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ACONTECEU NUMA CIDADE PEQUENA

Parece coisa de cinema, mas, foi assim. Aconteceu lá na cidadezinha onde a Dona Maria Julia morava: O Presidente da Câmara de Vereadores fora pego com a boca-na-botija...

O caso se deu porque houve um desentendimento entre ele e a amante, uma socialite metida à gostosa e colunista social, por conta de mais dinheiro e do bate-boca partiram para o tapa. Houve quem testemunhasse o evento e metesse a boca-no-mundo. Contudo, o pior foi que o pessoal descobriu que era uma empresa ligada ao irmão do prefeito quem pagava a conta da amante do Presidente da Câmara e, então, o caldo entornou...

Entendes, não é?

Havia um esquema de corrupção, que existia há muitos anos, funcionando a todo-o-vapor e literalmente sangrava o município nos seus poucos recursos: o Posto de Saúde fedia, pessoas se amontoavam pelos cantos, muitos chegavam ainda na alta madrugada, inclusive idosos e gestantes; pelos corredores, se via pessoas deitadas no chão ou em macas improvisadas, os feridos davam um espetáculo à parte pulando num pé só, arrastando-se com muletas ou carregados por parentes, mas, o que dava mais dó de se ver eram as crianças: febres, prostrações, choros e mães desesperadas. Aquilo era assim o dia inteiro e até um pedaço da noite quando os funcionários fechavam os portões de ferro e cerravam as portas.

Nos bairros não havia ruas pavimentadas, muito menos saneamento básico; era tudo na base da fossa, isso quando os dejetos não escorriam a céu aberto. A água era retirada de poços perfurados nos próprios terrenos, a população sofria com verminoses, dava malária e leishmaniose; dengue a dar-com-o-pé, mas os números oficiais eram somente “números oficiais”, registravam um que outro caso; os casos de malária e leishmaniose, então, nem se quer apareciam nos registros oficiais. Havia peste de ratos. E só concorria em número com as baratas, os pernilongos que infestavam a cidade. Faltava merenda nas escolas municipais e quando havia, eram comuns os casos de alimentos de má qualidade e estragados causando intoxicações às crianças. Não havia cadeiras suficientes, nem giz, nem livros, nem cadernos, mesmo os distribuídos pelo governo, chegavam as mão das crianças, eram desviados e vendidos para comerciantes de papel reciclável. Salário em dia, somente o do Secretário de Educação... Violência? Prostituição? Drogas? Nada a dever para qualquer grande cidade.

No interior, apesar da agricultura forte e muitos pontos de valor turístico, era o caos: estradas esburacadas, atoleiros, pontilhões de madeira precários – na época da colheita, seguidamente caia um caminhão carregado de cereais nalgum córrego, gerando grandes perdas e desperdício de tempo, trabalho e alimentos, acontecera até com cargas vivas, caminhões que transportavam suínos – temia-se pelo transporte de pessoas. Ainda assim, havia pelo menos três pontes de alvenaria inacabadas e, curiosamente, uma que mais parecia um monumento, pois ligava nada a lugar nenhum e sob ela nem água passava, talvez passasse alguma enxurrada na época das chuvas...

O Prefeito estava envolvido, mas, ele jurava de pés-juntos que não sabia de nada e que aquele era um assunto para a Câmara resolver. Quando a coisa esquentava, deu Polícia Federal no caso, viajava para outras cidades ou para outros estados para divulgar as riquezas do município e esperar esfriar os ânimos: aquela história de apostar do princípio da memória-curta do povo, muito favorecida pela morosidade e pela corrupção na Justiça... Entretanto, a verdade é que a sociedade estava de saco-cheio e começaram a “marcar em cima”. Deu investigação particular, diz-que-diz-que, invasão na Câmara, polícia, safanões, sopapos e CPI, ainda que inútil, por causa do número dos parlamentares envolvidos ser maior que o dos homens honestos na Câmara. A população vinha se articulando para criar meios para pré-selecionar os candidatos antes das eleições, mas, os Partidos Políticos igualmente estavam infestados de tranqueiras nas suas diretorias que favoreciam a proliferação de lacaios e paus-mandados ocupando os cargos que deveriam ser ocupados pelos legítimos representante do povo.

