Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

PROMESSA PRO SANTO ERRADO

- Promessa pro Santo Errado.-mdsenne

-Raimunda era órfã de pai e mãe. Moça bonita, morena e faceira,  morava na Mantiqueira, terra distante, isolada do mundo, bem mais pra frente de Cauipe e Caucaia. A vizinha mais próxima era a veia Sinhá, uma benzedeira que também vivia sozinha fazendo misturas de ervas para vender na feira de gado uma vez por mês. Para Raimunda conversar com a veia Sinhá, era um passeio de jumento que demorava meia hora. Ainda bem que o pai lhe deixou o jegue antes de morrer. O animal era seu transporte até para as procissões. Afinal, foi um jegue que carregou a família de Jesus pelo deserto fugindo do perigo. Era o único animal que agüentava bem a fome, a sede, e o peso das cargas no sertão. Mas o progresso foi chegando e uma estrada de terra batida estava se abrindo já chegando perto do barraco da Raimunda. Os plantadores de algodão expandiram suas sementes para aquelas bandas. Agora, assim que ela ouvia o trotar dos cavalos, botava uma flor no decote, corria para a janela para ver o movimento dos peões passando com o sol nascendo e voltando na hora da ave-maria.
-Durante a exploração da carnaúba e do algodão, os fazendeiros e pequenos plantadores juntaram as forças para enterrar suas sementes, adubar a terra, e ou colher juntos como se fosse uma cooperativa. Agora eles tinham mais um motivo de alegria na hora de ir para o trabalho: A visão daquela moça linda, com seus longos cabelos negros cacheados até a cintura banhados no óleo de coco, vestido de chita decotado, e o cheirinho de seu café tomando conta do ar do sertão. Ela sorria, gargalhava, e de vez em quando, convidava alguns peões para um cafezinho com tapioca feito por aquelas mãos mágicas. Os trabalhadores a respeitavam, pois era uma moça casadoira, mas não perdiam a oportunidade de tirar um dedo de prosa com ela. Comentavam entre eles que, uma beleza daquelas, solteira e novinha, continuava sendo muito direita, apesar de não ter pai, nem mãe, nem irmãos. Quando seus pais faleceram herdou aquela casinha e a criação cabras, ovelhas, galinhas, que dava para viver muito bem. Todos os solteiros das redondezas tornaram-se possíveis candidatos a se casar com ela. Mas a moça nem dava bola. Sorria, gargalhava, conversava como ninguém, e se despedia de todos dando adeusinho com as duas mãos e a gargalhada mais gostosa do mundo.
-Polis entrou no grupo participando dos lucros e prejuízos só da plantação de algodão. Estava acostumado a criar os filhos sem ajuda de ninguém, e não pensava em mulher nenhuma. Seu vício era o cigarro de palha, o fumo de rolo e o rapé. Apesar de tudo parecia que o tempo não passou para ele. Não envelheceu muito. Sua aparência era a mesma de anos atrás e continuava  trabalhador, simpático  e admirado por todos no sertão. Sentiu uma enorme tristeza quando despediu os últimos agricultores, pois suas terras estavam improdutivas de vez. Agradeceu a Deus porque seu afilhado Tião nascido e criado em suas terras decidiu ficar sem ganhar nada, só para não abandonar seu padrinho numa hora difícil. Tinha muito orgulho de se mesmo por ter passado poucas e boas e continuar um homem digno de respeito. Também não tinha medo de nada. De nada não! Só uma coisa fazia esse sertanejo se borrar todo: Alma de Outro Mundo. Por esta razão, não tirava do pescoço seu crucifixo de rubi encrustado no ouro dezoito que foi do pai, que foi do seu avô e tataravô e daí por diante. O crucifixo era bento por um bispo de antigamente, e quando ele herdou, seu pai lhe disse que aquele objeto caro era como um talismã que tinha o poder de defendê-lo de alma penada, bruxaria, mula sem cabeça, e até de lobisomem. Mas ele só precisava do crucifixo dia e noite por causa das almas do outro mundo, porque o resto, ele não tinha medo de nada. Era muito macho! Nem queria tomar conhecimento a respeito da morena que ficava na janela. Andava muito ruim “das vistas”. Não enxergava nada direito de longe, então aproveitou o ensejo e passava direto e reto. Estava escaldado de rabo de saia. Era muito melhor viver só do que mal acompanhado. Tomava refresco de limão dia e noite para não enlouquecer, pois não havia uma quenga sequer nas redondezas que o ajudasse a extravasar seus desejos. Mas uma coisa é certa: Ninguém foge do destino, não adianta.
-Polis e Raimunda se conheceram durante uma romaria a São Francisco do Canindé. Ele, fazendo promessa para enxergar bem dos dois olhos, pois não agüentava ver as coisas de longe meio embaçadas e morria de medo de ficar cedo. Polis sabia que não podia fazer promessa a São Francisco para enxergar. Afinal, Santa Luzia é a santa que cuida dos olhos. Mas fazer o que, se o dia de Santa Luzia era só no ano que vem? Não dava para esperar. Fez a promessa para São Francisco mesmo. Os óculos já estavam com a lente muito grossa e a catarata podia piorar. Será que fazia mal fazer promessa pro santo errado? Não! Santo foi inventado para ajudar.
