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UM REVEILLON NO QUITANDINHA.


A adolescência talvez seja a melhor fazer de nossas vidas, e dela sempre temos o que contar. Lembrança das brincadeiras, das estripulias, das farras, das festas, dos namoros, das aulas gazeadas, das fugas dos pais, das confusões. Adolescência também é sinônimo de dificuldades com os pais, de revoltas, de nos acharmos os donos do mundo.Tive a felicidade de ter curtido essa fase da vida numa época áurea, propicia a tudo; até mesmo para se questionar o governo. Época da Jovem Guarda, do Êi, êi, Êi.  Época marcante, cujos os reflexos ainda hoje são sentidos, principalmente, na nossa música.  Roberto Carlos, um dos ídolos daquele tempo, ainda impera como o rei. Época dos Beatles, dos Golden Boys, dos Incríveis, de Moacir Franco, de Roni Von, de Agostinho dos Santos, de Wilson Simonal. Época do bom forró do Trio Nordestino, do Luís Gonzaga, do Jackson do Pandeiro, do tropicalismo, dos festivais de música, de um futebol brasileiro mágico. Época de Pelé, Tostão, Gérson, Rivelino, Ademir da Guia – o Divino, somente para citar alguns. Época esplendorosa. Época das tertúlias em Fortaleza, das turmas que saiam em busca de diversão e confusão.  Época de liseira e da criatividade para superá-la também. Época que nossa maior era o futebol e tertúlias e não o craque de hoje.
Tempo que Fortaleza era uma cidade pacata, onde se podia sair para qualquer lugar a qualquer hora do dia ou da noite sem sobressaltos. Época onde era muito comum haver festinhas dançantes nas casas de família, conhecidas popularmente por tertúlia, onde qualquer pessoa, quem quer que fosse, chegava na tertúlia, entrava, dançava, na maior, sem qualquer problema, mesmo sem conhecer os donos da casa, porém com total respeito ao ambiente, à família, aos donos da casa, aos participantes; coisa  inerente a nós mesmo. Não sei se pelo fato de se recear que um deslize qualquer pudesse acabar com nossa diversão, boa e barata, porque qualquer acontecimento desagradável teria repercussão e outras famílias que não mais promoverem aquele tipo de encontro.
Até mesmo quando havia um desentendimento, coisa de garoto mesmo, mas a turma do deixa-disso acabava logo a confusão, ou em último caso, os brigões eram afastados para um local mais longe da festa, e lá podiam se ajustar, contanto que não prejudicassem a festa ou tumultuassem o ambiente. Outro fato preponderante na manutenção da ordem era o respeito à polícia. Qualquer um que se metesse a besta dentro de uma casa, mesmo por mais razão que tivesse, não teria boa vida. A polícia, caso fosse chamada, jamais daria razão a outro  a não ser ao dono da casa, o que contribuía para que sempre tudo corresse bem, sem problema.
Mas como disse, às tertúlias qualquer um entrava, exceto na casa de grã-finos que geralmente usavam convites, que para se ter acesso, a apresentação do convite era obrigatória, ou em comemorações de casamentos, quinzes anos. Pois, não raro, os casamentos eram comemorados com uma festinha dançante na casa dos noivos ou do aniversariante. Em Fortaleza não existia buffet; os costumes eram outros.
Muito bem, afora o futebol, repito, nossa maior diversão eram as tertúlias. No sábado, domingo à noite, já se programava a próxima tertúlia, antes mesmo do fim de semana acabar, pois nas tertúlias já se recebia convite, ou dicas para outras.
Os clubes também promoviam tertúlias tradicionais. Alguns ficaram famosos por suas vesperais, matinais, como o Fortaleza, o Clube Comercial e outros.  Havia também as festas, que se destingiam das tertúlias. Estas necessariamente não precisavam de um motivo para ser feita. Aquelas, sim, eram em comemoração a alguma coisa. Nas casas de família, entretanto, com ou sem comemoração, eram sempre tertúlias. Nos clubes, também havia  tertúlias, mas  que nunca passavam da meia-noite, enquanto as festas varavam a madrugada.
Mas sobre esse assunto o que nos interesse são as histórias.
Nossa turma era de lisos. Exceto um ou outro, o resto, todos dependiam dos pais para ter algum dinheiro, que sempre era pouco e mal dava para as passagens de ônibus e no máximo se tomar umas doses de cachaças. Cachaça mesmo. Cerveja, nem pensar. O preço para nós era inacessível. A não ser quando aparecia um pagador, e patrocinava bebida grátis. E  de vez em quando aparecia. Como  Mainha.
