MEMÓRIAS DE UM CINÉFILO

Para começo de conversa, devo dizer que tudo que aprendi sobre Cinema foi vendo filmes.

E o primeiro filme que minha memória diz que eu assisti foi a comédia Fra Diavolo, uma opereta com a dupla O Gordo e o Magro. Vi esse filme por volta de 1936, em companhia dos meus pais e da minha irmã Célia, num cinema do bairro do Brás, em São Paulo, onde morávamos. O cinema era o Brás Politeama.

Penso que, até hoje, não foi dado o devido mérito a Stan Laurel (o Magro) e Oliver Hardy (o Gordo). Acho isso desde os tempos da escola, quando assistia, no porão habitável do Grupo Escolar Tomaz Galhardo, na Lapa, às projeções em 16 mm de suas comédias. Recordo-me das explicações que o diretor da escola, prof. Luiz Checcia, dava antes de cada exibição. Foi por intermédio dessas explanações que fui aprendendo que por trás das imagens projetadas sempre há uma mensagem, que nada é gratuito como parece ser. Assim, compreendi que Stan Laurel e Oliver Hardy representam a classe menos favorecida. São os deserdados da sorte. São aqueles que nada têm, a não ser um ao outro. Estão amparados, como diz no poema “Os Homens Ocos”, de T. S. Eliot, “um no outro”. Cada obstáculo que enfrentam representa as vicissitudes da nossa própria vida. O humor é apenas para amenizar a dramaticidade das situações vividas por eles.

Lembro-me de que num dos filmes de O Gordo e O Magro – infelizmente, não me recordo do título da fita – o Magro é vendedor de aspiradores de pó. Ele oferece aspiradores de pó de porta em porta, mas não consegue vender nenhum. Então, o Gordo sugere-lhe: “Ora... Por que você não muda de cidade? Pode ser que venha a ter mais sorte.” E o Magro replica amargamente: “O mal não está na cidade, e sim em mim.”

Quem tinha mais ou menos o mesmo estilo de humor de O Gordo e o Magro eram Charles Chaplin, Os Três Patetas (Moe Howard, Larry Fine e Curly Howard) e os Irmãos Marx (Groucho, Chico e Harpo).

Com relação aos Irmãos Marx, devo dizer que eles levaram às últimas conseqüências a luta contra o Sistema. Suas fitas são completamente anárquicas.

De todos os comediantes que citei, o único que conquistou maior fama e prestígio foi Chaplin, que criou o personagem Carlitos, o eterno vagabundo. Mas eu não faço nenhuma distinção entre eles. Na minha opinião, estão todos no mesmo nível. E penso que Chaplin só conseguiu a admiração da crítica, sobretudo européia, porque teve a oportunidade de ele próprio produzir e dirigir seus filmes e haver fundado, com Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D. W. Griffith, a United Artists. A despeito de seu talento como cineasta e de ser inglês, Chaplin era um grande comerciante e a perfeita encarnação do self-made man norte-americano.

Nas sessões do Grupo Escolar – essas sessões eram realizadas todas as quintas-feiras, por volta das onze horas da manhã –, além das comédias de O Gordo e o Magro, vi uma grande quantidade de fitas do Carlitos e de desenhos animados do Gato Felix, do cachorrinho Bimbo, do palhacinho Koko e de Betty Boop, a garota de cabeça e olhos enormes. Nos desenhos desses três últimos, havia a combinação de animação com figuras humanas: os personagens apareciam junto com os realizadores dos desenhos, os irmãos Max e Dave Fleischer.

Creio que a paixão pelo Cinema já devia existir em meu espírito desde que vim ao mundo, e as sessões no Grupo Escolar serviram apenas para despertá-la. Lembro que todas as classes do período da manhã assistiam aos filmes; porém, a maioria dos alunos estava interessada em discutir futebol, que era o assunto predominante na hora do recreio. Para quase todos, os filmes eram somente uma distração e uma forma de ficarem, durante uma hora, fora da “maçante” sala de aula. Assim, “meus colegas” não compreendiam ou – o que é ainda pior, já que os torna perfeitos imbecis e alienados – não tinham condições de compreender que os filmes e as palestras do diretor faziam parte da nossa formação cultural e ajudavam-nos a compreender melhor o mundo em que vivemos.

Na época das sessões no Grupo Escolar, minha família residia na Lapa, onde havia três cinemas: o Cine São Carlos (o mais perto de casa), na Rua Guaicurus; o Cine Recreio, que ficava na Rua Engenheiro Fox, depois das porteiras da estrada de ferro São Paulo Railway; e o Cine Carlos Gomes, que era o mais caro e ficava no centro do bairro, na Rua Doze de Outubro.

Como o dinheiro era escasso, eu freqüentava, nas tardes de quinta-feira, a Sessão das Moças, no São Carlos. Nessas sessões, cujos ingressos custavam menos da metade de um ingresso normal, adultos e crianças pagavam um preço único e assistiam a dois filmes de longa-metragem, uma comédia curta, um desenho animado e dois cinejornais (um brasileiro e outro norte-americano).