-Raimunda vivia rezando para arrumar marido com medo de passar a hora de se casar e ficar vitalina. Afinal, ela prometeu à sua mãe no leito de morte que, por São Francisco do Canindé jamais iria entregar sua pureza sem mais, nem aquela. Que não ia fazer coisa feia com homem nenhum desse mundo, principalmente casado. Só pertenceria ao marido se fosse vestida de noiva direitinho, casada na igreja, de aliança no dedo. Mas como cumprir uma promessa tão difícil? Tanto homem bonito se candidatando a casar com ela, mas querendo liberdades logo no primeiro dia. A santinha que ela tinha devoção era Santa Luzia. Ela sabia que para conseguir marido, o certo seria fazer a promessa para Santo Antônio. Mas fazer o que se preferia São Francisco? Além do mais, o dia de Santo Antônio era só no ano que vem. Será que era pecado fazer promessa para o santo errado?
-Tomou uma decisão: Preparou uma trouxinha de roupas -as mais sérias -fez uma marmita, e quando o dia ia começar a nascer, seguiu a trilha marcada no meio da caatinga rumo ao Canindé. Desde a semana passada que ouvia o barulho dos romeiros passando lá embaixo nos caminhões, carroças, jumentos e cavalos na estrada. Precisava tomar uma providência para se casar logo, antes que fosse tarde demais. Daí resolveu ter uma conversa muito séria com São Francisco pessoalmente. Não queria se casar sem amor. Precisava encontrar o homem da sua vida e viver com ele até morrer, afinal, seu pai morreu de morte matada em Caucaia numa briga besta, e em pouco tempo a mãe morreu de morte morrida de tanto desgosto.
Promessa de verdade exige sacrifícios. Ainda mais com São Francisco, o santo que cuidava dos animais. E santo que gosta de animais só pode ser mais santo que os outros santos. No meio do caminho, já suada, com os pés sangrando, porque promessa tinha que ser feita a pé e descalça, ouviu um assobio e alguns gracejos. Baixou os olhos e apressou o passo, mas a pessoa era insistente e continuou a falar com ela. Assustada, resolveu enfrentar, pois era uma mulher forte e não tinha medo de nada. Aquela visão no sol a pino ela nunca mais ia esquecer. Montado no cavalo branco, um homem de cabelos grisalhos, forte, moreno, de óculos, bonito como ele só. Perdeu a fala e as pernas tremeram como vara verde. Sabia lá no fundo, que a promessa estava dando certo mesmo antes de cumprir.
- Pra onde tu vai morena com essa pressa toda? Vamos tomar um gole d’água pra a gente se refrescar. -Diante do susto e da falta de ação da moça, o homem explicou:
-Não se preocupe! Sou homem de bem, casado e pai de dez filhos. Não vou lhe fazer mal não. Só quero um dedo de prosa. Este aqui é Tião, meu afilhado e meu braço direito. É como se fosse meu filho. Ele ficou todo preocupado quando viu a moça neste fim de mundo, toda indefesa, longe dos romeiros. Aqui é muito perigoso dona! Cuidado!- Polis comentou:
-Nós temos aqui um bom Angu, tapioca, farinha d’água. Vamos naquela sombra para agente comer e se refrescar um pouco. -Tião sorria abismado.
Raimunda só balançou a cabeça concordando. Dava tudo na vida para ficar ouvindo ele falar. Aquela voz a deixou doidinha, e um fogo subiu por debaixo da sua saia. Nem sabia se podia confiar no desconhecido, e nem tão pouco se importou com a presença do rapaz mais novo. É certo que o tal de Tião era forte, vistoso, na idade de se casar, e todo assanhado pro lado dela. Mas entregou sua sorte nas mãos abençoadas de São Francisco, porque seus pensamentos estavam atrapalhados. O homem antes de conhecê-la direito, já falou que era casado. Será que a promessa pro santo errado lhe deu o homem errado?
-Conversaram sobre uma moça sem proteção no meio da caatinga, os perigos que corria e que devia ficar em companhia de gente direita, porque aquela parte mais deserta era cheia de lobisomens. Ele mesmo já tinha pegado um lobisomem que rasgou a roupa de uma mulher todinha e quase devorou a coitada. Tião se orgulhava ao confirmar as histórias de seu padrinho e aproveitava os a partes, para sugerir discretamente que os dois eram os protetores ideais para acompanhar Raimunda na ida e na volta da romaria. Enfim, resolveram seguir viagem juntos. Na primeira noite ficaram na mesma hospedaria, mas dormiram nas redes bem distantes com medo dos pensamentos pecaminosos que estavam soltos no ar. O que está feito, remediado está. Pela primeira vez Raimunda estava apaixonada. Este era o homem da sua vida. Algo mudou a partir daquele dia. Então, ela jurou aos pés de São Francisco do Canindé que, se não conseguisse ser mulher de Polis nesta vida- porque ele tinha impedimentos- ia ser na outra.
