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A Esperteza do Pinguço


     Rosário Calango era um cachaceiro inveterado. Certa vez, foi forçado pela mulher a deixar de beber. Ela passou a controlar o dinheiro, e proibiu os amigos de lhe darem pinga e os donos dos botecos de lhe venderem fiado. Suas idas à cidade foram controladas por ela. Uma tortura. Rosário Calango gostava da pinga, tanto quanto gostava da mulher, por isso, passar sem a branquinha era uma verdadeira tortura.
     Um vício não se acaba de um dia para o outro, e assim, seu sofrimento só durou um mês. E durou muito. Não tinha forças suficientes para largar a bebida de vez. A pressão da mulher e a traição dos amigos, só aumentaram a sua vontade de beber. Mas o maior empecilho era a falta de dinheiro. Este, sim, o seu verdadeiro problema.

     No momento em que pensava na falta de dinheiro e em como consegui-lo, um zurrado no meio do pasto chamou-lhe a atenção. Era a solução que surgia, como num passe de mágica, do outro lado da cerca. Seu burro de estimação acabava de lhe dar uma boa idéia. Bom de sela como ele só, ia lhe render um dinheirinho para a bebida. Porque não lembrou disso antes? Pensou. Pediria um preço justo por ele: R$ 350,00. Com o dinheiro da venda, tomaria quantas pingas quisesse e ainda sobrariam uns trocados para outras ocasiões.
     Pegou o animal, arreou e montou. Ao sair de casa, disse à mulher que iria à cidade tratar de um assunto particular. Não falou mais nada. Não queria lhe dar motivos para outras perguntas. Confiante, ela não deu muita importância, embora não entendesse o porquê daquela viagem inesperada. Ficou tranqüila, sabia que o esquema que montara para ele não beber mais estava funcionando muito bem.
     Ao chegar à cidade, parou na praça do mercado e se alojou debaixo do pé de jatobá. Em seguida, começou a oferecer o animal em voz alta, como num leilão. Ninguém se interessou. Desconfiadas, as pessoas conhecidas examinavam o animal, mas não compravam. Sabiam que era para a cachaça. Outras acharam o preço alto demais.
     O dia avançava, o calor aumentava e ele não conseguia realizar a venda do burro. Numa última tentativa baixou o preço para R$ 250,00. Foi em vão. Nenhum comprador apareceu. Parecia uma combinação. Ele doido para tomar uma pinga e ninguém queria comprar o animal. Do jeito que as coisas estavam caminhando, voltaria para casa seco, sem tomar uma dose de pinga sequer. Seria a vitória de sua mulher. No entanto, morreria de vontade, mas não venderia o burro por uma ninharia.
     Desanimado, Rosário Calango já se preparava para ir embora, quando apareceram dois malandros dizendo que queriam comprar o burro. Antes, queriam discutir o preço do animal no boteco. Só que eles planejavam dar-lhe um golpe para comprar o burro bem barato. O plano era embriagá-lo, ao máximo, e depois lhe oferecer um preço irrisório pelo animal. Mamado, pensaram, ele o venderia por qualquer preço.
      - Queremos lhe fazer uma proposta.
      - Aceita tomar um trago conosco, no bar ali perto?
Animou-se com aquela conversa e sinalizou que sim. Se tudo desse certo, ali mesmo no boteco, mataria sua vontade de tomar uma pinga.
     Ao entrar no bar pediram uma garrafa de cachaça e três copos. Sentaram e começaram a conversar e beber. Os dois malandros fingiam que bebiam. E cuidando para que ele não desconfiasse de nada, mantinham seu copo sempre cheio. Rosário Calango começou a ficar tonto. Estava desacostumado da bebida. Só não entendia porque estavam ali há muito tempo e os homens ainda não fizeram a tal proposta. Mas, para que se preocupar se havia pinga a vontade. Eles estavam pagando. Nada mais interessava.
     E continuou bebendo em silencio, esperando o fim da conversa. Os rapazes ao notarem que ele já estava bastante alto, ofereceram uma ninharia pelo burro. Ele pensou por alguns segundos, depois encheu o copo e bebeu a pinga num só fôlego. Enxugou a boca com as costas da mão e respondeu de maneira conclusiva:
     - Não estou mais interessado em vender o meu burro.
Os rapazes assustados retrucaram imediatamente:
     - Mas como não está interessado?  Se há poucas horas você ofereceu o burro a nós e a todas as pessoas que por aqui passavam.
Ele se levantou da mesa e cambaleando saiu do bar. Já montando no animal, disse:
- Eu estava vendendo o meu burro para tomar umas pingas. Agora, não preciso mais vender. Já tomei de graça.
 E voltou satisfeito para casa.
 




Vanderlei Antônio de Araújo
Enviado por Vanderlei Antônio de Araújo em 26/09/2007
Código do texto: T670031

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Sobre o autor
Vanderlei Antônio de Araújo
Goiânia - Goiás - Brasil, 75 anos
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