Eu não perdia uma única Sessão das Moças, que, na verdade era freqüentada por uma garotada de ambos os sexos. Foi nessas sessões que assisti a vários filmes do Tarzan estrelados pelo ex-campeão de natação Johnny Weissmuller e Maureen O’Sullivan: A Companheira de Tarzan, A Fuga de Tarzan, O Filho de Tarzan, O Tesouro de Tarzan, Tarzan Contra o Mundo... Eu não gostava – para ser sincero, continuo não gostando – dessas fitas; entretanto, como faziam parte da sessão, era forçado a vê-las. E, alguns anos mais tarde, ao ler os romances de Tarzan publicados pela Companhia Editora Nacional, na Coleção Terramarear, percebi que esses filmes haviam deturpado completamente a obra de Edgar Rice Burroughs. A mesma coisa aconteceu com Sherlock Holmes, nos filmes produzidos na década de 1940 pela Universal. Há fitas, inclusive, como Sherlock Holmes em Washington, em que a ação transcorre durante a Segunda Guerra Mundial. A única coisa louvável nesses filmes do Sherlock Holmes é a interpretação irrepreensível de Basil Rathbone (Sherlock Holmes) e Nigel Bruce (Dr. Watson). Os dois interpretaram de forma perfeita o detetive de Baker Street e seu companheiro de aventuras. Encarnaram tão bem os personagens que evoco de imediato suas imagens, sempre que releio (o que faço com certa assiduidade) alguma das histórias escritas por Conan Doyle.

Outros filmes que lembro ter assistido na Sessão das Moças: Do Mundo Nada se Leva; Uma Noite no Rio, uma das muitas fitas produzidas em Hollywood que mostra Carmen Miranda usando roupas ridículas e um turbante não menos ridículo; Sargento York, um filme de Guerra (aproveito a oportunidade para dizer que nunca gostei de filmes de Guerra. Também não gosto de fitas épicas nem de westerns); Charlie Chan na Ilha do Tesouro, Charlie Chan na Cidade das Trevas, Charlie Chan no Museu de Cera, Mortos Que Matam e Castelo no Deserto, com Sidney Toler encarnando o detetive oriental criado por Earl Derr Biggers; e, entre muitos outros, Oh, Marietta!, Rose Marie e Divino Tormento, tendo os atores-cantores Nelson Eddy e Jeanette MacDonald nos principais papéis.

Nos domingos, eu ia ao Cine Recreio. Recordo-me de ter visto ali os seguintes filmes: A Marca do Zorro e O Filho dos Deuses, estrelados por Tyrone Power e Linda Darnell (nessa época, primeira metade do anos 1940, já começava a prestar atenção nessa atriz, que se tornaria uma de minhas preferidas; por outro lado, achava Tyrone Power um refinado canastrão); O Cisne Negro; e Um Casal do Barulho, um dos filmes mais fracos (talvez por não ser de Suspense) de Alfred Hitchcock.

Foi também no Cine Recreio que assisti a Os Amores de Edgar Allan Poe, o último filme que vi em São Paulo, antes de minha família se mudar para o interior, para Ribeirão Preto. Então, o nome Edgar Allan Poe já me era familiar, pois havia lido algumas de suas histórias (duas delas, “O Coração Revelador” e “O Gato Preto” me impressionaram tanto que, sob a influência delas, escrevi, em 1942, meu primeiro conto, “A Única Testemunha”) na revista Detective. E, desde 1941 ou 1942, eu procurava desesperadamente saber mais sobre Edgar Allan Poe; porém, nenhuma das pessoas que me cercavam tinha condições de me fornecer qualquer informação a respeito dele. Portanto, ao deparar-me com o título do filme, exultei, porque, enfim, iria saber alguma coisa sobre a vida de Poe.

Assisti a Os Amores de Edgar Allan Poe numa noite de sexta-feira; e, cerca de meia-hora antes de começar a sessão, eu já aguardava impaciente no saguão do cinema. Parece-me que, quando as luzes se apagaram e a fita teve início, não havia mais de meia dúzia de espectadores dentro da sala. Devo dizer que o filme não me esclareceu muita coisa acerca de Poe. Fiquei sabendo apenas que ele era o autor de um poema intitulado “O Corvo” e que havia se casado com uma prima, Virginia (interpretada por Linda Darnell).

Quanto ao Cine Carlos Gomes, era o mais caro dos três, como eu disse. Por isso, eu não o freqüentava. E, dentre os poucos filmes a que ali assisti, recordo-me apenas de dois: Em Busca do Ouro, um clássico do Chaplin; e Modelos, um musical estrelado pela ruiva Rita Hayworth.

Abre um parêntese.

Lembro que uma ampla campanha de publicidade marcou o lançamento de Modelos: por toda a cidade foram espalhados enormes painéis (depois, por completa burrice das agências de publicidade, esses painéis teriam sua denominação mudada para outdoor. Para que usar uma palavra estrangeira para designar algo que já tínhamos uma denominação em Português?) que exploravam a beleza sedutora de Rita Hayworth.

Fecha o parêntese.

Devo confessar que a única fita que vi nesse período e que realmente me impressionou foi O Solar das Almas Perdidas, com Ray Milland e uma atriz que está entre as minhas preferidas: Gail Russell.

Assisti a O Solar das Almas Perdidas no Cine Ritz (depois, esse cinema passaria a chamar-se Cine Avenida), na Avenida São João. Foi a primeira vez que vi um filme num cinema do centro da cidade. Então, eu trabalhava como office-boy, numa loja de autopeças de propriedade de uns primos da minha mãe. Essa loja ficava perto do Ritz, diante do qual eu passava várias vezes por dia. Certo dia, chamou-me a atenção um cartaz colocado no hall do cinema. Não me recordo do que este cartaz dizia, mas era a respeito da polêmica que a fita vinha suscitando. Isso não era muito comum: e, na primeira oportunidade, fui ver o filme. Quando o revi na TV, há alguns anos, calculei que a polêmica deve ter sido provocada porque O Solar das Almas Perdidas é baseado num romance espírita e, na época, o Brasil era um país essencialmente católico.

R F Lucchetti
Enviado por R F Lucchetti em 05/03/2015
Código do texto: T5159229
Classificação de conteúdo: seguro