O tempo foi passando e a amizade foi se estreitando. Mas Polis nem dava sinal de que queria namorar Raimunda, mantendo sua palavra e sua honra de homem casado, embora ela já soubesse que a mulher dele tinha ido embora. Agora, ele passava pela casa dela e sempre fazia um gesto elegante com seu chapéu para lhe dar bom dia. Às vezes tomava um cafezinho, agradecia, elogiava a pobre moça e ia embora. Raimunda foi ficando descontente e resolveu tomar uma atitude drástica. A paixão lhe dava um fogo insuportável e já não conseguia controlar o desejo de ser possuída por aquele homem rude e encantador. Estava completamente enfeitiçada pelo rei das caatingas. Toda noite tinha que tomar banho no meio do mato, perto da cacimba, olhando para a lua e pedindo a Deus que lhe apagasse esse fogo pecaminoso que tomava conta das suas carnes fartas. Esfregava-se com a bucha de pepino com força e jogava água salobra no corpo moreno para tentar conter a tentação. Tinha medo de que aparecesse por ali um lobisomem, uma mula sem cabeça, um peão safado, ou um matador que se aproveitasse dela. Mas, se não fizesse isso, nunca ia conseguir dormir com esse desejo assustador que tomava conta de suas entranhas e lhe fazia perder o juízo. No meio do matagal, ouvindo os grilos, as cigarras e os barulhos do sertão, sabia que nada devia temer. Seus dois cachorros cuidavam dela desde que ficou órfã. Eram seus protetores aqui na terra, e com eles por perto, sentia-se segura. Por via das dúvidas, usava sempre um facão ao alcance das mãos, caso precisasse. Olhou para a lua cheia e jogou uma farta porção de água que pegou no balde com a caneca amassada. Seus cabelos molhados e  sua pele macia brilhavam como a prata no meio do nada. Raimunda ficou de quatro, colocou sua bunda em direção a lua cheia e jurou que sua sorte ia mudar. Solteirona ela não ia ficar de jeito nenhum, embora estivesse cheia de pretendentes, era ele, que ela queria para sempre.
-No dia seguinte, Raimunda foi de jumento até a plantação de Polis. Já estava com os quadris doendo de montar, o sol arrebentando com sua pele, pois na ansiedade de encontrar o homem amado, esqueceu seu chapéu e sua sombrinha. -Polis percebeu uma parada e os burburinhos dos trabalhadores. Uns assobiavam, outros tiravam o chapéu fazendo mesuras.  Não demorou muito para ver a mais linda morena do sertão, desmontando o jumento e vindo toda faceira em sua direção.
-O que tu tá fazendo aqui Raimunda? -Olhando dentro dos olhos dele disse: -Meu amor, quando eu morrer, venho te buscar..
-Polis tentou argumentar. Raimunda devia tirar aquelas besteiras da cabeça. Disfarçou acendendo seu cigarro de palha com a lente dos óculos de grau direto para sol a pino.
 -Imagina! Sou muito mais velho do que a senhorita. Eu vou morrer primeiro e você vai se casar e ter filhos. Não fala besteira mulher!-  Raimunda deu uma rabiçaca,  virou as costas e foi embora.
-Mas aquilo deixou o homem encafifado. Acabou com seu sossego. Confidenciou a Tião seu desespero de estar apaixonado por aquela morena esquisita que fazia o melhor café da caatinga. Mas não podia ter nada com ela. Não queria mais sofrer por causa de rabo de saia. Faria tudo para resistir, mas se um dia perdesse o controle, assumiria que ela era uma namorada, e pronto: Casar, nem pensar!
-Tião era um homem jovem cheio de vitalidade. Cabelos compridos, pele queimada, forte e famoso como o maior laçador de boi daquelas bandas. Desde que apareceu na porta do casarão embrulhado numa folha de bananeira, que Polis o acolheu como um filho querido. Em contrapartida Tião era leal ao seu padrinho e muito trabalhador. Mas desde que conheceu Raimunda deixou de namorar sua bananeira, de montar nas ovelhas para se aliviar, para ficar por trás do matagal vigiando os passos da mulher amada. Quando Tião ouviu a confissão de amor do patrão por Raimunda ficou roxo de raiva e resolveu armar um plano para casar com a morena dos seus sonhos. Ele gostava do velho Polis como se fosse seu pai, afinal, aprendeu a laçar boi, tirar leite de vaca, explorar a carnaúba. Tinha casa, comida e carinho. Era difícil assumir que estava louco pela mesma mulher que o seu protetor. Pensou que talvez tivesse uma chance com Raimunda, pois sabia que seu padrinho era um homem muito direito e que não ia ficar com uma mulher sem se casar, como se ela estivesse com uma rapariga. Já bastava o que seu padrinho passou quando foi viver com Rosário. A artista de circo e muito mal falada pelo povo do sertão e da cidade. Mas infelizmente, Tião estava enganado. Do seu posto de observação cego de desejo, já esbaforido no auge do pecado pecaminoso, o rapaz assistiu no dia seguinte, Raimunda levar uma quartinha d’água e um alguidá de angu para o amado no meio da plantação. Daria até a última gota de seu suor para escutar a conversa. E lá ia ela, no sol a pino do meio-dia, toda rebolativa, com aquelas cadeiras redondas e aquele decote de fazer os homens suspirarem.