Mainha era um amigo nosso, bem mais velho, remediado; quando brigava com a namorada, na fossa com dor de cotovelo, nos chamava para fazer serenata pra namorada dele. Entretanto,  antes era obrigatório se beber. Ele só tomava cerveja, e sabedor da nossa liseira patrocinava tudo. Talvez por gratidão por sermos solidários à sua dor. Nada mais justo do que pagar para ter acompanhantes nos seus momentos de tristeza. Tristeza, que  às vezes, nós dávamos uma pequena contribuição. Vez ou outra se fazia pequenas fofocas aqui,  acolá,  sobre uma festa, uma tertúlia que o Mainha tinha  ido sem a namorada saber, e essas fofocas dávamos um jeito de chegar até os ouvidos dela, aí as brigas eram inevitáveis, e, conseqüentemente, um rompimento passageiro que gerava uma fossa, o suficiente para nós tomarmos umas cervejas, pois sempre depois da serenata apaixonadas, feitas ao som de uma vitrola Phillips à pilha ao som de Agnaldo Timóteo, Moacir Franco, Altemar Dutra, Waldick Soriano,  o namora voltava. É tanto, que o Mainha casou-se com ela, com quem vive até hoje.
 Mas voltando à liseira, assim mesmo sem dinheiro quando havia uma festa boa num clube ou uma tertúlia, arriscávamos entrar de graça e aí era pôr em prática a criatividade, nossas táticas. O meio mais utilizado era pular o muro, que sempre trazia seus inconvenientes, mas era uma aventura, que se bem sucedida seria contada com orgulho.
Mas havia os inconvenientes. Primeiro: se fosse pegue a vergonha de ser posto para fora, puxado pelo braço por vários seguranças. Segundo: o risco dos seguranças serem brabos e meter a porrada. E por fim, uma queda feia. Mesmo assim valia a pena.
Quanto se chegava aos clubes, era cada um por si. Quem quisesse entrar tinha que se virar, pois dificilmente poderia contar com a ajuda de um amigo, que também estavam arriscando a sorte. Valia tudo. Porém a esperteza  era fundamental.
Certa vez, num reveilon no Clube Quitandinha foi cantar Zé Ketty, sambista e compositor famoso de músicas carnavalescas. Naquele dia todos meus colegas conseguiram burlar a vigilância e entraram, eu, porém, continuei lá fora, esperando uma oportunidade mais propícia que desse para enganar os porteiros.  E ela surgiu.
Eu tinha ficado um pouco distante da portaria, para não chamar atenção dos porteiros, pacientemente, quando surge a oportunidade. O clube ficava numa avenida, com entrada  numa rua lateral. Eu estava na esquina, a uns dez ou doze metros da portaria. De repente aparecesse Zé Ketty e sua banda, nisso o pessoal do clube vem ao encontro dele, que ele, para minha surpresa e sorte, ao passar por mim me cumprimenta e o pessoal do clube viu. Sem perda de tempo, bem depressa me meto no meio do  grupo e vou entrando. Entro na maior e sem o menor problema com segurança e com o porteiro. Curti  um  reveilon espetacular.
Entretanto, nesse mesmo dia, houve um incidente interessante. A turma toda resolveu pular o muro, somente eu  não fui e fique de fora, como disse  ali pela portaria. Não sei porque não acompanhei meus amigos como sempre fazia. E naquele dia, como ocorria uns entraram, outros não.
Paulo um dos meus amigos mais chegado, entrou, mas se deu mal. Como não o vi voltar, achei que estava lá dentro curtindo a festa.  Quando entrei e não o encontrei fiquei surpreso, mas não me importei e fui me divertir. Pois o lema era: entrou, entrou. Não entrou, fica para outra vez. Ninguém, por mais amigo que fosse, ia procurar ajuda, porque não tinha como, e essa de solidariedade não havia. Se assim fosse, muitos ficariam prejudicados por um só; então o lema era cada um por si, diferente dos três mosqueteiros: um por si e todos por um.  Nada disso.
Mas de volta ao nosso assunto, no dia seguinte, encontrei o Paulo e soube da história. O Quitandinha era um clube de subúrbio. Depois do clube tudo era mato, e praticamente despovoado. Mata fechada mesmo. Dentro do clube havia um chiqueiro de galinhas e nós, digo, nós, embora tenha ocorrido o fato com o Paulo, não sabíamos. O chiqueiro estava localizado bem no pé do muro, coberto com papelão e  folhas de zinco, lá no fundo, onde o Paulo pulou. Ao pular, caiu dentro do chiqueiro. O barulho no zinco foi grande, e o grito das galinhas assustadas ainda maior, e chamou a atenção de um vigilante.
