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Todas as cores

VERDE (ESPERANÇA)

Serra de Sintra. O calor faz-se sentir intenso enquanto o fim de tarde espera calmo e tranquilo ao fundo do bloco de apartamentos. O FIAT azul emerge de rompante da curva, pneus chiando e devorando metro a metro, em esforço desesperado o pouco espaço que falta. Colado ao volante o homem pequeno, entroncado e impecavelmente vestido estica o pé direito gordo, carregando a fundo com toda a força, peso e pressão martirizando juntos o pedal. Ao seu lado no banco do pendura jaz imóvel o envelope castanho amarrotado e mal acondicionado.

Num ápice a aceleração dá lugar a uma travagem violenta, brusca embora perfeitamente programada, prevista, agendada para aquele momento em que deixa as marcas no alcatrão. O bólide estacionou e imobilizou-se deixando escapar a massa balofa que após sair sobe agora correndo o lance de escadas. A uma porta se bate, uma porta se abre.

- Senhor Adelino? - diz o gordo, a voz ofegante.

- Sim. Sou eu. Quem és e que me trazes? - retorque Adelino Cruz,
  fitando fixamente, olhos nos olhos, o seu interlocutor.

- Queira fazer o favor... - e entrega-lhe o pequeno envelope.

A atenção voltou-se momentaneamente para o envelope cheio, fazendo a análise rápida, avaliando o risco. Quando levantou o olhar o homem tinha desaparecido. Olhou para um e outro lado, fechou a porta e ficou alguns segundos parado, observando o objecto, sem saber bem o que fazer. Após aquele momento de indecisão a curiosidade foi mais forte. E dá por si sentado na cama abrindo o invólucro para encontrar lá dentro um pequeno livro e aquela carta estranha. Começou a ler.

Decerto estranhará a recepção desta missiva, linhas que a muito custo minha mão trémula faz sair. Nunca tive o privilégio de o encontrar pessoalmente e peço encarecidamente que me perdoe a ousadia da intromissão em sua vida particular. Mas o tempo urge e tem todo o interesse em saber. Meu nome é Adriano e o que tenho para lhe propor vale dez milhões de euros. Sim, leu bem. Dez milhões.

  Vinte e cinco minutos para ler e reler são uma eternidade se considerarmos que o texto se espalha por apenas três páginas. Mas foi o que gastou. No fim a semana de férias evaporou-se para o nada dando lugar a actividades mais necessárias aos novos objectivos. Que prometem e chamam e pedem atenção.

Adelino era um sujeito peculiar. Conciliava a disciplina e espírito prático herdados dos vários anos passados em Benfica entre os muros do colégio militar com uma capacidade de abstracção que lhe abria porta para outros voos e lhe conferia outra sensibilidade. Físicamente a cara e óculos redondos, o bigode negro e cabelo encaracolado no topo de seus cento e sessenta e oito centímetros não impressionavam por aí além. Escondiam no entanto o corpo treinado, que sabia ser lutador e amante de forma terrívelmente eficiente. Alguns minutos após a leitura da missiva e sua capacidade de adaptação e raciocínio rápido já tinham delineado o plano de actuação. E isso era bom, uma vez que o tempo de que dispunha não era muito. Para já o banho que se impõe. Depois sair, fazer uns quilómetros e entrar na confusão cosmopolita do bairro mais visitado da cidade – o Bairro Alto. Entretanto no horizonte o sol já vai descendo lentamente para o seu leito. Ao longe o cimo de serra transformado em  palácio da Pena descansa de mais um dia atribulado - a servir turistas,  espalhando o romantismo. À volta dele apenas um imenso mar de verde. Pejado de esperança.

VERMELHO (PAIXÃO)

Mais que candeeiros e ruas estreitas e casas um bairro típico é um ser estranho com manias e temperamento próprio, tão sua a forma como se veste e reveste das mais variadas pessoas. No caso do bairro alto a personalidade é marcada pelo ambiente cosmopolita, tributo à variedade onde coabitam em convivência diária espécies tão diferentes como a estudantada imberbe, artistas, malandragem e camones. Onde se encontra a mercearia ao lado da casa de fado ao lado da galeria de arte ao lado do restaurante fino ao lado do bar onde entramos e ouvimos estupefactos o mais inesperado jazz.

Esta é apenas mais uma noite em que se fará justiça ao currículo do lugar. No pequeno W.C, Maria X encara o espelho com satisfação e verifica cuidadosamente a aparência. O olhos negros rasgados, orientais estão esculpidos na face morena que serve de base ao longo cabelo frisado e conferem-lhe o ar exótico que a torna tão pouco resistível. À face interessante juntam-se ainda uns lábios carnudos, herança da mãe cabo-verdiana e aquele corpo bem cuidado que trata de guarnecer com vestuário requintado, de marca e que suporta a ocupação que adora. Em que não tem horário fixo ou relógio de ponto mas onde sempre se impõe o satisfazer dos desejos mais exigentes. Naquele recanto do restaurante “sabores de baco”, olha em frente e ama tudo o que vê. Mais uns segundos e a porta vai abrir e todos desviarão a atenção do jornal da noite que relata como sempre o mesmo de sempre, para ver a morena que sai gostosa para a rua.