-Que você está fazendo aqui Raimunda?
-Vim te trazer um angu de fubá e uma quartinha d’água. Resolvi dar um passeio. Fui procurar uma cabra minha que escapou da cerca e aproveitei a viagem para trazer esta merenda pra você.
-Vamos procurar uma sombra aqui, o calor está de amargar!
-Polis também ficava nervoso, meio trêmulo, com a presença dela, principalmente no meio da plantação, cercado de trabalhadores com olhares de cobiça. Mas fingia que estava tudo bem. Procuraram uma sombra na beira do açude já quase seco por causa da falta infernal de chuvas que abalava o sertão. Enquanto Polis comia o angu, Raimunda falava:
 -Meu preto, eu sei que você já foi casado duas veiz. Na primeira, você ficou viúvo. Na segunda, num deu certo. O povo fala, a gente acaba sabendo. Como eu num posso casar com você nessa vida, eu quero me casar na outra.
-Que outra Raimunda? Polis quase engasgou com o angu. É a segunda vez que você fala nesse assunto.
 -Ora, eu num já te falei Home de Deus? Eu juro, pela gota serena, que quando eu morrer, venho te buscar. Aí, a gente se casa lá no purgatório, no Céu, sei lá. Eu sei que não vou durar muito!
-Para de falar besteiras, mulher. Senão, eu nunca mais vou te visitar. Se tem uma coisa que eu num gosto, é de mexer com o morte, purgatório, alma penada... Isso me deixa arrepiado.
-Num é besteira não, pretinho. Eu vivo muito sozinha lá no meu barraco e num posso me juntar com você. Meu pai e minha mãe lá no céu iam me castigar.
-Eu caso com você, nem que seja na igreja brasileira. Cometo este desatino. Mas tenho um monte de filhos e a vida tá dura demais. Você é tão linda e pode ser feliz com um rapaz novo como você. Ter seus próprios filhos. Eu tenho cinqüenta anos. Sou um velho!
-Mas eu num quero. Só me caso se for com você!
-Nesse mesmo instante, o caboré cantou. Polis deu uma risada e disse:- Viu Raimunda? O caboré cantou! Vamos ter chuva. Vamos encher cacimbas e este açude vai ficar que nem o mar! Se alegre morena linda. Deus vai mandar chuva pra nós. O caboré avisou!
-Raimunda abaixou os olhos e começou a fungar e chorar. Fungava e enxugava as lágrimas na barra da saia de flor.
-Mas quando a chuva chegar pretinho, eu nem vou te ver passar!
 Se esqueceu home? Quando chove acaba o serviço da roça, aí você vai visitar suas filhas lá na cidade. Eu num vou te ver um bom tempo.-pegou seu prato e a quartinha de barro e foi embora fungando e rebolando as cadeiras. Aquilo deixou Polis ensimesmado. Os peões que trabalhavam com ele começaram a mangar: -Êta home de sorte este pretinho! A Raimunda tá babando por causa de ocê home!
-Pegou seus óculos de grau, botou a lente de frente para o sol e acendeu outro cigarro de palha com o pensamento na Raimunda.
-Quando ia voltando do serviço, às seis horas, apeou seu cavalo branco na frente da varanda da casa dela.  A moça estava no fogão fazendo uma buchada.
 -Parou de chorar, Raimunda? Você me deixou preocupado.
-Foi nada não pretinho, já passou. Vamos, come esta buchada que eu fiz.- pegou o prato de ágate e foi servir seu amor.
- Polis tirou o chapéu, comeu a buchada e conversa vai, conversa vem, perdeu as forças e o controle. O macho falou mais forte quando sentiu o cheiro de lavanda da fêmea. Como um animal, deu vazão aos seus instintos mais primitivos. Pegou a morena pelos cabelos, deu cheiro no seu cangote, arrancou sua saia e não pensaram em mais nada. Era o paraíso na terra! Aquela mulher tão novinha, toda macia, cheia de amor pra dar... Foi um presente de São Francisco. Bendita hora que foi pagar a promessa! Sua vista enxergava tudo, até uma pintinha que Raimunda tinha no peito direito. Endoideceu. Apesar do fogo que lhe queimava o coração, teve todos os cuidados porque sua amada era virgem. Foi devagarzinho, sentindo a quentura das suas entranhas. Sentindo seu cheiro de sua pele que mais parecia uma seda de tão macia. Foi a noite de amor mais bonita do mundo. Aquela era a verdadeira mulher que procurou a vida inteira. Por que será que às vezes encontramos nossos sonhos tarde demais? Começaram em cima da mesa da cozinha e foram se enroscando até a rede da mulher amada. Ele a possuiu no chão duro, na janela do barraco, com tanto desejo, que parecia ter apenas vinte anos.
