Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

" O CASAMENTO DOS PEQUENOS BURGUESES" - Chico Buarque


A comédia-musical “Ópera do Malandro”, montada em 1978, tem entre tantas canções compostas por Chico, “O Casamento dos Pequenos Burgueses”. A obra tem inspiração em um poema de Brecht, escrito em 1919, que trata das relações matrimoniais mantidas por longo tempo, tentando passar a impressão de um casamento perfeito, por força de uma imposição burguesa da sociedade, sobrevivendo, enquanto podem, às guerras conjugais. Os conceitos machistas e patriarcais prevalecendo.

“Ele faz o noivo correto/ e ela faz que quase desmaia/vão viver sob o mesmo teto/até que a casa caia, até que a casa caia... Ela esquenta a papa do neto/e ele quase que fez fortuna/vão viver sob o mesmo teto/até que a morte os uma, até que a morte os uma”.

A aparente harmonia se inicia na cerimônia do casamento. O noivo se mostra um rapaz responsável, ciente de suas futuras obrigações de esposo. A postura é de um cidadão do bem, confiável, transmitindo a certeza de que ali está um casal feliz. Ela interpretando o “script” normal em toda e qualquer liturgia nupcial. O nervosismo tão explícito que causa a ideia de que vai desmaiar de emoção. Juram oficialmente que compartilharão alegrias e tristezas, sob um mesmo teto. No íntimo sabem que a manutenção da união conjugal será até o momento em que “a casa caia”, isto é, percam-se as condições de afinidade, cumplicidade e entendimento, necessários para sua continuidade.

Ele cumprirá sua função de provedor da casa, exercendo seu ofício de forma decente. Enquanto ela cuida dos afazeres domésticos, dedicando atenção permanente aos interesses do companheiro. Assim estarão numa afinada relação, até que comecem a estourar as crises de ciúme, incompreensões e cobranças mútuas.

Ele procura atender, com paixão e tesão, todas as necessidades íntimas, próprias de um casal. Ela responde esse fogo da libido, enchendo a casa de filhos, realizando os anseios femininos da maternidade. Assim vão dividindo os prazeres conjugais até que se iniciem os fastios sexuais, a diminuição dos atrativos da sensualidade.

Ele se esforça para ser o homem ideal, íntegro, sem máculas. E ela, na sua performance de mulher, esperando pacientemente a volta do marido para casa, a cada dia descobrindo novas formas de carícias, na demonstração do gozo que o encontro de seus corpos provoca. Até que se principiam as divergências, os ataques recíprocos, as acusações, os desacordos.

A cultura machista permite que ele tenha envolvimentos extraconjugais, sem que isso desperte censuras maiores da sociedade em que convivem. No resguardo da moral e da honra, ela nega que pudesse ousar em ter experiências estranhas ao ambiente matrimonial. Até que os filhos se casem, deixando-os na solidão da velhice e liberados dos olhares curiosos, pelo entendimento de que não poderão mais se excitar.

Com o passar dos anos, já cansados da rotina, ambos começam a pensar qual seria o veneno adequado para por fim àquele casório. Estariam predestinados a ficarem juntos, até que um deles tomasse a iniciativa de propor a separação.

No final da vida, ele continua alimentando sonhos não realizados, construindo planos para o futuro. Ela, no entanto, está marcada pela idade, a pele do corpo enrugando, ostentando as ranhuras do avançar do tempo. E, então, encerrariam essa história romântica, quando um dos dois fosse abatido pela morte.

Para ele os afagos que recebe, rareados, já não são aceitos com tanta satisfação como outrora. A vergonha com a flacidez dos seios, também não permite que ela se dispa ao claro, como fazia antigamente. Mas vão viver como parceiros ainda por um longo período.

Ela volta agora sua dedicação aos netos, afasta-se dos compromissos conjugais. E ele fica lamentando ter perdido as oportunidades de fazer fortuna. Ficarão unidos, mesmo que a viuvez alcance antes o marido, ou a esposa, pois na eternidade voltarão a se encontrar quando ambos já não estiverem vivos".

• Do livro “UM OLHAR INTERPRETATIVO DAS CANÇÕES DE CHICO”, a ser lançado brevemente.

Rui Leitão
Enviado por Rui Leitão em 01/11/2017
Reeditado em 03/11/2017
Código do texto: T6159292
Classificação de conteúdo: seguro
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Rui Leitão
João Pessoa - Paraíba - Brasil
116 textos (1103 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 24/01/18 05:37)
Rui Leitão