Mas, o bicho pegou de jeito mesmo quando a PF desencadeou a operação Fuçando No Esgoto e indiciou o Presidente da Câmara, dois vereadores e alguns Secretários do Executivo. Tratava-se de outro velho esquema de desvio de dinheiro público que envolvia empreiteiras, deputados, vereadores, prefeitos e, diziam, até O Prefeito, em obras de saneamento básico, um caso que passava a divisa de diversos Estados e estava caindo de maduro...

Deve ter faltado grana para o ruge e para o baton, mas, o caso é que a “moça” envolvida ficou famosa da noite para o dia e até quem não havia prestado atenção nas pernas dela, que não eram lá essas coisas sem os recursos modernos da fotografia, passou a olhar para o rabo dela e imaginar coisas... Lembram daquela historinha da lagartixa de rabo colorido que distraiu o seu “lagartixo” ao atravessar a rua despreocupadamente e ele teve a cabeça esmagada pelo pneu de um carro que passava ao tentar salvá-la de ser atropelada? E a Moral da História: por um belo rabo, às vezes, se perde a cabeça, pois é... O rabo dela até então era privado... E ela decidiu mostrá-lo a todos e faturar em cima da tragédia pessoal, tirando uma casquinha e desmoralizando o ex-amante, pousando nua para uma revista masculina muito vista na cidade, sim, mais vista que lida, porque não havia muito o quê se ler nela que valesse a pena o esforço de ser lido.

A cidade parou. Nada mais se fez de novo e nem para melhorar o que tanto de ruim havia. Votações importantes emperraram e a oposição, pousando de salvadora-da-pátria, não dormia à noite fazendo o jogo dos bastidores e procurando tirar proveito para as próximas eleições. Os serviços públicos que eram péssimos, quando existiam, viraram uma verdadeira “merda” e o sofrimento do povo aumentava: assaltos, latrocínios, arrombamentos, doenças, lixo pelas ruas... Entretanto, falando em rabo, o tal Presidente da Câmara, que começara a vida engraxando sapatos de muitos antigos políticos na cidade, trazia dezenas e dezenas de rabinhos-presos-e-amarradinhos, guardados na sua manga. Então, o desfecho que a população esperava ver acontecer não acontecia nunca: nem reza-de-bispo arrancava o homem de lá. A situação piorou um pouco mais, causando revolta na parcela mais consciente da sociedade, quando viram que os ilustres Parlamentares que compunham o Conselho de Ética e gozavam da confiança da população, serviam na verdade ao “Senhor-Sem-Face”, governador dos meandros da Política Municipal.

Quando a tal revista circulou, com a bunda da moça na capa, houve de tudo: a rapaziada do jornal não largava a sua, fazendo piadinhas e comparando as fotos com o que realmente podia se ver no dia-a-dia... As Senhoras da Imaculada Conceição fizeram uma novena pela moral e pelos bons costumes; a velha-guarda, os aposentados que jogavam damas na praça, alguns taxistas, comerciantes, ambulantes e outros representantes da fauna masculina não perderam a vaza para tirarem as suas conclusões e tecerem os mais variados comentários sobre a vida moça e sobre a vida sexual e empresarial de algumas figuras proeminentes da cidade, mostrando bem a vasa da sociedade que pouco ou nada aparece à luz do dia.

Mas, foi sem dúvidas o discurso do Luizão da Dona Maria Julia, um Vereador, no momento sem partido, que acabou virando motivo de riso e de maior revolta ainda por parte dos demais desafetos do homem, visto que ele mesmo não nutria nenhuma simpatia pelo Presidente da Câmara. Cordato e educado, falava manso com todos; ainda que parecesse improvável para um homem que mais parecia um antigo gladiador romano, nunca erguera a voz com ninguém, exceto quando se tratava de criticar alguma atitude pouco louvável de algum dos seus co-cidadãos. Então, o Luizão virava bicho, falava grosso e não media as palavras que achava no seu vernáculo de homem simples. Talvez por isso fosse tão querido pela população.