-Acordaram com o barulho dos trovões e a chuva pesada de pingo grosso. Deu um beijo molhado em Raimunda e penetrou-a pela décima vez. As contrações dela o levaram a loucura. Perdeu a lucidez neste instante de amor. Com toda a certeza, o maior de sua vida. Nunca podia imaginar, que naquela idade, ia se sentir tão louco por uma mulher. Ia dar de tudo que ela quisesse. Ia fazer dela a morena mais feliz do sertão.  Agora sim! Estava cheio de esperança de recomeçar a vida e acabar de criar os filhos ao lado da mulher amada. Já chega o que sofreu para dar a filha caçula  porque não tinha condições de criar. Chorou lágrimas de sangue, mas São Francisco o recompensou.
-O caboré cantou de novo. Naquela boca da noite, Tião ficou por detrás do curral de criação de cabras, viu Polis entrando no barraco de Raimunda e o seguiu entrando pela janela. Escutou o funga-funga e já doidinho de ciúmes, se escondeu-se debaixo dos tocos das árvores que faziam a mesa e os bancos da cozinha. Sofreu com todas as gargalhadas e promessas de amor eterno na outra vida, no purgatório. Tudo que um homem apaixonado não podia suportar.
-A tempestade, tão rara naquele fim de mundo, piorava o sofrimento de Tião abafando seus soluços. Começava a estação de chuvas, era também o fim da plantação de sementes. Ia parar o serviço. E claro que o patrão não iria aparecer por lá tão cedo. Com certeza, faria sua viagem anual para a casa das filhas em Fortaleza, para esperar a chuva passar. Todo ano ele fazia isso! Levava até os filhos menores, e Raimunda ia ficar ali, no meio do sertão, sozinha, sem seu amor, sem ninguém.
-Foi só o tempo de Polis se despedir da amada com muitos beijos, pois demoraria para voltar, que Tião entrou de sopetão devagar no quarto da Raimunda. Ela estava mais linda do que nunca! Só uma lamparina iluminava seu corpo cheio de curvas. Os cabelos soltos, os peitos durinhos... A rede balançava sozinha.  Ela tão distraída!
Lembrou-se do dia que a encontrou sem querer no meio da caatinga, procurando suas cabras.
-Que qui há Raimunda?-falou tirando o chapéu.
-Oi Tião. Que qui tu tá fazendo por aqui? Tu nunca vem me visitar! Não fala mais com os pobre não, é? -aquela gargalhada deixava Tião fora do tempo.
-Num é nada disso. Meu padrim tá mandando muita gente embora. Porque não tem como pagar. A cera da carnaúba já não rende tanto. A terra tá seca demais. E eu num quero perder meu emprego se a roça não continuar.  O Pedro ele não manda embora de jeito nenhum porque cuida dos filhos dele, da casa, das compras. Mas eu só sirvo pro serviço pesado.
-Ocê é que nem um filho pro seu padrinho. Ele nunca vai te mandar  embora. Deixe de besteira home!
 -Eu sei. Agora é que ele precisa de mim mesmo!
-Raimunda, eu to há muito tempo querendo falar com ocê. Mas só te vejo com padrim.- Tião tirou o chapéu, sinal de que ia dizer algo muito importante.
- Fala Tião.
-Ocê tem namorado?
-Eu não. Que conversa besta é essa?- Raimunda desviou o olhar.
-Quer namorar comigo? Eu tenho boas intenção. Quero me casá com ocê. Vou te fazer a morena mais feliz do mundo todinho.
-Ô Tião. Eu tenho ocê como um irmão. Eu num quero casá com ocê não! Me desculpe, viu! Num fique ofendido não, porque num é de maldade.
-Eu sou o maior laçador de boi de todo este sertão. Amanso cavalo brabo, faço todo serviço e sou trabalhador. Num vou deixar lhe faltar nada. E to na idade de me casá. Também posso ir embora com ocê pra outro lugar. Posso até te levar pra conhecer o mar.
-Quero não Tiao. Meu coração ta ocupado. Inte.
-Aquela lembrança de ter sido rejeitado. E agora a imagem da mulher amada, toda nua, parecia enfeitiçá-lo...Enlouquecê-lo. Não resistiu. Uma força demoníaca, incontrolável tomou conta dele. Num salto de gato segurou as duas mãos dela para cima:
-Não grita senão te mato! Quer dizer que recusou de namorar com eu por causa do padrinho é? Num disse que era moça direita? QUENGA!  Pois já que deitou com ele, vai ter que deitar comigo também. GALINHA, VAGABUNDA!
-Raimunda reconheceu Tião:
-Pelo amor de Deus Tião, num é o que tu ta pensando...Ele é teu padrinho...Nois num tava fazendo coisa feia. A gente se ama!