Passado o barulho inicial, o Paulo ficou dentro do galinheiro quieto, mas as galinhas continuaram gritando, fazendo barulho e chamou a atenção do vigia, que foi verificar.  Quando o sujeito surgiu em frente ao galinheiro, foi reconhecido pelo Paulo. Era inclusive empregado do pai dele, Paulo, e estava fazendo um bico naquela noite como vigia. Nisso, o Paulo viu uma oportunidade de se safar do problema e  começou a chamá-lo, baixinho, pelo nome, para não despertar a atenção dos demais vigilantes e nem assustar ainda mais as galinhas:
- Tião, Tião, vem até aqui. Sou eu o Paulo, filho do José Bezerra. Deixa-me entrar. Não chama ninguém, não.
Mas devido ao barulho e  ao som do conjunto tocando, era impossível Tião escutar o Paulo, que ao invés de ir ver o que estava ocorrendo, chamou os outros vigilantes e apontou para o galinheiro, mas não foi lá ver o que estava havendo, e deixou tudo por conta dos colegas de trabalho, que  por serem bem mais fortes não precisavam de ajudar para resolver a parada.
Naquele dia, Paulo havia convidado Velma, sua namorada, para ir ao clube com ele. Como éramos lisos e ir a festa com namorada era quase impossível, e problemático, mesmo que das mulheres não se cobrasse entrada, costume da época. Nós não tínhamos dinheiro nem para pagar a nossa. Então a solução era marcar encontro lá dentro e arriscar entrar com sócio atleta, ou seja, pulador de muro. Contornado esse problema, lá dentro surgia outro. De vez em quando de comprar  refrigerante, e geralmente a namorada não ia só, para sair de casa os pais exigiam que fosse acompanhadas, a despesa era maior ainda. Nesses casos, o jeito era passar a noite sem beber nada, no máximo e olhe lá um refrigerante, uma água mineral. Bebida alcoólica, nem pensar, o preço era inacessível, e como prevenção, antes de entrar se fazia a base, ou seja, bebia-se o suficiente pela noite inteira.
Quando surgia um convite para uma festa com a família da namorada, tinha que se inventar mil e uma desculpas, fazer um jogo de equilíbrio grande, tudo por falta de grana. Se a festa fosse longe, era pior ainda. Tinha o problema de transporte. A inda nem tanto, dava para ir de ônibus, o que não era tão difícil assim de resolver, se apelava para os pais arranjar um pouco mais de grana. Mas a volta era uma tormenta das grandes. Tinha de ser de táxi, porque os ônibus em Fortaleza circulavam, em alguns locais, somente até meia-noite. Em outros, a partir das onze horas da noite já não rodavam mais. Depois desse horário, somente pelas quatro horas da manhã passava o primeiro ônibus, apelidado de verdureiro, que  trazia feirantes com produtos para serem vendidos. Festa no Clube de Regatas Barra do Ceará, por exemplo, para nós que morávamos na Piedade, precisávamos pegar dois ônibus. Um nos deixava na Praça José de Alencar e de lá se seguia a pé uns dez quarteirões até a Praça Coração de Jesus para pegar outro ônibus, pois também não havia ônibus direto de um bairro para outro. Os ônibus somente trafegavam dos bairros para o centro da cidade.
Todavia, voltando ao no caso, Paulo havia combinado com a Velma encontrá-lo no Quitandinha, lá dentro, claro. Quando Paulo foi descoberto pelos seguranças, esses o pegaram pelo braço e se encaminharam, empurrando-o para a saída por dentro do clube, pelo meio do salão, onde com certeza todo mundo o veria ele ser expulso do clube, principalmente, sua namorada, que logo, deduziria o motivo: pulou o muro. Com medo de passar tamanha vergonha, Paulo implorou para não sair por dentro do clube, preferia voltar por onde tinha vindo, ou seja, por cima do muro.
Os vigias não viram qualquer inconveniente nisso, acho que até gostaram, pois jogá-lo por cima do muro além de não trazer qualquer dificuldade, por ser o Paulo baixinho, de um metro e sessenta e dois por aí, franzino, que não pesava tanto,  para eles seria ainda uma boa diversão.
- Já que você quer, vamos atender seu pedido.
E jogaram o Paulo de volta por cima do muro, que quase se arrebenta todo, mas não passou pela decepção de ser visto pela namorada sendo expulso do clube.
Eram os ossos do ofício.

HENRIQUE CÉSAR PINHEIRO
SETEMBRO/2007
Henrique César
Enviado por Henrique César em 15/09/2007
Código do texto: T653325

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Sobre o autor
Henrique César
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