Adelino emerge apressado da escadaria do metro “Baixa-Chiado” observando à sua frente a célebre esplanada da “Brasileira” onde reside ancorada, pensativa a estátua do poeta maior. Um pouco à esquerda o largo de Camões espera servindo de entrada aos quarteirões onde tudo acontece. Deambula pelas ruas até chegar à da Rosa, rua de eleição onde fica o seu restaurante favorito. O “petisco dos deuses” é um sítio peculiar com apenas meia dúzia de mesas e uma carta de vinhos de fazer inveja aos melhores. Felizmente tivera o cuidado de marcar! Senta-se e pede a ementa enquanto espia um casal de meia-idade que sem fulgor e sem chama conversa banalidades, mantendo-se entre ambos apenas função fáctica. Ao fundo o par de namorados troca carícias apaixonadas enquanto a outra comida não chega. De repente a mão toca-lhe no ombro.

- Senor, una rosa solamente dos euros - gesticulava, tentando
  fazer-se compreender.

Preparava-se para recusar. Marroquinos vendendo flores eram o prato do dia de qualquer frequentador daquelas paragens. Além disso o gajo não via que ele estava só? Estava nisto quando a voz se ouve, suave, a seu lado

- Senor Adelino... rsrsrs, não me diga que vai recusar uma rosa a uma
  senhora...

Levantou os olhos e viu-a. Pele morena um pouco mais clara que o vestido negro.  Olhos fundos negros, riso provocante.

- Vejo que o deixei sem palavras – continua ela, trocista, senhora da
  situação. Posso sentar-me ou espera alguém?

O que se seguiu foi um daqueles jantares magníficos onde a gastronomia, portuguesa por sinal, foi regada por um magnífico “Duas Quintas” de reserva e tudo isto completado por uma daquelas conversas onde a intímidade se vai insinuando de fininho, como quem não quer a coisa. Uma vez satisfeitos começaram por um bar banal com música ambiente e jogo de setas. Beberam umas e outras – sempre conversando e rindo, rindo muito. Seguiu-se o bar mexicano, ruidoso e animado onde até deu para um pé de dança. E terminaram no bar do Zé Negro – lindíssimo. Com a pianola ao fundo e a música ambiente - John Coltrane e outros que tais e ainda o grupo de Jazz que finalmente deu as caras e fez “show”.

Algumas horas depois ela guiou os corpos cansados até ao apartamento luxuoso nas traseiras do Principe Real e conheceram-se por fim.

AZUL (REFLEXÃO)

Ás vezes tudo nos parece um sonho. Neste momento, nem sombra da morena. Ele jaz amordaçado e preso a uma cama na pensão rasca  perto da praça da alegria. À sua frente um papel exibe a mensagem que diz

  Tens cinco minutos para descobrir a combinação do cadeado. Senão
  já eras.

A inteligência fá-lo à conseguir. Para isso usará a mensagem cifrada em páginas do livro, sendo suficientemente perspicaz para perceber que a alusão ao versículo de Lucas nada tem de bíblico e não é mais que referência à sucessão “números de Lucas”, caso particular dos números de Leornardo de Pisa (Fibonacci). Conseguirá entrar no site e ficar na posse da quantia prometida.

Na semana seguinte comprará duas passagens só de ida para as Caraíbas. E irão. Ele e ela.
   
BRANCO (TODAS AS SENSAÇÕES)

O grupo formara-se por geração espontânea, do nada. Em apenas dois anos crescera rápidamente para a multidão dispersa de milhares de constituintes de todos os credos, países e raças. Aqueles seres anónimos que planeam, discutem e articulam o jogo.

As regras são simples. Criar um desafio, escolher cuidadosamente uma “vítima” e estipular uma recompensa choruda. Durante quarenta e oito horas o escolhido é seguido e vigiado e são lhe colocadas as mais variadas provas.

Finalmente, se ele triunfar e se tornar o “homem de todas as cores”, “homem de branco” a história é colocada na Web de duas maneiras: Uma é através de um pequeno conto publicado de preferência primeiro em círculos restritos como o são as comunidades de escritores que se entreajudam em tentativas de melhorar a escrita. A outra é através de videos. Em site secreto. Que conheço. Mas não revelo.  
José Espírito Santo
Enviado por José Espírito Santo em 13/09/2007
Código do texto: T651241

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Sobre o autor
José Espírito Santo
Portugal, 51 anos
155 textos (7507 leituras)
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