 -Cala a boca! - Deu-lhe um tabefe que sangrou os dentes dela.
 -Num to te reconhecendo Tião. Num faça isso home. Teu padrinho vai te matar!-Tião não deu ouvidos. Desabotoou a braguilha e possuiu Raimunda como um animal. Exatamente como ele via os touros fazerem com as vacas. Como os cachorros pegavam as cadelas, como os cavalos faziam com as éguas. Ora tampava a boca da mulher, ora prendia as pernas dela. Mesmo assim, foi o melhor momento de sua vida. Quase perdeu o fôlego. Quase desfaleceu de tanto prazer. E quanto mais ela lutava, mais doido ele ficava.
O barulho da chuva caindo sobre o barraco abafava os gritos.
Os cachorros não atacaram porque conheciam e gostavam de Tião. Mas o desejo de Tião era tão insuportável, que não se importou se estava machucando a mulher amada. Queria possui-la até ela se apaixonar por ele, e mostrar que era melhor metedor que seu padrinho. Raimunda abandonou a luta selvagem. Quando Tião terminou, afrouxou o corpo e sorriu com todos os dentes.
- Isso era melhor do que meter na bananeira.-falou alto.
-Tu sabe o que fez Tião? - disse Raimunda num fio de voz.
-Tu me desonrou. Isso num se faz. Se tu gosta de mim, devia me respeitar. Se num quer me respeitar, pelo menos devia de pensar no teu padrinho que te criou que nem um pai.
-Dito isso pegou um facão de cozinha que deixava debaixo da sua rede para se proteger das cobras ou de algum cangaceiro safado, e enfiou em seu próprio peito na frente de Tião. Assim: Nua, possuída pelo desejo de dois homens. Enfiou com tanta força e de surpresa, que Tião nem teve tempo de reagir. Nem de tomar o facão dela, que ele não viu ali, à toa, no quarto. Não. Isso ele não podia suportar. Ela não podia fazer uma barbaridade dessas. Tião fugiu feito doido, feito alma penada, gritando, chorando se amaldiçoando para toda a vida.
-Pedro cuidava das porteiras da fazenda de Polis que agora não passava de um pequeno sítio. Sua função era vigiar quem entrava e quem saia. (Foi batizado com este nome em homenagem a São Pedro- o porteiro do céu.) Trabalhava também de pombo-correio para levar prendas para a Raimunda, óleo de coco, lavanda que o patrão trazia no meio das compras da casa, e trazia umas tapiocas, uns bolos de macaxeira que Raimunda mandava para seu amor.  Ensinava os filhos do patrão a montar os cavalos, dar ração para as galinhas, e ajudava na horta e na casa de farinha. Pedro teve uma história parecida com Tião. Apareceu no meio do mato, embrulhado em uns panos encardidos chorando e berrando que nem um bezerro de tanta fome. Do jeito que Polis sofria por ter dado a filha, caçula, cada bebê abandonado que aparecia ele resolvia criar.
Mas Pedro era muito frágil e raquítico. Não servia para o serviço pesado, então, o jeito foi deixá-lo dentro de casa cuidando do serviço leve. Além do mais, o coitado só vivia falando que queria ser padre. Mas Polis não conseguiu descobrir um jeito de levar o menino para estudar na cidade, daí, Pedro deixou seus sonhos de lado para servir ao seu patrão em troca de casa, comida e carinho.
-Dois dias depois da tragédia com Raimunda, sem saber de nada, Pedro foi levar um bilhete para a moça, onde seu patrão dizia que tinha ido para Fortaleza ver os filhos e procurar um padre que casasse os dois. Disseram pra ele que os padres da igreja brasileira abençoavam casamentos mesmo que um dos noivos ainda não fosse desquitado. Precisava ir fazer isso com urgência, antes que Raimunda ficasse mal falada. Ia se casar com ela de qualquer jeito e esquecer a promessa que fez de não querer mais nenhum rabo de saia. Polis pegou o trem para Fortaleza e designou Pedro para cuidar de Raimunda na sua ausência.
-Chegando lá, Pedro encontrou a mulher mortinha da silva, com um facão cravado no peito, cheia de sangue, e os cachorros latindo de tanta tristeza. Mas não pode avisar ao patrão, que a estas horas já devia estar perto de Caucaia.
-Passou o tempo, a chuva acabou, as sementes começam a brotar e o coronel voltou para o sertão cheio de novidades: cortes de chitas para a amada fazer uns vestidos; lembrançinhas e mimos para a amada fazer o enxoval do casamento. Na hora da ave-maria, Polis chegou à casa grande do Juá e já teve um desgosto quando Pedro disse que Tião havia sumido. Ficou chateado, preocupado, mas estava cansado demais da viagem de deitou na varanda.
Estava ele cochilando na rede de corda, pensando se Pedro cuidou de não deixar faltar nada para a Raimunda enquanto esteve fora.  Tião também não lhe saía da cabeça. Um rapaz bom, trabalhador, que criou como se fosse seu próprio filho. Que mistério é esse? Será que ele disse alguma coisa que ofendeu Tião? Será que Tião arrumou mulher? Homem quando desaparece sem mais nem menos ou o problema é mulher ou encrenca.
