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Cecília



 “Cecília! Anda menina! Deixa de moleza! Todo dia a mesma coisa!”
Esbravejou a sua mãe. Mal sabia que a coitada era só canseira. Nem ela mesma desconfiava do porquê de tanta dificuldade em subir ladeira. Suas irmãs caminhavam ligeiro. Passavam por ela, rindo, fazendo pouco da sua vagareza. A lata d’água pesava na cabeça. Às vezes soltava-lhe a rodilha. Tinha que fazer esse mesmo caminho quatro vezes ao dia senão a mãe lhe açoitava. Já tinha feito isso antes. Já havia se acostumado com as surras.
“Parece um jumento empacado! Todo dia a mesma coisa!” A mãe repetia.
 Assim todo dia Cecília fazia o seu caminho do córrego até a sua casa, que ficava no cume do morro, sofrendo de reclamação em reclamação. Nem por isso se queixava! Só queria saber por que era diferente. Não suportava peso, doía-lhe o corpo inteiro. Ainda assim continuava. Faltava-lhe o ar. Procurava então respirar fundo e continuar com seus passos miúdos, acabrunhados.
“Cecília! Cecília! Toma jeito menina! É assim que você quer arrumar marido? Não pode nem com uma lata d’agua na rodilha!” Em todo percurso sua mãe lhe cobrava vivacidade.
 Respiração ofegante, Cecília se fazia de muda, enquanto por dentro do seu peito franzino, sentia a dor latejante de ser como era. Queria ser como uma de suas irmãs apressada: Subia a ladeira com a lata sobre a rodilha, com tanta elegância que parecia desfilar entre o caminho de curvas e relvas. Nem tocava os pés na beirada do caminho. Cabeça erguida, pescoço esticado. Pulmão cheio de ar e respiração sem cansaço. Por que era tão diferente? Menorzinha! Coitadinha! Lesma! Cecília se perguntava sem encontrar nenhuma resposta que ajudasse a compreender um pouco de si mesma. Era todo dia a mesma coisa. Era a vida de Cecília. Lata d’água na cabeça, dor, lamúria, fraqueza! Era caminho de roça. Não adiantava se lamentar. E foi assim por toda a sua meninice. Suportando a lengalenga da sua mãe e as chacotas de suas irmãs.
Cecília cresceu, casou-se, teve 12 filhos. Tinha marido severo, Seu Joaquim, mas não a forçava carregar lata d’água na cabeça. Viveu vida inteira a cuidar da filharada. Era mulher de fibra. Mulher trabalhadeira. Cansava facilmente sim. Mas nunca parava de labutar. Ajudava o marido a criar seus pimpolhos. Todos eram sãos. Não tinham canseira. Labutavam na roça. As filhas meninas a ajudavam em casa. Lavavam roupa, pratos, no mesmo córrego. Carregavam lata d’água na cabeça, sem canseira. O marido era caçador. Volta e meia trazia uma caça. Alimentava a todos. Gostava da cabeça do bicho que abatia. Comia os miolos. Era só dele. Defendia-o como um cão bravo. Ai daquele que chegasse perto! Todo mundo de barriga cheia. Isso era sim o que importava. Cecília era boa cozinheira com suas panelas de barro e seu fogão a lenha. Orgulhosa, servia aos seus rebentos com um sorriso largo nos lábios.
“Cecília! Anda mulher! Larga de moleza! Tem que vê o Doutor. Vamos pra cidade. O homem tá esperando”.
Cecília se apressava, embora estivesse doente. Bem devagarzinho foi vê o doutor. Fez um monte de exames. Tinha mesmo era problema de Mulher. Mas o doutor mandou também tirar chapas do peito. Passou remédio e mandou que voltasse para saber do resultado. Marcou o dia.
O tempo passou e era chegado o dia de Cecília voltar ao Doutor. E assim foi. Chegando lá o doutor disse:
“Dona Cecília, a sua radiografia...” Ela nem sabia o que era isso. Ele adiantou:
“A senhora não tem um dos pulmões. A senhora já sabia disso?”
“Pulmão Doutor Alfredo? Pra que serve?”
          “A senhora respira por eles, é como dois foles embaixo das costelas. Todo mundo tem dois, a senhora só tem um”
          “E como eu tô respirando?” Perguntou assustada com a notícia.
“A senhora se acostumou com um só. Parece que nasceu assim. Não tem vestígios de nada. Se a senhora tivesse descoberto isso mais cedo... Qualquer médico teria até lhe aconselhado evitar de ter tantos filhos, talvez nenhum. Era um risco só”.
“Vixe Maria Doutor! Eu sempre sentir uma canseira danada, desde menina. Sempre fui motivo de chacota. Não podia com a lata d’água na cabeça. Até a minha mãe caçoava de mim”.
“Pois é. Agora a senhora sabe o porquê do seu cansaço. Eu imagino quanta injustiça tenha sofrido por causa dessa dificuldade de respirar. Mas, a senhora está aí viva; mais do que nunca. Com saúde, e já tem 76 anos de idade. Isso é motivo de alegria. Filhos robustos! Bem apessoados! Bons meninos e meninas! Certamente nenhum deles tem o seu problema”.
“Uma vez Doutor, menina, quando torrava café, senti uma dor aguda nas costas. Antes não sentia canseira, depois então passei a sentir fraqueza e respirava com dificuldade, não sabia o que era. Acho que estoporei”.
 “Pode viver normal Dona Cecília. Com a sua idade é melhor não fazer muito esforço. Vá para casa e agradeça a Deus, ele foi generoso com a senhora”.
Cecília seguiu o seu caminho. Com o coração triste a remoer o passado. Era mesmo diferente. Mas era mais forte do que todos. Nunca se queixou de nada. Era mais devagar, mas sempre foi feliz. Lembrou da mãe e dos irmãos. Pediu a Deus que os perdoassem, pois eles não sabiam de nada. Ignorantes quanto eram, acreditavam ser preguiçosa, cheia de manhas. Isso lhe valeu até algumas sovas.  Seguiu viajem, com passos lentos, respirando bem devagarzinho!  Enxugou as lágrimas que escorriam pelo o seu pálido rosto,  procurando  esquecer do passado.

                         



Ivan Amado
Enviado por Ivan Amado em 15/10/2007
Código do texto: T695219

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Sobre o autor
Ivan Amado
Alagoinhas - Bahia - Brasil
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Ivan Amado