A essência e o acidente

A ESSÊNCIA E O ACIDENTE

Eu andava caminhando pela rua quando vi um mendigo pedir água na porta de uma casa. A senhora prontamente o atendeu, e pediu desculpas por servir o precioso líquido em um copo de plástico, desses descartáveis. Sem se abatar, o homem respondeu com uma tirada filosófica de alto nível: “O que mata a sede é a água e não o copo”. Eu saí dali pensando na água que mata a sede, na senhora que cedeu o líquido e na profundidade da sentença daquele pobre homem. De fato, nós sofisticamos, muitas vezes, o copo, mas ele está vazio, ou cheio de algo que é incapaz de nos satisfazer... É a questão do essencial e do transitório. A água mata a sede; o copo de plástico vai para o lixo. Nesse aspecto, recordo uma família que conheci, gente que vivia na impostura de uma classe social decadente. Usavam vasos de flores e candelabros com velas na mesa, enquanto lá da cozinha vinha apenas um modesto caldo de osso...

Em tudo há duas faces, o essencial e o acidental. Não se trata de mera especulação filosófica, mas de algo recorrente na vida das pessoas hoje em dia. Em tudo háimagens, projeções, phantasmas... Em Esopo encontramos aquela fábula do cão que levava carne através de um rio. Lá pelas tantas ele viu sua imagem refletida nas águas e, julgando ser um outro cão, cobiçoso desejou o pedaço de carne que o outro levava. Quando abriu a boca, perdeu aquilo que levava na boca.

A filosofia a partir de Aristóteles contempla a essência como algo sem o qual aquilo não pode ser o que é. Na visão humana a essência é o espírito que anima a vida. É o que dá identidade a um ser, e sem a qual aquele ser não pode ser reconhecido como sendo ele mesmo. Por exemplo: um livro sem nenhum tipo de letras não pode ser considerado um livro, pois o fato de ter letras é o que lhe permite ser identificado e conceituado como um livro e não como caderno ou meramente um amontoado de papéis em branco. No caso do cachorro, a essência era o real, aquilo que ele levava na boca.

O acidente é algo que pode ser inerente ou não ao ser, mas que, mesmo assim, não descaracteriza-se o ser por sua falta (o tamanho de uma flor, por exemplo, é um acidente, pois uma flor grande não deixará de ser flor por ser grande; a sua cor, também, pois, por mais que uma flor tenha que ter, necessariamente, alguma cor, ainda assim tal característica não faz de uma flor o que ela é). Acidental era a imagem da carne vista no espelho da água do rio.

Na filosofia, a identidade constitui objeto de cogitações por variados pensadores e correntes filosóficas, e seu conceito varia, portanto, de acordo com os mesmos. Trata-se do caráter distintivo de cada ser em sua determinada conotação temporal, pessoal e espacial. No ser humano, o espírito, por ser eterno, capaz de promover a animação da vida, é a essência. De outro lado, o corpo, porque é frágil e finito, torna-se o acidente. A essência dura sempre; o acidente não. Na vida é preciso distinguir o que é essencial e o que é acidental.