-De repente, escutou uma gargalhada e o cheiro de lavanda tomou conta do ar. Levou um susto ao abrir os olhos, e como se fosse um pesadelo daqueles que tinha quando criança, e viu Raimunda, bonita que só ela, toda vestida de noiva prontinha pra se casar. Mesmo achando estranho a morena estar vestida daquele jeito antes do casamento, não resistiu e começou a esboçar o abraço mais apertado da sua vida, e mostrar a enorme alegria pelo encontro. Mas algo o fez perceber que ela estava diferente: Aqueles olhos, aquela risada ele não conhecia muito bem. Gaguejou, tremeu, mas nem deu tempo de reagir ou raciocinar.
“Eu não disse que vinha te buscar?” -Raimunda pulou no pescoço dele tentando estrangulá-lo. Apavorado, Polis saltou como um gato e gritou que nem maluco.
-Pedro, que nada viu, chegou em seu socorro e encontrou o patrão sangrando na testa e no pescoço. Desesperado, corria de um lado para o outro procurando o mercúrio cromo para fazer um curativo. Como num passe de mágica surgiram os peões que estavam ali pelo curral preocupados e perguntando o que tinha acontecido. Polis procurava Raimunda por todos os cantos e gemia de dor. Foi aí que Pedro, um pouco mais lúcido diante da confusão, pediu para seu patrão se acalmar e começou a contar o ocorrido. O patrão nem escutava. Transtornado, o homem tentava explicar que Raimunda havia tentado estrangulá-lo, e que ela ainda estava por ali. Será que tinha enlouquecido? Ou seriam ciúmes porque ele demorou a voltar? Os peões coçaram a cabeça, disfarçaram, ficaram sem jeito e o silêncio reinou. Ninguém ousava contar a verdade. Após alguns segundos de angústia, Polis exigiu aos berros que alguém tinha que lhe falar a verdade. Foi aí que Pedro, encurralado, ainda meio gago, criou coragem e desabafou tudo de uma só vez:
-Raimunda ta mortinha da silva, coitadinha! Já faz uns tempos. Eu fui lá levar o bilhete que o senhor mandou e lá tava ela, estirada no chão, com um facão enfiado no peito, cheinha de sangue. Os cachorros latindo e uivando ao lado do que restou da coitada. Nem sei como algum bicho do mato não comeu os restos da pobrezinha. Os urubus já estavam avançando no quintal dela. Tive sorte de chegar a tempo. Eu mesmo enterrei e botei uma cruz em cima. - acabou de falar e caiu duro na cadeira de balanço esperando o pior. Daria tudo o que sonhou para não ver seu patrão querido sofrendo tanto. Abandonou a idéia de ser padre com muito custo para cuidar do seu patrão. Além da gratidão o amava como um pai e não queria vê-lo tão desamparado sem poder fazer nada para ajudar.
 -Quem fez uma desgraceira dessas? Eu arranco os bofes de quem fez essa maldade! Pedro, eu te esfolo todo com essa peixeira se tu tiver mentindo, home de Deus.
-Num to mentindo não sinhô! Eu mesmo vi com estes próprios óio que a terra há de comer. Só que eu não queria que fosse justo eu lhe dar uma notícia desta, tão horrível, tão triste...Mas se acalme que num foi ninguém que fez esta desgraça não. Foi ela mesma, com a arma dela. Se matou sozinha e num foi culpa de ninguém.
-Mas ela tava agorinha aqui. Eu vi. - Polis soluçava e beijava o crucifixo de rubi do pescoço.
-Meu Deusinho... A Raimunda virou alma do outro mundo?
-Virou sim sinhô. - respondeu Pedro meio acanhado.
-De vez em quando a gente escuta os gemidos dela na calada da noite. Ninguém passa mais lá na porta dela com medo. Agora, vive gemendo, vestida de noiva no meio da plantação. Nós nunca vamos saber o acontecido. Mas uma coisa é certa: Tião desapareceu desde que aconteceu a desgraceira. Num sei se o senhor ficou sabendo, mas o Tião queria até casar com ela, coitado.
-Polis soluçando feito louco não acreditava. Não se conformava. Sabia o que o destino lhe reservou: Fugir de alma do outro mundo pro resto de sua vida. Sabia que Raimunda não ia deixá-lo em paz. E lamentou: Mas pra que eu fui fazer promessa pro Santo errado?
-Polis e Raimunda se conheceram durante uma romaria a São Francisco do Canindé. Ele, pagando promessa para enxergar bem dos dois olhos depois de um ameaça de cegueira. Polis sabia que não podia fazer promessa a São Francisco para enxergar. Afinal, Santa Luzia é a santa que cuida dos olhos. Mas fazer o que, se o dia de Santa Luzia era só no ano que vem? Não dava para esperar. Fez a promessa pra São Francisco mesmo. Os óculos já estavam com a lente muito grossa e a catarata podia piorar. Será que fazia mal fazer promessa pro santo errado?
