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O toque

A vida é uma sequência de toques. Fortes e fracos, evidentes e subtis, de pessoas e de coisas, no corpo e no coração. Nela, muito do que existe passa ao lado, não interessa. Não sendo “bom” nem “mau”, não nos toca verdadeiramente. É efémero e, embora percebido nunca fará parte de nossa vivência.

Madrid. Um camisolão da “Pull and Bear”, “jeans” e sapatos de “vela” conferem ao homem um aspecto prático e informal. Junto ao fontanário e um pouco alheado dos transeuntes que passam, cabelo e barba compridos onde aparecem algumas “brancas”, os olhos observando, a mente comandando uma mão que escreve no pequeno dispositivo, ele está, actua e espera.

Tem algum tempo ainda – três quartos de hora - antes de se colocar a caminho para estar no sítio certo à hora marcada. Talvez vá de metro, talvez de autocarro – não sabe, não decidiu. As crianças, essas vão ficar felizes (como sempre) por ver chegar o tio de barba branca e atitudes pouco convencionais.

“Hei, pode indicar-me o caminho para a Plaza Maior?”

A frase da mulher, atirada assim, de chofre, aturdiu, projectando-o para dentro de si mesmo, fazendo recuar quinze anos atrás. Neste espaço de tempo ele vê-se na pele do jovem físico promissor e inexperiente que era então.

“Posso sim”, disse, solícito. “Desculpe, pareço atrevido ao dizer isto mas você, você faz-me lembrar alguém. Uma pessoa que encontrei aqui neste mesmo lugar vinte anos atrás”.

“Como é? E foi importante esse encontro?” disse a cara morena, espantada.

Filipe riu com um riso franco e gentil, removendo todos os receios da estranha. “Foi sim. Muito. Tem uns minutos? Eu conto-lhe como tudo se passou”. Não necessitou esperar resposta porque entretanto ela sentara-se a seu lado e era “toda ouvidos”. Começou a relatar o que tinha sucedido.

Sabe, eu era muito jovem, tinha terminado o curso de física no Instituto Superior Técnico em Lisboa. Estava de chegada à capital espanhola para visitar a minha irmã, Rita, a qual estudava informática na “Universidad Complutense”. A minha cabeça zunia com o “stress” - era um rol de preocupações. Não sabia o que fazer, o que escolher. Se por um lado, o professor Ribeiro me oferecia a oportunidade de continuar na Universidade e iniciar carreira como investigador, por outro, a proposta de uma empresa importante perseguia-me. Estava confuso. Com a pequena mochila, tinha-me sentado junto a este fontanário - este mesmo onde estamos agora. Quando a vi, fui igualmente visto.

Ela estava de ténis e fato de treino, o lenço colorido quase ocultando por completo os cabelos pintados de vermelho claro. Segurava na mão direita a trela extensível na extremidade da qual surgiam quatro patas e a cabeça irrequieta de um caniche. O bicho deve ter antipatizado comigo e arremeteu, mijando nas calças sem qualquer pudor. A dona disse, toda sorrisos

“Desculpe, ele é mesmo assim, atrevido. Anda cá Miguel Angelo.”
Estava pensando no que iria fazer em seguida - ainda não tinha esboçado reacção, quando ela voltou à carga

“Deixe cá ver, você, essa cara… deve chamar-se António. Não, talvez Manuel. Sempre tão práticos esses… Acertei?”

Sabe… fiquei um pouco embaraçado, confesso. Como bom tímido que era, estranhava sempre investidas repentinas. Consegui no entanto atirar o “Hum… não, Filipe. Filipe Oliveira”. A resposta veio pronta, juntamente com a careta

“Filipe? Ah… não tenho experiência em Filipes. Quer dizer, ainda não. Ajuda-me aqui, querido.”

Agora sentara-se a meu lado e tinha largado a trela, deixando o bicho desaustinado, dando voltas e voltas, tentando morder aquele apêndice que saía do pescoço e se arrastava pelo chão. E como se não bastasse ainda pedia ajuda para descalçar os ténis.

