Situando Patissa: um signo da resiliência da Geração Pós-Conflito

Gociante Patissa faz parte de uma nova geração de escritores cujas preocupações sociais e estéticas demarcam-se daquelas que foram invocadas pela geração de 40 , chamada também de Mensagem, ou ainda a geração de 80 , apelidada por Kandjimbo como a geração das Incertezas. Se analisarmos a sua geração do ponto de vista da periodização da nossa literatura, podemos catalogá-la numa fase que se caracteriza pela procura da consolidação do fenómeno literário em Angola, este decerto parece-me a tarefa árdua, mas também a responsabilidade principal desta mais novíssima elite cultural e moderna de intelectuais angolanos, é a geração do pós 4 de Abril que transporta na sua escrita a realidade sócio-histórico-cultural que vive ou viveu a sociedade Angolana, propondo uma leitura do quotidiano partilhado com o leitor. Nesta perspectiva, a abordagem de Patissa e da sua geração diferencia-se daquelas abordadas por escritores doutras gerações.

Compreendendo a Geração de Patissa

Chamamos de Geração Pós-Conflito aquela composta por novos intelectuais ou escritores que se lançaram no mundo da escrita entre o limiar da guerra civil e o logo após a guerra. Esta geração goza do privilégio de viver este dois momentos da sociedade angolana, isto é, a guerra e a paz. E como o escritor, seja qual for a geração, tem o compromisso com a verdade, então esta retrata a realidade social angolana através de engenhos artísticos e estéticos que se demarcam de outras como afirmámos acima. Dentre as várias preocupações sociais abordadas por esta geração destacamos as seguintes:

A guerra e as suas principais consequências;

Desigualdade social;

Corrupção;

O resgate dos valores morais e culturais;

A burocracia;

A alienação;

São estas peripécias que vive esta geração e surge como uma inconformação através dos seus escritos, por isso, sugerimos compreender o nosso autor não longe desta realidade social que o circunda.

Patissa e Obra

Patissa é um escritor benguelense que tem vindo a tomar grandes passos na instituição literária angolana. Caracterizamo-lo como uma figura resiliente na medida que apesar de estar a viver-se em Angola uma grande crise do Livro ou até mesmo na literatura angolana devido o pouco apoio neste sector e também da falta de leitores, tem vindo a publicar e a ganhar leitores. Tem contribuindo grandemente como incentivo de vários jovens que pretendam mergulhar neste mare Magnum que é a literatura, criando um espaço de oficina literária no seu blogs, por exemplo. Tem tido um papel fulcral na divulgação da cultura e língua umbundu, um aspecto muito visível na sua obra. Patissa lançou-se precisamente no mundo literário com uma obra poética Consulado do Vazio . Se considerarmos este ano como o seu nascimento enquanto artista das letras, podemos considerar que tenha mais de 10 anos de escritor e durante este percurso publicou cerca de 8 obras e nestas verificamos um certo equilíbrio na forma de pintar os textos, isto é, publicou tanto contos como poesia. Além das obras também participou em várias antologias nacionais e internacionais. Abaixo a sequência de obras publicadas:

Consulado do Vazio (poesia), KAT editora. Benguela, Angola, 2008.

A Última Ouvinte ( contos), União dos Escritores Angolanos. Luanda, Angola, 2010.

Não tem Pernas o Tempo (novela), União dos Escritores Angolanos. Luanda, Angola, 2013.

Guardanapo de Papel (poesia), Nós Somos. Vila Nova de Cerveira, Portugal, 2014.

Fátussengóla, O Homem do Rádio que Espalhava Dúvidas (contos). GRECIMA. Programa Ler Angola. Luanda, Angola, 2014.

O Apito que não se Ouviu (crónicas). União dos Escritores Angolanos. Luanda, Angola, 2015.

Almas de Porcelana (poesia resumida). Editora Penalux. São Paulo, Brasil, 2016.

O Homem Que Plantava Aves (contos). Editora Penalux. São Paulo, Brasil, 2017.

Um olhar a obra a Última Ouvinte

O conto A Última Ouvinte – União dos Escritores Angolanos, 2010 - dá nome ao segundo livro de Patissa. Como uma questão de preferência. Preferimos comentar apenas esta narrativa. Numa linguagem com pouca influência do coloquial, Patissa traz-nos para reflexão a figura Caçule que representa boa parte dos jovens da década de 90. O nome Caçule, recebe-o a partir dos 9 anos quando entra no exército da FAPLA . Uma prática muito frequente na sociedade daquela altura, fazendo com que muitos jovens adiassemos seus sonhos para ir a guerra. Ademais, denuncia igualmente questões ligadas a corrupção e o suborno. Tudo isto demonstra um certo inconformismo ante a estas situações e que este conto acaba por ser uma intervenção.

Há durante a narração uma frequente acorrência aos provérbios da língua Umbundu e ,como já afirmámos, a linguagem no texto é pouco coloquial, ou seja, as falas das personagens do conto são influenciadas, uma característica pouco comum na nossa literatura, uma vez que uma boa parte dos nossos contistas, nas falas do discurso directo, usam a linguagem coloquial, ou melhor, apresentam a nossa realidade linguística de forma nua e clara.

O homem que Plantava Aves

Uma obra publicada no Brasil pela Editora Penalux e mais tarde em Angola pela Editora Acácias. É coleção de 15 contos, mas nós, igualmente a anterior analisaremos apenas o conto que dá nome ao livro.

O conto traz-nos para reflexão a questão da nomeação segundo a nossa cultura. Tradicionalmente o nome é dado em função das circunstâncias, um valor que hoje parece que se perdeu (... tendo uma infância bastante doentia, ficando a sua sobrevivência a preces de medicações à base de raízes ... Lumbombo ,sinónimo de raiz. Pág 22).

Como já falámos, Patissa é um activista cultural e este aspecto é visível em toda sua obra, uma vez que com frequência faz recurso a provérbios umbundu. Neste conto, por exemplo, leva-nos a refletirmos sobre um valor que vai se perdendo: o cumprimento da palavra. Para isso, usa duas figuras, um devedor e um devido. O primeiro representa o tipo de pessoas que passam por cima de pessoas aparentamente mais fracas, como é o caso de Lumbombo, o devido, que por ser deficiente julgou-se que fosse incapaz. Esta reflexão é clara na medida que mostra que a dignidade humana não está no físico, mas sim no espiritual,(Não é com pernas que corremos, é com pensamentos. Pág. 25).

Fernando Tchacupomba
Enviado por Fernando Tchacupomba em 17/12/2020
Código do texto: T7137497
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