-Raimunda vivia rezando para arrumar marido com medo da solidão e da orfandade. Afinal, ela prometeu à sua mãe no leito de morte que, por São Francisco do Canindé, não ia fazer coisa feia com homem, principalmente a e o cheiro de lavanda tomou conta do ar. Levou um susto ao abrir os olhos, e como se fosse um pesadelo daqueles que tinha quando criança, e viu Raimunda, bonita que só ela, toda vestida de noiva prontinha pra se casar. Mesmo achando estranho a morena estar vestida daquele jeito antes do casamento, não resistiu e começou a esboçar o abraço mais apertado da sua vida, e mostrar a enorme alegria pelo encontro. Mas algo o fez perceber que ela estava diferente: Aqueles olhos, aquela risada ele não conhecia muito bem. Gaguejou, tremeu, mas nem deu tempo de reagir ou raciocinar.
“Eu não disse que vinha te buscar?” -Raimunda pulou no pescoço dele tentando estrangulá-lo. Apavorado, Polis saltou como um gato e gritou que nem maluco.
-Pedro, que nada viu, chegou em seu socorro e encontrou o patrão sangrando na testa e no pescoço. Desesperado, corria de um lado para o outro procurando o mercúrio cromo para fazer um curativo. Como num passe de mágica surgiram os peões que estavam ali pelo curral preocupados e perguntando o que tinha acontecido. Polis procurava Raimunda por todos os cantos e gemia de dor. Foi aí que Pedro, um pouco mais lúcido diante da confusão, pediu para seu patrão se acalmar e começou a contar o ocorrido. O patrão nem escutava. Transtornado, o homem tentava explicar que Raimunda havia tentado estrangulá-lo, e que ela ainda estava por ali. Será que tinha enlouquecido? Ou seriam ciúmes porque ele demorou a voltar? Os peões coçaram a cabeça, disfarçaram, ficaram sem jeito e o silêncio reinou. Ninguém ousava contar a verdade. Após alguns segundos de angústia, Polis exigiu aos berros que alguém tinha que lhe falar a verdade. Foi aí que Pedro, encurralado, ainda meio gago, criou coragem e desabafou tudo de uma só vez:
-Raimunda ta mortinha da silva, coitadinha! Já faz uns tempos.
Eu fui lá levar o bilhete que o senhor mandou e lá tava ela, estirada no chão, com um facão enfiado no peito, cheinha de sangue.
Os cachorros latindo e uivando ao lado do que restou da coitada. Nem sei como algum bicho do mato não comeu os restos da pobrezinha. Os urubus já estavam avançando no quintal dela. Tive sorte de chegar a tempo. Eu mesmo enterrei e botei uma cruz em cima. - acabou de falar e caiu duro na cadeira de balanço esperando o pior. Daria tudo o que sonhou possuir para não ver seu patrão querido sofrendo tanto. Abandonou a idéia de ser padre com muito custo para cuidar do seu patrão. Além da gratidão o amava como a um pai e não queria vê-lo tão desamparado e não poder fazer nada para ajudar.
 -Quem fez uma desgraceira dessas? Eu arranco os bofes de quem fez essa maldade!
-Pedro, eu te esfolo todo com essa peixeira se tu tiver mentindo, home de Deus.
-Num to mentindo não sinhô! Eu mesmo vi com estes próprios oio que a terra há de comer. Mas eu num queria lhe dar uma notícia desta, tão horrível, tão triste...Mas se acalme que num foi ninguém que fez esta desgraça não. Foi ela mesma, com a arma dela. Se matou sozinha e num foi culpa de ninguém
-Mas ela tava agorinha aqui. Eu vi. - Polis soluçava e beijava o crucifixo de rubi do pescoço.
-Meu Deusinho... A Raimunda virou alma do outro mundo?
-Virou sim sinhô. - respondeu Pedro meio acanhado.
-De vez em quando os peões escutam os gemidos dela pela fazenda. Ninguém passa mais lá na porta dela com medo. Agora, vive gemendo, vestida de noiva no meio da plantação. Nós nunca vamos saber o acontecido. Mas uma coisa é certa: Tião desapareceu desde que aconteceu a desgraçeira. Num sei se o senhor ficou sabendo, mas o Tião queria inté casar com ela, coitado.
-Polis soluçando feito louco não acreditava. Não se conformava. Sabia o que o destino lhe reservou: Fugir de alma do outro mundo pro resto de sua vida. Sabia que Raimunda não ia deixá-lo em paz. E lamentou: Mas pra que eu fui fazer promessa pro Santo errado?



MDSENNE
Enviado por MDSENNE em 12/09/2007
Código do texto: T650063

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite nome do autor e o site mariadudaoficial.kit.net). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
MDSENNE
São Paulo - São Paulo - Brasil
5 textos (482 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 14/12/17 05:06)
MDSENNE