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Poetizando

Poetizando.


Fosse eu um poeta...
E talvez tudo fosse mais simples de resolver.
Mas se eu fosse poeta
Para despoetizar a vida,
Que graça teria ridicularizar
Aquele que ainda crê
Na força da poesia?

Ah! Eu não poderia ser tão medíocre
Em arrancar de um homem
O único sopro de esperança
Que lhe resta em meio à dessemelhança,
A que lhe atira tanta desigualdade
E tanta desconfiança?

Eis o poeta! O louco veraz,
O anti-social, o perturbado, o mal amado...
Aquele que tudo vê
E nada sente que não seja ilimitado;
Inclusive e principalmente a dor.
A dor social que denuncia,
No desenho, na arte, na música...
E em todas as comoventes palavras que usa
Em seus mais belos e perfeitos sonetos de amor.
Dum amor insane, pelas misérias que contempla.
E contra as quais luta desesperadamente;
Tentativa frustrada de fuga.
Uma fuga aparente; fuga mental
Do fogo que lhe consome os versos descontentes.

Mas, não fosse ele; não fossem eles?
Loucos, marginais, apaixonados, lunáticos...
Não fossem eles que transformam beleza
Em martírio; dor e sombra em leveza;
Ódio ferrenho em amor profundo...
Ah! Não fossem eles para ensinar ao mundo
Como despoetizar a vida que por si só,
Já é tão bela na sarjeta, na calçada abandonada,
Na praça alagada em dia de temporal,
Na doença e no descaso que invade os homens
Que não são nada; e que não gritam seus males
Porque têm medo de serem chamados loucos,
De serem chamados, poetas!

Se fosse eu poeta,
Nenhum rato de esgoto entraria em minha casa
Depois da chuva, pois eu o esmagaria
Com a fúria de quem ama e não pode amar;
Com a fúria de quem vive sem saber por que;
Com a fúria de quem tem vergonha de nada ser,
Porque sequer identidade pôde receber,
Pois seus pais que um dia, o chamaram louco -
Por ser ele um garoto que desejava ser feliz -
Infelizmente morreram na dor de não saber ler.
Que por muito pouco, perderam a vida despoetizada:
No cabo duma enxada, sem registro,
Sem conhecer o filho marginal que botaram no mundo
Para despoetizar sua história e sua dignidade,
Atrás das grades de uma prisão sem paredes,
Onde o sol não nasce quadrado... Pois foi despoetizado
Por sua loucura em tentar ter uma vida,
Onde sua poesia fosse solução para toda
Desgraça revivida num poema que despoetiza
Que mata que fere e que parece nunca bastar
Para dizer que se ele fosse poeta, sua arma chegaria
Para mostrar aos homens que apesar de sua poesia,
Ainda haveria muita sangria que somente o amor
Poderia tudo ajeitar.
E ele não mais precisaria a vida despoetizar
Com realidades tristes que só quem foi poeta um dia,
É capaz de esquecê-la em sua louca loucura louca.



                                                        São Paulo, 15/12/2006.
Eliane Santana
Enviado por Eliane Santana em 18/10/2007
Código do texto: T699877

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Sobre a autora
Eliane Santana
São Paulo - São Paulo - Brasil, 41 anos
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Eliane Santana