Não sei porque não virei as costas e deixei o personagem estranho falando sozinho. Na verdade, nos momentos que se seguiram, foram várias as vezes em que pensei faze-lo. Mas ela parecia adivinhar e de alguma forma antecipava-se sempre às minhas intenções juntando este ou aquele motivo de interesse ao diálogo. Era tão diferente de todos os amigos e amigas que conhecia, cujos planos e objectivos pessoais secavam rapidamente a conversa. Que falavam e falavam, bombardeando com perspectivas e metas pessoais, deixando-me praticamente só com o papel de ouvir. Ao fim de um pouco já era eu quem mais falava. Louco não é? Confidenciei a uma estranha as minhas conquistas, receios e preocupações. E ela ouvindo tudo com paciência e atenção pouco opinou, quase não se pronunciava. Por fim, encostou-se a mim e senti a mão entrar pelo bolso do casaco colocando lá algo. Disse:

“Depois, só depois, olha para isso que coloquei no teu bolso e decide o que fazer”.

Piscou-me o olho, atirou-me o beijo e eu, parvo, não disse nada. Não saberia encontrar reacção, resposta apropriada. Assim, fiquei parado observando os dois vultos que se afastavam rapidamente, unidos por aquele fio de trela, irrequietos e imprevisíveis. Diminuindo, tornaram-se pequenos ao meu olhar, a distância transformando-os em não mais que pontos minúsculos. Desapareceram.

Como que acordando de um sono letárgico, voltei a mim e às preocupações mundanas. Era tarde. Rita devia estar preocupada. Pensei: “Que raio, que irresponsabilidade a minha”. Levei a mão ao bolso para encontrar a falta dela. Da carteira. Olhe, se a mente falasse, todos teriam ouvido o chorilho de impropérios que me veio à cabeça. Depois de lhe ter chamado mentalmente todos os nomes excepto santa, lembrei-me do que a tipa tinha dito. Afundei a mão e retirei das calças o papel. Nele estava escrito

“Sei que estarás com raiva de mim, que me terás chamado todos os nomes excepto santa, que pensas não passar de uma ladra, uma vagabunda. Deves estar confuso pois tal não corresponde à imagem que fizeste, à impressão deixada pelo nosso contacto mas… afinal que sabes sobre imagens não é? Tenho algo que te faz falta e a vida será talvez feita de faltas. Proponho-te o seguinte: Vem tomar um copo comigo esta noite e devolvo todos os teus pertences. Ah… e ainda pago eu a despesa! Mas terás de fazer uma escolha…”

“Escolha? Quer dizer que ela ainda teve o desplante de lhe propor um jogo?” disse a mulher, que até essa altura se tinha limitado a escutar.

“Pois é” continuou Filipe. “E olhe, ainda pensei ir à polícia mas depois acabei por aceitar entrar no joguinho”. Olhou para ela notando a curiosidade e  prosseguiu a narrativa.

O desafio que ela me colocava era simples. Entre dois lugares que distavam vários quilómetros tinha de acertar aquele onde ela estaria exactamente às onze da noite. Não disse à Rita que tinha perdido a carteira mas pedi-lhe algum dinheiro emprestado. Eram umas dez menos um quarto quando saí. Tive de apanhar dois transportes, cheguei a julgar não conseguir estar lá a tempo mas uns minutos e umas corridas depois chegava – ofegante.

O “mezon” estava animado mostrando que em matéria de vida nocturna, os “madrilenhos” não deixavam créditos por mão alheia. Sobre as mesas toscas as caras deles fitavam, meio zonzas, os copos de vinho tinto e queijos e fritadas. E bebiam e comiam e dançavam ao som do acordeão. Tudo com muito ruído, e forma bem animada. Ao fim de procurar por uns segundos descobri-a; estava numa mesa, juntamente com os dois tipos. Competiam com os outros convivas a ver quem falava mais alto e ria mais.

