ordenha no outro dia.
Juca gostava muito de ouvir o canto do bacurau , primeiro porque era um sinal que a onça estava longe, segundo porque lhe parecia melodioso. Seu Zé Alagoano, peão da propriedade de Seu João, preferia chamar o tal pássaro de joão-que-corta-pau, uma espécie de nome onomatopaico por causa do canto da ave. Não era apenas este pássaro que enchia de melodia os ouvidos dos moradores: as mãe-da-luas , as corujas, os socós-boi, os urutaus, os bem-te-vis, araras vermelhas e azuis, maritacas, periquitos etc., pareciam se revezar, uns de dia e outros à noite.
Seu Zé Preto, negro velho que conhecia de tudo sobre a floresta, era o contador de histórias da região. Era maravilhoso ouvi-lo. Com o dedo indicador direito empurrava o chapéu um pouco para trás e levava um pé à frente e outro atrás; Seu João balançava a cabeça, sabia que as hipérboles do nego  véio  iriam  começar.  Seu  gingado  afro  era singular e fazia a história ficar mais  bela  e   original. As  crias  de   Seu  João   ficavam   boquiabertas.  Somente   a   Dú   -   assim  era chamada  a  Vanúzia,  a  caçula   –  que  sempre   estava  mais
atenta  e  curiosa  na  cor azulada da negritude do velho contador de histórias, passava o dedinho fura-bolo no braço do negro e verificava se tinha saído tinta.
Certo dia, Juca viu Seu Zé Preto passando na estrada, indo para casa, depois de um dia de labuta, pede a ele:
__ Seu Zé, conta uma história pra nós?
__ Nego véio vai no barraco dá uma lavada i cumê um zóião  cum arrois i já vorta!
Juca chama todos os irmãos e as crianças vizinhas, mas os mais velhos, com o pretexto de trazer os filhos, também se preparam para ouvir mais uma das histórias daquele que era considerado não apenas um velho amigo, mas também um artista. Seu João pegava umas galhadas secas e fazia uma fogueira; Dona Maria debulhava o milho pipoca, abanava, esquentava o leite para fazer um chocolate quente. Colocam-se várias cadeiras, tamboretes , bancos de madeira, algumas toras para a turma se sentar. Veio Seu Júlio, Seu Zé Pereira, João Cordeiro, Seu Benedito com Dona Zefinha, até Seu Domingo Vendrame e Dona Ana que nem tinham mais filhos pequenos. Tudo estava pronto, só faltava a figura ilustre de Seu Zé Preto.
O papo começava a rolar quando o negro bonachão chegou. Mancando, porque, segundo ele, pisara em uns espinhos de juá bravo  e meio corcunda por causa do peso da idade. Senta-se um pouco ofegante, mas como sabia que as pessoas dormiam cedo, levantou-se de imediato, colocando as mãos  nas cadeiras, lança o seu pigarro de sempre, leva um pé a frente – todos  sabiam  que era  o momento  de  começar por causa do trejeito de sempre – olha bem nos olhos de todos da roda. Sentia-se uma estrela, todos olhando para ele. A história não podia ter outro ser central a não ser uma onça. O herói? Era ele mesmo. Uma espécie de épica narrada em primeira pessoa.
“__ Fui inconvidado pela Sinhá Rosa para campiá suas terras pruquê uns tar di grilerus andava invadindo os sítio, as fazenda, e os dono só ficavam com os papéli. Pra mim papéli num servi di nada. Quem dá a farinha pru Preto Véio aqui é a terra, quem dá os mio pras galinha i prus porcos cumê é a terra, papéli num dá nada pra niguém, não sinhô...!”
O Preto Velho saía de sua posição estática e começava o bom da história. Começou a andar olhando nos rostos das pessoas, a princípio num silêncio assustador, parecendo que seus olhos iriam saltar fora, depois rompe a quietude:
“__Bem!... Vancês num vão acreditá, mais eu conto assim mesmo!”
