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INALDO LISBOA E AS MEMÓRIAS DO PLANETA ITAPECURU

O grande escritor da literatura brasileira, Machado de Assis, responsável por consolidar a crônica no Brasil, deixa bem claro que tal gênero literário nasce das coisas efêmeras da vida, como por exemplo, uma breve conversa sobre sensações climáticas. Talvez seja por esta razão que há cronistas que se eternizaram na literatura brasileira, por trabalharem as coisas simples do dia a dia. E tais relatos descritos ultrapassaram as marcas temporais, imortalizando o nome de seus escritores.
Qual leitor que nunca ouviu uma crônica de Machado de Assis, Rachel de Queiroz, Rubem Braga, Fernando Sabino, Luís Fernando Verissimo, Nelson Rodrigues, Clarice Lispector, entre outros nomes. Tais escritores escreveram a textos simples que faz com que o leitor consiga imaginar facilmente a narrativa. E é diante dessa gama de escritores que se abre o espaço para falar sobre o cronista itapecuruense, Inaldo Lisboa.
Francisco Inaldo Lima Lisboa ou simplesmente Inaldo Lisboa, nasceu em Itapecuru-Mirim em 1964 e aos 16 anos de idade cunhou sua primeira peça de teatro sem imaginar que e ela era o alicerce para o futuro escritor.
Anos mais tarde ele funda o Teatro Experimental Itapecuruense (TEIT) grupo que muito se destacou na cidade, principalmente com a peça A Paixão de Cristo, encenada pela semana santa e com a peça Caminho de Pedra Miuda. Em 2005 lançou o livro Tudo Azul no Planeta Itapecuru e em 2007 ganhou o prêmio Artur Azevedo com o livro Nicéias Drumond, o gavião vadio e Graça Aranha com a novela, Os novos degredados do Éden.
A pesquisadora Jucey Santana relata outros feitos de Inaldo, no livro Itapecuruenses Notáveis (2016, p.389):
"Entre suas inúmeras obras, destacam-se as peças teatrais Nossa velha canção (1996); Babaçu in Business (1999); Moderniscravizando (2006); Os órfãos de Ayrton Senna (2004); Trânsgênicos or not transgênicos (2005); Um grito vindo do Rio Itapecuru (1997), entre outras. São também de sua autoria as peças, Que espetáculo é esse? (1987) e o Filme de ontem (1988) ambas encenadas pelo grupo CARICARETA e apresentadas no Teatro Artur Azevedo".

 Devido a sua dedicação às letras, sua importância no cenário cultural, sobretudo, nas artes cênicas, foi escolhido como membro fundador da Academia Itapecuruense de Ciências Letras e Artes – AICLA, ocupando a cadeira de número 10 que tem como patrono o seu grande amigo João Batista Pereira dos Santos.
Nos últimos anos, Inaldo vem se dedicando a sétima arte, ou seja, ao cinema, produzindo filmes e documentários, entre eles, o filme de longa metragem Caminho de Pedra Miuda; João Batista: um homem itapecuruense e sua múltipla história (documentário); No palco com Aldo Leite (documentário); No tempo de Abdala era assim (documentário) e Uma sexta-feira em 1940 (filme).
Desta maneira, bem como uma árvore frutífera, Inaldo Lisboa expande várias ramificações para que o pesquisador possa escolher em qual se debruçar para estudar suas obras.

MAIS QUE CRÔNICAS, MEMÓRIAS DO PLANETA DE INALDO

Dentre as muitas obras de Inaldo, a que mais se destaca no campo da literatura é a obra Tudo Azul no Planeta Itapecuru, lançada em 2005 no Itapecuru Social Clube. O livro reúne poemas, crônicas, contos e entrevistas, textos que falam sobre a cidade de Itapecuru-Mirim. O livro trata-se de um divisor de águas na literatura do município, tendo em vista que, depois do relançamento do livro “Murmúrios”, de Mariana Luz, ocorrido em 1990, pelo jornalista e imortal Benedito Buzar, Itapecuru amargou uma década e meia sem produção literária, o que é muito para uma terra cheia de intelectuais e grandes nomes da literatura nacional.
Neste artigo as análises serão concentradas apenas nas crônicas do referido livro, uma vez que, Inaldo Lisboa narra à sociedade itapecuruense por sobre a ótica saudosista da década de 70 e 80. Um tempo em que Itapecuru mais se assemelhava com vilas, sem tecnologia ou desenvolvimento, vivendo apenas de lampejos culturais advindos do povo humilde.
Ao ler atentamente as crônicas de Inaldo, logo se percebe no início, que ele é um exímio memorialista da vida social da cidade. Ora, sobre a escrita da crônica, Jorge de Sá (1987, p. 6), faz a seguinte afirmação:
"A observação direta é o ponto de partida para que o narrador possa registrar os fatos de tal maneira que mesmo os mais efêmeros ganhe uma certa concretude. Essa concretude lhes assegura a permanência, impedindo que caiam no esquecimento [...] o princípio básico da crônica: registrar o circunstancia"l.