Numa Sessão lotada de gente e jornalistas, ele aguardara pacientemente pela sua hora de fazer uso da palavra. Quando chegou a sua vez, calmamente saudou a todos e retirou da pasta um exemplar da revista fazendo com ela um canudo, com o qual deu duas batidinhas em cima da mesa, e, devagar, foi se pondo em pé. Mas, à medida que levantava o corpanzil da cadeira, subia-lhe o sangue nas têmporas. Quando iniciou o seu discurso, já brandia a revista feito uma espada ou clava na mão e a sua voz era a voz de um guerreiro no calor da batalha:

- Meus queridos cidadãos!

Vociferou com tamanha eloqüência que no intervalo do seu fôlego dava para se ouvir uma mosca cruzar o ar, e desatou a falar como o troar de canhões travados no alvo.

- Eu pergunto se nós merecemos uma coisa dessas?

E olhava para a revista no alto da cabeça:

- Aonde foi parar o respeito por esta cidade? O que mais teremos que ver ainda? Já não chega o que fazem com o povo, montando verdadeiras quadrilhas? Nos roubando até de dia e mantendo-se no poder às custas dos rabos-preso?

- Vossa Excelência, contenha-se! Está passando dos limites!

Apartou o Presidente.

- Limites? Que limites, Vossa Excelência? O limite de estar de saco-cheio dessa pouca vergonha que a nossa Casa de Leis está oferecendo ao povo através do seu Presidente?

O Presidente, batendo um sinete nervosamente:

- Vossa Excelência quer induzir o povo a acreditar que tenhamos cometido crimes ou que ainda os estejamos cometendo e isso é inaceitável! Eu não vou permitir!

Vaias no plenário que parecia estar ainda mais lotado.
Luizão olhou para o povo e o silêncio ficou mortal.

- Vossa Excelência vai me impedir com o quê? Eu não tenho rabo-preso com ninguém!

- Vossa Excelência está faltando com respeito para com esta Casa!

Retrucou o Presidente.
Mais vaias. Mais uma olhada do Luizão. Silêncio entrecortado por algum pigarro.

- E Vossa Excelência falta com o respeito para com toda a cidade!

E mostrava a revista, brandindo-a no ar.

- Se Vossa Excelência não se contiver, serei obrigado a suspender a sessão!

Ameaçou o Presidente.
E toma-lhe vaia!
Luizão botava-fogo-pelas-ventas e o plenário o aplaudia e o instigava a dizer o que estava travado na garganta de muitos. Ergueu a revista e um silêncio fervente se fez, parecia que os vitrais das janelas iriam trincar.

- Já não chegam as barbaridades que fazem nos bastidores, e Vossa Excelência ainda nos brinda com isso!

Bradava, agitando a revista no alto e continuando num só fôlego:

- Perderam a noção? Perderam o respeito por nós cidadãos?

- Vou suspender a sessão e pedir que a Força o retire desse Plenário!

Gritou o Presidente, ameaçando.
Silêncio. A platéia parecia vitrificada.

- Pois faça o que Vossa Excelência achar que deva fazer! Mas que eu vou dizer o que tem que ser dito isso eu vou! Nem que seja atrás das grades!

Uma movimentação de PMs começou perto da porta principal, mas, havia tanta gente que quase não os deixavam passar. Enquanto o Luizão dizia com todas as letras o que muitos ali queriam dizer.

- Que Vossa Excelência está fodendo com o povo, todos nós já sabemos! Mas botar as vossas sacanagens íntimas expostas na rua é pura falta de vergonha na cara!

- Vossa Excelência será detido por falta de respeito com a Presidência!

Bradava o Presidente em meio a um verdadeiro tumulto no plenário, enquanto a polícia tentava chegar à frente da mesa.

- Em que cidade estamos vivendo que fazem o que fazem com o povo e ainda por cima vêm expor as suas sacanagens íntimas para faturar mais dinheiro, nos esfregando a boceta da amante na nossa cara? Ela só tem a bunda para nos mostrar?