Um dia tava andando sem assuntá nada da vida, meio desacorçoado pruquê gastei minhas munição i num cunsigui matá foi nada. Acho que os óio do nego véio num tão qui nem antes. Continuando, eu tava numa vereda no meio da mata; senti uma catinga meio esquisita, mi deu um arripiu, pruquê já tinha sintido aquela inhaca  antes. Um gaio de arve tava na frente, dispois qui passei u gaio vi a bitela . Era uma pintada das grande. Senti um arripiu ainda maió quando lembrei qui num tinha mais munição, i qui num tava cum minha pexera . Corrê num dava, pruquê a bicha pudia corrê também atrais di mim.  E entonces seus mininos, vi que o cabo  da bicha estava  passando  pru  baixo  duma  raiz  que  tava  erguida du chão. Pra  minha felicidade  ela tava  discosta,  sentadinha, i u vento tava soprando dela pra mim i não de mim pra ela, sinão eu num tava aqui pra contá a história pro’ceis. Pensei im  tudo i num achei otra saída a num sê pulá nu cabo da baita. O susto da onça foi grande, só que eu pulei firmi, ela puxava pra frente i eu  pra trais, ela pra  frente i  eu pra  trais, foi um vai i vem doido por uns bons bucado de tempo, i a chanona urrava di dor, até que não cunsigui mais i sortei. A bicha enveredou nu mato i eu caí sentado, quase mortu di infadu i di medo. Quando consigui arrespirá mais calmo, vi u sangui i us pelus qui ficou da baita lá na raiz. Bem, fui imbora meio cum medo, mas cheguei em casa tranqüilo i cum mais uma história pra contá pro’ceis. Dispois disso já vi otras pintadas i pardas, mais agora eu só óio pra elas e digo: O! Dona onça, vamu? - faço aquele movimento pra frenti i pra trais como si tivessi com um cabo de onça nas mão e as baita caem na quiçaça .”
O Negro Velho ainda olha para as crianças que estão ali de olhos arregalados e diz:
“— Pois é mulecada, nu dia qui ocêis verem uma onça, qui num tivé jeito di fugi, entonces é só fazê esse movimento, pra frenti i pra trais, chamando a onça, qui ela vai caí na marvaia , sabi pruquê? Aquela onça qui eu infrentei contó pra todas as otras”.
Todos aplaudiram o ilustre convidado. E Dona Maria começou a servir o chocolate com a pipoca, onde Seu Zé Preto pediu um café e disse que não comeria “popoca” , como dizia ele, porque tinha poucos dentes. A conversa continuou um pouco mais, e o contador de história foi embora. O papo começou a girar em torno do bom negro, e até Seu Júlio, que era  bom  caçador,  dizia  que  gostava  de  ouvir  as  histórias, porque    segundo   ele,   por  mais  que  fossem  mirabolantes, sempre elas se identificavam com as suas caçadas.
Outras histórias foram contadas: de suas  conversas com o saci-pererê, a surra que levou da caipora porque tinha matado uma jacutinga  que estava chocando, e tantas outras histórias que enchia os corações da criançada.
Os anos foram passando e as matas foram sendo derrubadas e Juca sempre torcia para que a mata que existia em frente a sua casa não fosse destruída como um todo, porque as motos-serra já haviam derrubado muitas das árvores dali. A orquestra da floresta estava enfraquecida e o urutau já não cantava por aquelas paragens. Os cafezais tomavam conta dos espigões e as geadas de 1975 vieram destruir o restante dos capões de mata, uma vez que as queimadas ficaram descontroladas. A desolação era uma só. Muitos animais mortos, principalmente os filhotes.
Para encurtar a história e ampliar a tristeza do Juca, Seu Zé Preto ficou doente. Dona Maria, mãe de Juca, dizia que o Preto Velho tinha doença ruim  – como se existisse alguma doença boa. O bom negro começou a viver de favores, uma vez que sua patroa só aparecia de tempos em tempos na propriedade. Seu Júlio – o da Lagoa da Onça - conseguiu uma carona para Seu Zé e ele foi para o Paraná se tratar e não voltou, porque morreria daí três meses, para deixar Juca emburrado por uns bons tempos.
Toda as matas ali foram derrubadas, inclusive aquela em frente à casa de Juca. Todo mato ao redor da Lagoa da Onça foi destruído, fazendo assoreá-la. Nem o sapo-cururu se ouve mais, porque já não existe lagoa. As onças desapareceram, porque os demais animais também escassearam.
Como  tudo  ficou tão  triste. Não  tem mais floresta, não tem mais animais, já não tem orquestra, nem de dia, nem à noite, também  não tem Lagoa  da Onça, apenas areia. Pior, já  não tem mais um preto véio para contar as histórias que alegravam os coraçõezinhos daquela colônia agora abandonada com suas casas como idosos  que não  conseguem mais se sustentar com suas próprias pernas. As histórias são outras. É bom pesar na balança os prós e os contras.  Valeu a pena a conquista?  Nesse caso, creio que não, porque as almas foram pequenas e o “mar” de floresta destruído, chamou o abismo e ofuscou os céus.



Aldair Lucas
Enviado por Aldair Lucas em 11/09/2007
Reeditado em 24/02/2009
Código do texto: T647533
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Sobre o autor
Aldair Lucas
Amambai - Mato Grosso do Sul - Brasil, 50 anos
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