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À Flor da Pele

"Quando eu dei por mim, nem tentei fugir...” Era esse trecho de uma canção que Daniel ouvia em seu carro enquanto se preparava para suicidar-se. Segundo ele, motivos tinha de sobra, ou melhor, um único motivo que valia por muitos : amor não-correspondido. Daniel culpava-se por não ter conquistado a mulher de sua vida. Tentara encontrar, por várias vezes, motivos que a fizeram se afastar dele. Trabalho, talvez? Já que era uma importante empresária. Dona de uma rede de lojas de conveniência, dessas que só vendem acessórios pra mulheres e que têm propaganda durante os intervalos da novela das oito. No entanto, o que mais incomodava mesmo era o descaso dela para com ele. Ele se sentia excluído da vida dela; sentia-se impotente como uma pessoa que apesar de ter conseguido tudo na vida, não conseguia manter o amor verdadeiro que sentia por uma mulher à altura dele.

Uma mulher à altura dele sim, pois nunca entendera a razão de ter se casado com Simone, uma simples professora primária, que dedicava o seu tempo ao tricô e aos afazeres do lar. Não tinha uma mulher em casa, tinha uma doméstica. Por mais que Simone fosse uma esposa ideal, daquelas que todo mundo qualifica como prendada e que ouve aqueles comentários: “está pronta pra casar!”, Simone não era o tipo de pessoa que completava Daniel totalmente. Qualquer homem decente daria a alma para tê-la ao lado, mas não Daniel. Ele sempre reclamava, pois, aparentemente, ela não tinha defeitos, era boa mãe, boa esposa, boa profissional, enfim, era boa. Boa demais. Mas não passava disso. Era boa demais, mas apenas boa. Boa demais na dedicação, apenas boa no sexo. Por vezes Daniel procurava motivos, pretextos para arrumar uma briga com Simone, mas não encontrava. Ela era perfeita demais...Perfeita não! Boa. Daniel se mordia por dentro observando a vida rotineira de sua esposa, a mesma que ele acompanhava de perto todos os dias, a mesma vida repetitiva a qual estava fadado, apesar de sempre ter abominado esse estilo padronizado de viver. Simone chegava da escola municipal onde trabalhava e ia se trocar, não antes de abrir um pequeno baú rosa que ganhara de sua mãe quando criança, agarrar-se a um terço e rezar por ter chegado bem em casa. Daniel não sabia o porquê, mas sentia ódio, raiva e despropósito ao ver aquela cena infantil e pura que ele nomeava de ritual patético. E isso já bastava para Daniel. Principalmente quando a comparava com Carolina.

“Carolina é uma menina bem difícil de esquecer”. Outra canção no carro rumo ao nada, ao desconhecido...Ou melhor, ao conhecido destino da morte. Conhecido sim, pois Daniel já provara o gosto amargo de perder a vida, assim que perdeu Carolina.

Conheceram-se em uma exposição de Daniel. Ele era um artista plástico renomado pela mídia e pela elite carioca. Tinha várias especializações e divulgava seu trabalho sem qualquer problema, não importasse com quem teria que dormir pra conseguir isso. Carolina não suportava todas essas chatices culturais, dizia que tinha mais o que fazer. Porém, naquela semana em que se conheceram, Daniel expunha a obra: “Sempre mulher” pinturas e esculturas sobre a trajetória da mulher brasileira até chegar à liberdade e ao sucesso. E, Carolina, comprometida com sua imagem de empresária bem-sucedida, não poderia faltar, sem contar que não conseguia livrar-se da pressão de seus assessores para comparecer ao evento.

Esbarraram-se e, por pouco, ela não derramara vinho sobre ele. Após um pedido de desculpas, apresentações e um sorriso de ambos, ela comentou: “uma chatice isso, né?”. Lógico que não sabia com quem estava falando. Daniel logo pensou em dar uma resposta atravessada, mas por algum motivo, controlou-se e perguntou: “Acompanhada?” E ouviu a seguinte resposta: “Quem dera!”. Daniel, além de lindo, era totalmente galanteador, não deixou a brecha escapar: “Creio que não por falta de oportunidade”. Carolina, sentindo-se pré-envolvida pelo charme de Daniel, abria mais o terreno: “Talvez por falta de convite”. Ambos sorriram novamente e Daniel deu-lhe o braço para cruzar com o dela. Foi quando avistou Simone e disse à sua nova conquista: “Adoraria ser seu par, não apenas por hoje, mas sinto informar-lhe de que sou casado”. Daniel sentiu um ódio profundo ao avistar Simone como se ela fosse a causa de todos os seus problemas. Foi quando ouviu de Carolina: “Essa situação só o torna mais excitante!”.