Partindo desse ponto de vista, pode-se afirmar que o escritor Inaldo Lisboa consegue registrar não apenas fatos, mas também os ambientes de seu torrão natal. É o caso da crônica “A bicicleta vermelha e os dois mercadores”, tecida com a pena da saudade no papel de pão da historiografia dos fatos que ele, Inaldo, viveu e que ouviu falar.
Inaldo Lisboa vai compondo suas narrativas selecionando os melhores acontecimentos que sua memória lhe oferece como na crônica, “Pop som 8 ou Som do Planeta”, onde o imortal afirma que, “ O pop som 8 continua ecoando na memória” (LISBOA 2017, p. 47). Continua ecoando também os espetáculos de “O circo mágico Alakazan” e da “Boite Guaracy”, desta o escritor consegue recordar da pintura do local, das fofocas e das reprimendas da Igreja, dos namoros e das estórias de um suposto diabo que resolveu dançar na boite do sr. Robeval, talvez para aliviar o seu estresse infernal.
As crônicas religiosas não poderiam faltar no livro, pois Itapecuru-Mirim sempre foi uma cidade que viveu a prática do cristianismo, (ontem, muito mais que hoje). Inaldo, como bom memorialista recordou das rezas que geralmente acontecia nos meses de maio e junho, na crônica “Coração de Jesus, mês de junho, casa de Ana Júlia” e também sobre o outrora grandioso, “Festejo de São Benedito”; lembrando personagens peculiares da festa, como Abdala Buzar e de Broca, responsável por carregar a cruz a frente das procissões.b
Antônio Cândido, grande crítico literário, faz a seguinte afirmação sobre o gênero crônica:
A crônica não é um gênero maior. Não se imagina uma literatura feita de grandes cronistas, que lhe dessem o brilho universal dos grandes romancistas, dramaturgos e poetas. Nem se pensaria em atribuir o Prêmio Nobel a um grande cronista [...] Graças a Deus — seria o caso de dizer, porque sendo assim ela fica perto de nós (CÂNDIDO 1992, p.13).


Nas crônicas do livro Tudo Azul no Planeta Itapecuru, tem-se a sensação de que elas estão perto do leitor, em especial do leitor itapecuruense, isso se atesta nas crônicas “A história do TEIT” e na “Voz do Tabajaras” narrativas carregadas de verossilhança. Nesse mesmo compasso de aproximação do leitor, Inaldo Lisboa faz com que o leitor recorde personagens que fizeram o dia a dia do planeta Itapecuru e que entraram para as páginas da literatura do município, como se atesta nas crônicas, “Orlando e Ozanan”, “A quitanda da Helena” e de “João Batista e o raio”; esta última um fato inexplicável que mais se parece com as tragédias das peças de Shakspeare, o fato até hoje é lembrado, contado e recontado. E de “Um certo Joaquim Carceireiro”, senhor muito famoso, principalmente dos mais velhos da cidade, pois, como diz a narrativa ele “ libertava os espíritos perturbados e como sabia vários tipos de rezas curou muitas pessoas” ( LISBOA 2017, p. 96), mas nunca recebeu a devida homenagem pelos seus serviços de relevância ímpar, prestados a população itapecuruense.
Há nas crônicas de Inaldo a tão popular itapecuruensidade reverberante do seu tempo, coisa que se assemelha as produções de Zuzu Nahuz, como afirma Benedito Buzar na orelha do livro com as seguintes palavras: “logo nas primeiras leituras, sou apossado por uma indescritível sensação, a de haver encontrado um sucessor para Zuzu Nahuz”.
Nas crônicas de Inaldo Lisboa o leitor encontrará acima de tudo um olhar de saudade dos tempos de outrora da vida do escritor. Momentos, instantes vividos com amigos, familiares e conhecidos. Personagens que foram “testemunhas de tantas histórias” do planeta chamado Itapecuru.


REFERÊNCIAS
CANDIDO, Antônio. A vida ao rés-do-chão. In: ANDRADE, Carlos Drummond et al. Para gostar de ler. São Paulo: Ática, 1984.
LISBOA. Inaldo. Tudo azul no planeta Itapecuru. 2 ed. São Luís. Gráfica Editora 360º, 2017.
SÁ. Jorge de. A crônica. São Paulo. Ática, 1987.
SANTANA, Jucey. Itapecuruenses notáveis. São Luís. Gráfica Editora 360º, 2016.




Samira Fonseca
Enviado por Samira Fonseca em 19/04/2018
Código do texto: T6313440
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Sobre a autora
Samira Fonseca
Itapecuru Mirim - Maranhão - Brasil, 29 anos
4 textos (535 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 14/12/18 14:39)
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