Jardim do Nêgo

Apresento a vocês Geraldo Simplício, apelidado Nêgo, em seu ateliê vivo.

Ele nasceu na cidade de Aurora, no estado do Ceará, em 1943. Tornou-se um escultor popular, trabalhando na madeira ou confeccionando bonecos de barro. Em 1966 fez sua primeira exposição na cidade do Crato, em sua terra natal. Depois disso passou a mostrar suas peças pelo nordeste brasileiro.

Vindo para o Rio de Janeiro, com a cara e a coragem, foi reconhecido pela artista plástica Cecília Falk, que passou a divulgá-lo. Em 1969 ele se mudou para Nova Friburgo, a 846 metros de altitude e a 136 km de distância da capital do Rio de Janeiro.



O lugar onde escolheu para morar era um sítio cheio de mato e encostas com barro, na rodovia RJ-130, que liga Teresópolis a Friburgo, na altura do quilômetro 12, a 100 metros de Campo do Coelho. O lugar hoje é chamado Jardim do Nêgo. Suas obras em madeira são exportadas e expostas mundialmente, equanto que suas esculturas da terra se explicam através deste lugar mágico onde vive.

Não se sabe se ele “descobriu” uma nova expressão para sua arte ou se foi impelido por forças maiores a dar vida a maravilhas que a natureza o ajudou a criar. Aqui ele mostra suas mãos, seu instrumento de trabalho, e é através delas e de sua inspiração que neste lugar esculturas vivas nos fascinam.
 


Ele usa um tapa chacra, que diz servir para anular as energias negativas do mundo. Eu tenho absoluta certeza de que ele sabe o que diz e o que sente, e por isso mesmo vive neste pequeno paraíso. Também tenho certeza de que algo o impeliu para lá. Eu senti isso quando conversei com ele.

Eu tinha me afastado do grupo que me acompanhava na visita ao lugar. Eu o avistei ao longe, equilibrando-se em um barranco, esculpindo algo no solo. Corri ao seu encontro, escondida das outras pessoas, e perguntei: “Você é o Nêgo, né?".

Imediatamente ele parou o que fazia e veio em minha direção, sério. Temi que ele tivesse se aborrecido com a minha intrusão, mas, ao contrário, ele limpou as mãos na blusa e me perguntou - na maior intimidade, como se me conhecesse - o que eu achava que ia sair daquele esboço de figura humana de uns cinco metros de altura.

Entrei na dança e respondi: “Acho que uma criança com uma tocha na mão”. Ele olhou..., olhou para sua escultura que nascia e disse: “Acho que não. Talvez um bêbado”. Eu concordei: “Sim! Um bêbado chorando!”. Novamente ela discordou: ”Não! Um bêbado sorrindo! Bêbado não chora!”.

Eu o informei, com ar didático, de que bêbado passa por três fases: a do macaco (quando está desinibido ou fanfarrão), do leão (quando agressivo) e a do porco (quando sonolento ou deprimido).

Ele me olhou, intrigado e disse: “Você não é jornalista. Nem turista!”. Eu afirmei: “Não! Sou uma turista médica!”. Ele acrescentou: “Logo vi... E é sensível, porque acabou de fotografar minhas mãos. Ninguém pensou em fotografar minhas mãos...”.

Indico um vídeo do nosso Rodin brasileiro:
http://www.youtube.com/watch?v=hPjGlc24j9M

A MULHER QUE MUDOU A VIDA DE GERALDO SIMPLÍCIO



Em 1981 o artista plástico Geraldo Simplicio, que já morava em Nova Friburgo, a suíça brasileira, desde 1969, estava sem madeira para compor suas esculturas. Passou um belo sufoco financeiro, mas em seus devaneios e sem qualquer pretensão, olhou um recanto de seu sítio, com encostas de barro e imaginou a forma de uma mulher. Desta inspiração, que dizem ter sido gerada pela lembrança de um perdido amor, nasceu a sua musa.

Uma temporada de chuvas ameaçava a escultura, que seria erosada. Na tentativa de salvá-la, ele a encobriu com plásticos. Esquecendo-se de retirá-los, após alguns dias observou que crescia uma vegetação de musgo na superfície do barro, e que este musgo formava raízes que endureciam a sua escultura, conservando-a.



Uma inspiração que teve o auxílio da natureza levou a vários outros trabalhos dentro da área onde morava e mora até hoje. O interessante é a sua visão antecipada do que pode fazer com um monte de barro, de esculturas pequenas a obras imensas, numa proporcionalidade e perfeição incomparáveis. Os temas são variados, tendo ele mais que uma miragem, mas uma visão, uma premonição das formas.

Para se construir as esculturas são precisas condições favoráveis do clima, podendo até levar um ano para o musgo se criar. O crescimento da vegetação varia de acordo com as chuvas, podendo esta ficar viçosa ou ressequida, mas sempre viva.



Não basta ser artista; não basta ser escultor, saber sobre técnicas nem ter experiência nesta função. É preciso mais que isso para se entender a contiguidade de Geraldo com esta terra e sua arte. Sua vida foi a sua arte e esta arte foi mais que um dom, mas um presente de Deus.