O Plenário explodiu: gritos de opiniões, gargalhadas e vaias, enquanto os Policiais lentamente atravessavam a massa humana.

- É! Você pensa que a bunda dela vai distrair o povo?

Gritava um.

- E nem é tão boa assim!

Berrava outro.

E mais outro:

- Eu já vi de melhor até no Zona!

A cidade era famosa pelo Zona Tropical, um esquema de garotas de programa que atendia festinhas de empresários e de políticos nas suas comemorações privadas, depois de costurarem seus acordos e fecharem seus negócios. Além disso, atendia qualquer cidadão que estivesse necessitado de dar uma bimbada e, comentava-se, havia garotas que atendiam algumas senhoras que gostavam mais de meninas que de meninos... O Zona Tropical era comandado por uma ex-vereadora do mesmo partido do Prefeito e, segundo comentava-se, amante do Delegado da Civil. Na prática, era um disk garotas...

Um coro de fundo embalava cadenciadamente a gritaria:

- Corno! Corno! Corno!...

Mais um aos berros:

- O que você quer que ela faça? Que cague na nossa cabeça?

- Chega de merda! Chega de sacanagem! Dignidade já!

- Caia fora!

O coro:

- Fora! Fora! Fora!...

O tempo fechou. Desligaram os microfones da Casa.

O Luizão ainda gritou:

- Manda a sua mulher tomar vergonha na cara! Nós merecemos respeito e dignidade!

A turma do deixa-disso puxava o Luizão para um lado e o Presidente era levado para a cozinha, mas, ainda deu para ouvir o homem gritando com o dedo apontado o dedo para o Luizão:

-Cala a boca! - Cala a boca! - Seu filho-da-puta! - Ela me sacaneou!

Os PMs chegaram à mesa e o Luizão saiu calmamente rodeado por eles, sem que ninguém precisasse lhe por as mãos, o povo abrindo espaço, ovacionando-o e seguindo-o num verdadeiro cordão humano. Na rua a multidão que gritava o seu nome em coro:

- Luizão! Luizão!  Luizão!...

Na DP, ele saiu pela porta dos fundos, prometendo que não voltaria à Câmara naquela noite.  Ganhou uma carona de camburão, enquanto o Tenente acalmava a multidão lá na frente dizendo que o Luizão já havia sido liberado e que todos fossem para casa. Mesmo assim, foi preciso levar para dentro da Delegacia uma comissão para que dessem uma olhada e deixassem todos tranqüilos.

Cinco quarteirões abaixo, dentro do camburão.

- Aqui, aqui! Dobra aqui, Adriano.

Disse Luizão para o PM que dirigia a viatura, apontado uma rua diferente do rumo da sua casa.

- Ué! Você não vai para casa, Luizão?

- Capaz. É muito cedo! Vou tomar uma gelada no Bar do Armindo e depois vou dar uma caminhada pela Praça Tamandaré, fazendo a volta até em casa.

Disse, fazendo uma curva com o braço no ar, desenhando o traçado do seu intencionado passeio noturno.

- Se eu chegar numa hora dessas em casa vou deixar a mãe com a pulga-atrás-da-orelha... Ela vai desconfiar que eu andei falando besteira na Câmara... Sabe como ela se preocupa com essa gente.

Ele era da paz, o Luizão.

Três semanas depois sairia uma segunda edição da tal revista, com novas fotos da moça e uma entrevista revelando detalhes da intimidade do casal.

O Presidente da Câmara, cada vez mais agarrado ao cargo, mais parecia um morcego vampiro agarrado à jugular de uma vaca trôpega e exangue.

Dona Maria Julia vendeu a casa, juntou mais algumas economias e mudou-se  para bem longe dali, noutro Estado, foi para um lugar chamado Porto Seguro; abriu uma pousada chamada Esper, com um pequeno restaurante anexo, levando o seu filho embora com medo de que alguma coisa de mal lhe fosse acontecer naquela cidade.

O Luizão cuidava de tudo e continuava sendo muito querido, apelidaram-no de O Diplomata da Pousada Esper.
Chico Steffanello
Enviado por Chico Steffanello em 06/10/2007
Código do texto: T683111

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