Aquele momento foi difícil para mim. Sabe, sempre fui um pouco tímido e senti-me atrapalhado com a situação. Mas, agora que estava ali, não ia voltar para trás de mãos vazias. Abri caminho por entre as mesas e encarei os três. Apontei e proferi

“Olá Marta. Pelos vistos não conseguiste ver-te livre aqui do Português. Quero o que é meu”

Então aconteceu o que menos esperava. Olharam os três para mim, apontaram-me com os dedos, entreolharam-se e atiraram a cabeça para trás, rindo a bandeiras despregadas. Já imaginou a situação? Confrangedor. Estava a afinar com aquilo quando o gajo de bigode disse “Outro. A tua irmã anda imparável. Este mês já vai no terceiro.” e prosseguiu “Olha amigo, estou a ver que conheceste a irmã gémea dela. Meio maluca não é? Ainda não viste nada. Senta-te aqui, bebe um copo connosco e ficas logo a conhecer esta que é bem pior ”. Foi tudo quanto disse antes de se comprimir na dor, experimentando a pisadela do salto alto afiado, em bico.

Respondi com um “Não, obrigado” e voltei as costas. Pelos vistos tinha tomado a opção errada. Considerei a hipótese de ficar por ali mas abandonei-a rapidamente. Não estava com grande disposição para festas. Preparava-me para voltar quando ouvi

“Filipe, já vais embora? A noite ainda vai começar…”

Virei-me e vi-a. O aspecto era cuidado, o ar sofisticado nada tinha a ver com a Marta do encontro da tarde. Mais uma vez ela adiantava-se e surpreendia.

Bem… poupando-a a detalhes, ela puxou-me dali para fora e fomos os dois pela noite dentro, aqui e ali. Em cada nova paragem, amigos e amigas dela introduziam conversa fiada. Às tantas cansámo-nos daquilo e fomos os dois ficar sozinhos. Ah… não! Não lhe conto os pormenores…. rs. Foi diferente, muito bom. Um toque inesperado, subversor na minha vida. E recuperei a carteira.

“E depois? Deram seguimento a essa relação?” disse a cara, vivamente interessada em saber o desfecho.

“Não. Nunca mais a vi.”

“Hum… deixe-me adivinhar. Esqueceu-a e depois de uns dias com a sua irmã, decidiu-se pela carreira de universitário. Acertei?”

“Não. Não poderia estar mais enganada. Depois daquela noite as coisas ficaram claras para mim. Decidi não ficar mais vivendo a vida dos outros, fazendo apenas o que os eles queriam ou o que era mais fácil, copiando ditado ao invés de escrever meu próprio texto. Há um pormenor que não lhe contei. Um pouco antes de fazer a viagem tinha iniciado um curso de pintura e foi amor à primeira vista. Por falar nisso… ” disse, soltando o sorriso franco, acolhedor.

Apesar de estar atrasado, estendeu-lhe a mão e o convite, dizendo

 “Tenho que ir buscar dois pestinhas. Venha daí. Tomamos uns sorvetes todos juntos e depois, depois se ainda estiver a fim passamos pela minha galeria e mostro-lhe  algumas das últimas criações”

Márcia considerou a proposta. Porque não? Afinal de contas ainda tinha uma semana inteirinha antes de voltar para o seu “atelier” no Rio de Janeiro. A “Plaza Maior” não ia mudar de lugar. Sorriu sentindo-se tocada por aquele encontro inesperado. Encostou suavemente a sua mão na dele, puxando-a um pouco para si. E ouviu-se dizer (não sem alguma surpresa)

“Está bom. Então indica você o caminho. Agora… porque não me fala um pouco mais dessa sua actividade de pintura?”
José Espírito Santo
Enviado por José Espírito Santo em 03/12/2007
Código do texto: T763697

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Sobre o autor
José Espírito Santo
Portugal, 51 anos
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