O PARTO DE CÓCORAS



Nas encostas úmidas de um barranco ele idealizou uma índia parindo.

O parto sem ajuda é um costume que acontece desde a pré-história e se manteve nas culturas indígenas.



A mulher se apoia a uma samambaia-açu, também da era pré-histórica, típica da Mata Atlântica, muito semelhante a uma palmeira. A escultura tem cerca de 6 metros, rica em detalhes, como pode ser observado.

OS RETIRANTES



Retirantes são os que emigram de suas terras, geralmente por falta de condição de sustentabilidade, terras arrasadas pelas intempéries da natureza e por descaso dos governos. Assim é o norte e, principalmente, o nordeste brasileiro (apenas por uma questão demográfica, pois há muito mais gente no nordeste que no norte do país).

Todos pensam que lá em cima no Brasil a coisa é só praia e lambada, mão é não... Começando que lambada nem é originária do Brasil! Terras agrestes, latifúndios, que só Deus sabe o porquê. Muita gente com sede, com verminoses, com fome e desnutrição. Muita gente morre por total falta de qualquer atendimento médico, inclusive crianças. Vivem à mercê do destino e suas vidas se resumem em precária sobrevivência. Isso acontece agorinha mesmo. Isso acontece há décadas e décadas! Sempre aconteceu, por sinal...



Acho que quando eu vi esta escultura de Geraldo Simplício senti tudo o que ele quis dizer num paredão enorme de barro e musgos. Aqui os retirantes estão tocando a mão divina, a salvação, e estão felizes. Obviamente foi uma inspiração advinda do pintor Cândido Portinari, que poderão conhecer melhor nos links que passo abaixo, se bem que nenhum vídeo reflete à altura a grandiosidade do referido artista.

Eu não gosto da pintura de Portinari, mas isto é só uma questão estética, porém devo admitir que ele foi o representante mor do nosso povo do sertão, um representante na Arte Moderna.

Simplício viu isso tudo com seus próprios olhos, uma vez que é do nordeste do Brasil. Aqui ele foi muito mais que o referido pintor.

O QUE NINGUÉM VÊ



É curioso como nasce uma inspiração. O que diferencia o artista nato daquele que apenas aprende técnicas artísticas é justamente a inspiração. De onde vem ela? Observando aquele lugar mágico, me vem à cabeça que a arte chamou o artista; ela o atraiu e já existia dispersa em energias. Não me parece mero acaso o fato de alguém esculpir uma obra de arte, sabendo que esta vai sofrer erosão do tempo, e mesmo assim fazê-la em ricos detalhes, e, então, vem a natureza e dá de presente a este visionário a matéria prima para a sua conservação.
 
Simplício disse que um dia, avistando uma pequena represa da água de um córrego, imaginou uma mãe elefante tentando salvar seu filho de se afogar no rio. Mais interassante é que esta escultura foi projetada para que, vista de cima, o reflexo de um galho na água forme exatamente o rabo do filhote.

SIMPLÍCIO, A SIMPLICIDADE EM PESSOA



Nêgo é uma pessoa totalmente alheia às coisas materiais. Sofisticação passa longe, quando conversamos com ele. Dizem que é um eremita, mas acredito que seja um pouco de exagero, pois mais eremita que eu ele não é!



Num certo momento de nosso papo, ele veio com esta:

-"Tem umas modelos aí que querem tirar retrato no meu jardim... Eu nem sei quanto eu vou cobrar, porque quem admnistra isso é meu sobrinho. Eu só dssse que se quizerem trocar suas roupas, tem um banheirinho ali embaixo".

O "banheirinho" é extremamente limpo, organizado, muito bonito e presta-se ao público que visita o lugar.


Presépio

Preciso voltar àquele jardim de esculturas vivas. Um dia serviu apenas para fotografar, mas um outro servirá para eu conversar muito com Geraldo e para curtir pormenores de suas obras, sentindo a natureza à minha volta.

COBRAS E LAGARTOS



Creio que centenas de pessoas visitem este lugar todos os fins-de-semana. A princípio é um passeio rápido, pois além das esculturas não há outro lazer.



Ninguém imagina, porém, que naquela estrada no meio da mata, iremos encontrar um lugar diferente, exótico, onde o ateliê de um artista é o seu quintal e que o seu quintal é o plano de fundo para suas obras, aliás, o seu quintal é a sua obra prima.



O que será que Nêgo vai inventar daqui para frente? Ele pode até viver distante de tudo, mas certamente ele está bem próximo de Deus.



O Jardim do Nego está aberto à visitação pública diariamente das 7h às 17h. Entrada bem baratinha.
Telefone: (22) 25432253 - Nova Friburgo - RJ - Campo do Coelho, km 55 da RJ 130


Leila Marinho Lage
Clube da Dona Menô
23 de junho de 2010

Leila Marinho Lage
Enviado por Leila Marinho Lage em 23/06/2010
Reeditado em 24/06/2010
Código do texto: T2337690
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