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"CIDADÃO" de Lúcio Barbosa



O poeta baiano Lúcio Barbosa compôs “Cidadão” como homenagem a um tio que era pedreiro. A letra traz à análise, o preconceito e a discriminação por que passam os nordestinos nas grandes cidades do país, em especial os que se dedicam à mão de obra da construção civil. Foi gravada pela primeira vez pelo cantor Zé Geraldo em 1979, e alcançou enorme sucesso também a regravação feita por nosso conterrâneo Zé Ramalho.

 “Tá vendo aquele edifício, moço?/Ajudei a levantar/Foi um tempo de aflição/Eram quatro condução/Duas pra ir, duas pra voltar”. O construtor anônimo das metrópoles não recebe o reconhecimento da contribuição oferecida desde o alicerce das grandes obras civis. As diferenças sociais não permitem um tratamento de respeito e valorização do trabalhador braçal. Os poderosos, os mais abastados, ficam indiferentes à sua sorte. É a exploração de uma sociedade capitalista e injusta. Pouco importam as dificuldades por que passam os operários para chegarem ao local de trabalho e exercerem seu ofício. Sequer percebem que a presença deles é feita num processo desgastante e penoso no uso do transporte público nas idas e vindas do trajeto casa/trabalho. No caso da letra da música, esse trabalhador apanha quatro conduções por dia, duas para vir e duas pra voltar para casa.

 “Hoje ele pronto/olho pra cima e fico tonto/Mas me vem um cidadão/e me diz desconfiado/Tu tá aí admirado?/Ou tá querendo roubar?”. Concluída a obra, o operário contempla maravilhado o edifício que ajudou a ser erguido. Sente uma ponta de orgulho do seu trabalho. Mas eis que se surpreende com a interpelação de um cidadão, questionando porque ele estava ali, parado, observando, o prédio recém-inaugurado. Suspeita, por sua condição social de inferioridade, que sua intenção é de roubar. Essa postura, muito recorrente no nosso cotidiano, revela bem a forma como os pobres, e nesse particular os nordestinos de baixa renda, são tratados,  menosprezados e humilhados.

 “Meu domingo tá perdido/vou prá casa entristecido/dá vontade de beber/E prá aumentar meu tédio/eu nem posso olhar pro prédio/que eu ajudei a fazer”. Decepcionado, sente que naquele fim de semana, o seu tempo de folga “está perdido”. E procura então uma de suas poucas formas de lazer, beber. Aí já entra a constatação do alcoolismo como fuga de uma situação de sofrimento e preocupações com a própria sobrevivência e de amparo da família. Difícil entender como ele não pode sequer admirar o prédio que ajudou a construir, imagine entrar e usufruir dele como qualquer cidadão.

 “Tá vendo aquele colégio moço?/Eu também trabalhei lá/Lá eu quase me arrebento/Pus a massa,  fiz cimento/Ajudei a rebocar”. O compositor registra aqui novas denúncias, a participação do personagem da música na construção de uma escola em condições de trabalho das mais precárias e a ausência de oportunidades de educação para as classes menos favorecidas.
 
“Minha filha inocente/vem pra mim, toda contente/Pai vou me matricular/Mas me diz um cidadão/Criança de pé no chão/aqui não pode estudar”. O sonho, dele e da filha, de vê-la ali frequentando a escola, se desfaz. O “cidadão” logo lhe adverte de que “criança de pé no chão, ali não pode estudar”. Aquele estabelecimento de ensino foi construído para os ricos. Interessante que o personagem, por si mesmo, já se exclui da condição de cidadania. “Cidadão” é aquele que tem poderes para alijá-lo da sua convivência social. “Cidadão” é aquele que determina sua vida sem a oferta do que lhe é de direito: moradia digna, educação e saúde. Ele não se enxerga como “cidadão”.

 Essa dor doeu mais forte/por que é que eu deixei o norte/Eu me pus a me dizer”. Dolorosamente chega à conclusão que não fez bem em vir para o sul, tentar uma melhoria de vida. As esperanças de que ali poderia ter um melhor padrão de vida para si e a família caem por terra.

 “Lá a seca castigava/mas o pouco que eu plantava/tinha direito a comer”. Ainda que lamentando a penúria que vivia em épocas de seca, ele lembrava que com o “pouco que plantava” tinha garantido o que comer. Não haveria necessidade de se submeter a tanta submissão e humilhação.

“Tá vendo aquela igreja, moço?/Onde o padre diz amém/pus o sino e o badalo/enchi minha mão de calo/lá eu trabalhei também/lá foi que valeu a pena/ tem quermesse, tem novena/e o padre me deixa entrar”. A igreja como refúgio derradeiro do seu padecimento. Um local onde o seu trabalho na construção fez valer verdadeiramente o seu esforço. Ali não há proibição da sua entrada. Ali ele se integra aos acontecimentos religiosos e festivos: novenas e quermesse. Ali ele coloca nas mãos de Deus suas esperanças de que o sofrimento seja amenizado.

 “Foi lá que Cristo me disse:/Rapaz deixe de tolice/não se deixe amedrontar/Fui eu quem criou a terra/enchi rio, fiz a terra/não deixei nada faltar”. Apoia-se no exemplo de Cristo, que se diz, como filho de Deus, construtor de tudo o que há na terra, oferecendo ao homem todas as condições de bem viver dela, de forma igualitária, sem diferenças, sem privilégios para uns e privações para outros.

“Hoje o homem criou asa/e na maioria das casas/eu também não posso entrar”. Ver que a humanidade deu as costas até a quem deve a sua própria existência. Nas casas falta solidariedade cristã em boa parte delas. O espírito de fraternidade que deve prevalecer entre os homens inexiste em muitos lares.

• Do livro “CANÇÕES QUE FALAM POR NÓS”.


Rui Leitão
Enviado por Rui Leitão em 04/11/2017
Código do texto: T6162120
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Sobre o autor
Rui Leitão
João Pessoa - Paraíba - Brasil
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Rui Leitão