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Pretinho e os homens

É incrível como o ser humano quer ser tão diferente dos outros animais. O seu argumento é até válido: a capacidade de raciocinar... Mas provavelmente este seria o único, assim como uma fêmea libera hormônios no ar, as mulheres inconscientemente levam a mão à cabeça, supostamente ajeitando os cabelos, mas na verdade elas estão levantando o braço para que o seu cheiro saia com mais facilidade espalhando assim suas substâncias no ar. Mas não quero escrever nada científico, e sim contar sobre como, neste exato momento, percebi que somos bastante parecidos com nossos amigos "irracionais".
Pretinho veio a nós há alguns anos, como todo novo hóspede foi coberto de mimos, o seu pêlo ao entcontrar com o sol refletia lindamente indo o reflexo de sua cabeça à sua cauda. Sendo ainda um filhote passava as tardes correndo de um lado ao outro do meu quintal arfando como se aquele fosse o último dia da sua ainda pequena vida. Ao crescer um pouco (o que esta última palavra refere-se somente a sua idade) já era um moço respeitável com porte bem adulto, assim como todos os pré-adolescentes que sentem o direito de não ser mais chamados de crianças, ah, não existia jovem mais lindo que o meu Pretinho...
Não, ele não morreu, o motivo pelo qual uso tantos verbos no pretérito é que alguns meses atrás quando um terceiro filhote foi adotado pela minha família, cachorro tão cruel que parecia estar destinado a ser muito maior, não se conformava em obedecer aos outros dois, nem mesmo a nós, seus donos. Antes de completar um ano já era um monstro gigante, uma máquina sem sentimentos que transferiu seu comportamento ao mais velho, que apesar de sempre ter sido fiel devido a tantos anos aqui sucumbiu aos desejos da criança mimada.
Aqui começa o fim do grande e vistoso Pretinho, que por ser tão inocente sempre queria brincar com o novo amigo, mas não sabia ele que este amigo era bem mais forte, apesar de ter somente metade da sua idade. Antes do trio, ele gostava de latir no portão que fica em frente à rua principal, rua que passa a maioria dos estudantes do bairro quando vão à escola; ao assustá-las ele dava uma volta ao redor de si mesmo, com o peito tão inchado de alegria que quase dava para ver um sorriso naquela boca enorme. Agora ao ir ao portão os outros dois não o deixam fazer aquilo que mais lhe agradava, e além disso começava uma briga interminável dos dois contra o Preto, um puxando pela perna, o outro pela cabeça, fazendo um barulho ensurdecedor que pode te acordar mesmo no teu sono mais profundo. Estas brigas continuaram e foram tornando-se cada vez mais intensas, ao ponto de abrir uma ferida enorme no alto da cabeça dele, ferida que até hoje não sara, que o fez ficar separado dos outros pela madrugada. Este não é mais o meu Pretinho. O corpo, agora esquelético, não reflete mais o sol como antes, as pernas trêmulas não sentem mais vontade de correr e assustar a quem passasse na frente.
Mas sei que aquele que antes era uma espoleta ainda se encontra dentro daquele coração de cachorro. Todos os dias ao sair de casa ele está pronto para me dar um "bom dia!", "boa aula!", apesar de não conseguir mais ver aquele "quase-sorriso" percebo que dentro dele ainda existe uma vontade de voltar a ser o que era antes... Aqui venho dizer porque me identifico, mesmo com todos contra você, mesmo com várias pessoas te machucando, te passando a perna, te fazendo sentir inferior, lembre-se que ainda existe uma pontinha de esperança de que algum dia tudo pode mudar.

Hoje ao voltar da escola vi que a ferida estava ainda maior.
Thatha Vieira
Enviado por Thatha Vieira em 17/10/2007
Código do texto: T698191

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Sobre a autora
Thatha Vieira
Fortaleza - Ceará - Brasil, 29 anos
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Thatha Vieira