Trocaram telefones e combinaram de se encontrar no dia seguinte. Daniel sempre foi muito atraente, mas Carolina nunca foi a mais bonita da classe, mesmo assim, existia algum ingrediente desconhecido que a fazia tão especial e tão linda. A exposição foi um sucesso. Daniel era só sorrisos e Simone, uma acompanhante perfeita. Apenas uma acompanhante. De vez em quando, olhares se entrelaçavam. Daniel corria os olhos pelo museu a procura de sua nova e encantadora surpresa, e a encontrava sempre perto de uma pintura bela. Pintura que era inspirada nela. Pela primeira vez, Daniel conseguia dar sentido às suas pinturas que antes eram somente técnicas, mas agora carregavam um sentimento.
...
Simone chegara em casa. Direto para o seu baú rosa, abria-o, pegava o terço, rezava e ia falar com seu marido. Daniel sentia nojo daquela mulher, mesmo sem entender direito a razão. Só tinha uma explicação: falta de amor. Mas nem se importava tanto. Seus pensamentos estavam conectados a uma única pessoa: Carolina. Ela era tão meiga, mesmo com a aparência de mulher forte e decidida. Não esperou. Ligou para ela e eles se encontraram. Foi o dia mais perfeito e mais intenso da vida dele. E ele tinha certeza de que era igualmente especial para ela. Desde então, se encontravam com freqüência, iam a teatros, cinemas, confeitarias juntos. Só não iam a museus, pois lá encontrariam Simone. Estavam apaixonados perdidamente. Daniel nem lembrava mais que tinha casa, trabalho, filhos e esposa. Esposa, esta, que parecia não perceber a ausência constante do marido. Parecia um robô, uma paisagem bonita demais, mas apenas bonita. Daniel nem ligava. O tempo passava e o seu amor pela outra só crescia.

Foi quando numa manhã ensolarada, Daniel resolveu fazer uma surpresa e levar flores para Carolina. Foi até a uma das lojas dela e a surpreendeu com outro homem, apenas conversando. Tratava-se de um assessor de Carolina, mas Daniel teve uma crise de ciúmes, fez uma cena indigna para alguém de sua classe, bateu no assessor e foi embora. Exigiu explicações de Carolina, mas esta começara a tratá-lo com descaso, com repúdio. Carolina não era propriedade de ninguém. Era uma mulher livre. Liberdade acima do amor. Nem ela sabia se o que sentia por Daniel era amor. Estava envolvida sim, mas amor? Será? Nunca se imaginara saindo com alguém envolvido com artes, gostava muito dele sim, mas amor...Palavra forte demais. Curtia a vida intensamente, era uma mulher equilibrada, de opinião e talvez isso tenha atraído Daniel, mas Carolina não tinha um sentimento intenso por Daniel. Chegara a dizer uma vez a ele que era bom em sexo. Apenas bom em sexo. Apenas bom. Já tivera melhores. Daniel levava na brincadeira. Estava cego demais pra enxergar os defeitos de Carolina e perceber o real sentimento dela. E foi fazendo tais análises que Carolina se deu conta de que o amor que ele sentia por ela, não poderia ser mais correspondido porque não era em proporções iguais. Daniel amava demais e ela amava de menos. E não era assim, na filosofia dela, que a vida funcionava, que um relacionamento funcionava. Precisava contar isso a ele.

Resolveu não contar, adiar o sofrimento dele um pouco, afinal, ela gostava de sair com ele, de conversar com ele. Dava-se conta de que tirava proveito dele, mas e daí? Não fazia mal a ela e nem a ele. Mas as cenas patéticas e constrangedoras de Daniel continuavam e ela precisava dar um fim naquilo. Não importava o quanto ele ficaria magoado, mas tinha que ser franca. Marcou um encontro que seria o último dos dois...

...
Desabafou e terminou o seu “affair” com Daniel. Desolado, não conseguia tirar aquelas frases da cabeça: “Eu amo o jeito que você me ama, mas odeio o fato de ter que te amar assim de volta”. Mal sabia ele que as palavras de Carolina eram apenas traduções mal-feitas de uma música do Silverchair. Passou dias a fio trancado em seu quarto. Não tinha ânimo pra pintar, pra comer, pra nada. Desconhecia o significado da palavra ânimo, alegria, felicidade, amor... Não. Essa ele conhecia, mas não entendia. “Onde foi que eu errei?” “Foi te amar demais?”. Daniel não se dava conta de que todo o seu ciúme, toda a sua pseudo-proteção era infundada, era o que fazia Carolina estar mais longe. Não percebia o seu erro. Não enxergava nada, não pensava em nada, não chegava à conclusão nenhuma. Preferia a morte a viver longe do amor de Carolina.

Simone, como sempre dedicada, procurava saber do seu marido, chorava pelos cantos e não suportava mais aquela situação. Ia ao quarto, abria o baú rosa, pegava o terço e rezava. Sentia que não podia fazer nada, apenas rezar. Diariamente repetia esse circuito. A essa altura, Daniel nem se importava mais com as atitudes estranhas e os rituais religiosos da esposa, Queria mais que ela se explodisse. Só se importava com uma única pessoa no mundo todo.

Pegou o carro e decidiu que não conseguiria mais viver sem o amor da sua vida. Se for pra viver sem um amor, não viveria então. Demorou tanto para encontrar algo ou alguém que desse um sentido real à sua existência, e, agora que encontrara, deixara escapar. Entrou no carro rumo ao nada com um único propósito: a morte. Ligou o rádio, pois sempre imaginou uma morte com trilha sonora, como nas novelas das oito. Novela das oito que o fazia lembrar dos comerciais de uma loja famosa, que conseqüentemente fazia-o lembrar de sua grande paixão. Era por ela que ele estava fazendo aquilo. “Quando dei por mim, nem tentei fugir”.Era esse trecho que tocava em seu rádio. Mas ele estava tentando fugir, fugir de sua vida, fugir de tudo, fugir da possibilidade de viver sem Carolina. “Daria pra beber todo azul do mar”. Decidiu. Iria jogar o carro contra o mar, contra o oceano, contra a Baía de Guanabara. Beberia todo azul do mar, beberia todo azul do mar, beberia todo azul do mar...

“Carolina é uma menina bem difícil de esquecer” a segunda música no rádio. Foi aí que acendeu uma luz no fim do túnel. Por que esquecer Carolina? Por que esquecer o amor de sua vida? Sentiu-se envergonhado e covarde pela situação. Era preferível permanecer em vida e lutar por ela. Afinal, não que o amor não tivesse sido correspondido. Foi sim. Impossível esquecer os momentos juntos, tanto pra ela quanto pra ele. Era apenas um amor perdido pelas circunstâncias da vida. E que em uma rua ou outra se encontraria novamente “Eu só quero saber em qual rua minha vida vai encostar na sua”. Desligou o rádio. Virou o carro e foi até a loja dela. Decidiu reconquistar seu amor. Sabia que o amor era a resposta para todas as questões do seu coração. Decidiu resgatar o que havia perdido. Pedir perdão, recomeçar. Seria então, livre para amar.

Incrivelmente feliz, aproximava-se da loja de sua amada, quando, de repente, ouvia sirenes e se deparara com uma multidão de afobados em frente à loja. Eram muitas pessoas, dentre policiais e bombeiros. Daniel, desesperado, corria de um lado pro outro querendo saber o que estava acontecendo. Sentia seu coração bater mais forte. Mau pressentimento. Foi quando, empurrando um bando de curiosos e autoridades, encontrou o corpo de Carolina numa poça de sangue em frente à sessão de batons. Daniel lacrimejava e estava atônito à frente do corpo, olhava pra todos os lugares e os batons o faziam lembrar do lindo sorriso dela. Do sorriso que ele contemplou na noite da exposição. A primeira noite significativa de sua vida. A noite que mudaria toda sua vida. Todos os momentos em que Daniel passou com Carolina passavam como filme na cabeça dele. Era isso? A vida se resumia nisso? E a história de amor que ele estava disposto a construir? E com o sentimento dele? Ninguém se importava? Por que Carolina? Poderia ter sido Simone! Que tipo de justiça é essa? Que tipo de destino é esse? Os pensamentos e sentimentos de Daniel se confundiam naquele momento. Todas as cores dos batons ao redor daquele vermelho vivo de sangue faziam Daniel girar, remetiam a seus quadros, um monte de cores abstratas que no fundo não faziam sentido algum. O que presenciava era concreto, as cores eram concretas. Poderia tocar nelas, senti-las. Água se mistura às cores. Daniel chora, mas sem qualquer ruído. Lágrimas caindo, sem expressão.

Os policiais tiraram Daniel dali, que mal conseguia se mexer. Disseram que alguém tinha entrado na loja e atirado em Carolina. Estavam ainda apurando fatos e entrevistando testemunhas. Morte Súbita com apenas dois tiros. Um na cabeça e outro no coração.

Exausto e com os olhos vermelhos de tanto chorar, Daniel chega em casa totalmente desiludido da vida. Não entendia o propósito da vida. Não entendia o propósito da vida sem Carolina. Vontade de voltar ao carro e ir ao encontro de Carolina em uma outra dimensão, ele tinha. Mas não tinha mais forças. Não sabia nem o que fazer por si próprio, quanto mais por Carolina. Entrou no quarto e viu Simone dormindo profundamente. Lembrou-se do ritual dela. Não achava mais patéticas as atitudes da esposa, encarava mais como religiosas ou supersticiosas. Até mesmo inocentes. Resolveu rezar por Carolina, o mínimo que ele poderia fazer apesar de nunca ter sido apegado a religiões. Mesmo completamente arrasado e choroso, criou forças e antes de deitar-se, foi até o baú rosa e abriu-o. Fez uma expressão de espanto quando viu ao lado do terço de sua esposa, a foto de Carolina e um revólver carregado...

FIM
Chandler Jr
Enviado por Chandler Jr em 05/12/2007
Reeditado em 05/12/2007
Código do texto: T765283
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Sobre o autor
Chandler Jr
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil
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