IMPROPRIEDADES GRAMATICAIS

Prólogo

Em todos os idiomas existem, essencialmente, duas normas linguísticas: A culta e a coloquial. A norma coloquial traduz-se na língua do povo mais simples, dos incultos, dos adolescentes. Despretensiosa, a norma coloquial tem por característica as transformações constantes e incontroláveis por que a língua passa.

A norma culta, ao contrário, reflete a língua literária, mais cuidada, mais elegante, mais bem elaborada. É a norma culta que reflete o bom senso, o bom-gosto, a educação linguística. Também é a norma culta que aprova ou reprova candidatos nos concursos diversificados.

É de bom grado explicar que neste texto não quero ser um ferrenho defensor da norma culta em detrimento da linguagem coloquial. A linguagem coloquial existe e deve ser respeitada.

O que não se deve é dispensar o domínio da norma culta. Isso, certamente, causará dúvidas na interpretação do que se quis comunicar, deselegância e confiabilidade. Compreendo que a norma culta nunca será uma necessidade obrigatória para se comunicar (para isso existe a linguagem coloquial), mas, será sempre uma vantagem.

O ERRO EM SE MESCLAR IDIOMAS

“Handicap” é uma palavra inglesa. Significa desvantagem, e não vantagem como querem alguns jornalistas esportivos, que usam frases mais ou menos assim:

“A seleção brasileira terá um jogo fácil contra a seleção da Alemanha porque jogará com o “handicap” de campo e torcida.”.

Ora, ora, ora... Como vimos e/ou assistimos a seleção da Alemanha, embora jogasse com desvantagem (“handicap”) de campo e torcida, ganhou de nossa seleção canarinho com o placar de 7x1. Esse desastroso resultado, para nós brasileiros, ocorreu durante a malfadada copa do mundo em 2015, realizada no Brasil.

De modo geral os jornalistas esportivos são alvoroçados, vibrantes e muito criativos. Eles inventam expressões idiomáticas, fazem suas próprias regras gramaticais. Quase sempre escutamos ou lemos a palavra plantel em referência a jogadores. Pasmem! Plantel significa Lote de animais de boa raça, especialmente bovinos e equinos, reservados para a reprodução.

Os diletos leitores poderão ler em uma crônica esportiva a rumorosa notícia: “O futebol 7 society vem crescendo em Teresina. E com uma profissionalização maior das competições vem também um maior crescimento dos clubes. Jogando duas competições, com um plantel de 34 jogadores e invencibilidade em todos os jogos de 2016.”. – (SIC).

IMPROPRIEDADES GRAMATICAIS

1. “Aonde ficaremos hospedados? ”. O certo é: Onde ficaremos hospedados? Explicando: Aonde só se usa com verbos dinâmicos, isto é, verbos que indicam movimento.

2. “O erro passou desapercebido. ”. O certo é: O erro passou despercebido. Explicando: Desapercebido significa despreparado, desprovido; estar desapercebido para se defender contra o crime de furto. Eliseu está desapercebido de dinheiro. Despercebido significa: sem ser notado.

3. “Viemos neste instante cumprimentá-lo ”. O certo é: Vimos neste instante cumprimentá-lo. Explicando: Quando a ação se desenvolve no momento em que se fala, usa-se vimos; viemos é forma do pretérito perfeito.

4. “O povo quer a redução da maioridade penal. ”. O certo é: O povo quer a redução da menoridade penal. Explicando: A Constituição de 1988, repetindo o disposto no artigo 27 do Código Penal, dispõe em seu artigo 228 que são penalmente inimputáveis os menores de dezoito anos, sujeito as normas da legislação especial. Portanto, vamos lutar por essa redução da menoridade penal de 18 anos para 16, 14 ou 12 anos.

5. “A frieza dessa água vai lhe fazer mal.”. O certo é: A frialdade dessa água vai lhe fazer mal. Explicando: Frieza só se usa para sentido figurado; significa indiferença. Frialdade é que se emprega para sentido próprio. Portanto, devemos escrever e/ou falar: A frieza de Analu me irrita! A excessiva frialdade do congelador chegou a machucar-me os dedos.

RESPONSABILIDADE NÃO É CRIME! POR QUÊ?

Na nossa sociedade a responsabilidade é uma característica muito apreciada e muito procurada, especialmente no mercado de trabalho, onde um trabalhador responsável é devidamente recompensado pela sua responsabilidade. No entanto, em todo o território brasileiro usa-se a expressão “crime de responsabilidade”. Ora, de uma forma geral responsabilidade é virtude em qualquer atividade humana.

Funcionários de empresas que demonstram responsabilidade muitas vezes são escolhidos para exercerem cargos de liderança (como chefias, gerentes de lojas etc.). Não podemos escrever ou afirmar que Dilma Vana Rousseff cometeu "crime de responsabilidade" porque isso constitui uma heresia gramatical. Expliquei isso no texto recém-publicado: RESPONSABILIDADE NÃO É CRIME!

OUTRAS IMPROPRIEDADES OU CONFUSÕES GRAMATICAIS

Alternativa é diferente de opção. A alternativa se escolhe entre duas opções; a opção se escolhe entre duas ou mais opções mesmas.

Não é isso que nos dão a entender os elaboradores de testes de exames escolares ou provas de concursos. Pede-se que se assinale a alternativa correta ou incorreta daquilo que se apresenta e incluem-se três, quatro ou cinco opções.

Ora, a alternativa, em rigor, só poderia ser assinalada se houvesse apenas duas possibilidades de escolha para a resposta daquilo que se pede.

Não faz muito tempo encontrei um colega de caserna e depois de um fraterno abraço perguntei-lhe: “Tem visto o amigo Gondim? Como está a situação dele depois do AVC?” – Como resposta o nobre colega ex-sargento disse com ar macambúzio:

“A doença do Gondim encontra-se em estágio avançado.”.

Muitos confundem o significado de estádio com o de estágio. Faz estágio quem se prepara para exercer alguma atividade profissional de forma mais duradoura ou definitiva.

O termo que significa época, fase de desenvolvimento, a extensão e a gravidade de uma doença, geralmente um tumor maligno, período, é estádio, que, em muitos casos, pode ser substituído por estado.

Estádio também pode significar campo de jogos esportivos que comporta grande número de pessoas. Claro que compreendi a resposta do colega de caserna, mas, ele haveria se comunicado melhor se houvesse dito algo parecido com:

“O atual estádio de saúde do Gondim não está nada animador.” ou “A doença do Gondim encontra-se em estádio avançado.”.

CONCLUSÃO

Não é demais lembrar: A Edição do Jornal Nacional do dia 05/05/2014, entre outros assuntos relevantes, fez referência a uma pesquisa e mostrou que 40% dos candidatos a uma vaga de estágio foram eliminados por causa de erros de português.

O estudo dos verbos e demais classes gramaticais, principalmente o estudo da regência verbal nos ajuda a escrever melhor. Quem usa o idioma pátrio como ferramenta de trabalho sabe o valor do que estou asseverando. Não é de bom grado um professor, jornalista, advogado, promotor, juiz ou outro profissional de nível superior escrever ou falar:

“Ele já tinha avisado a sua filha os perigos de uma gravidez inesperada durante os festejos momescos.”.

Observamos que “já tinha” deveria ser substituído por “já havia”. É claro que o povão usa de forma trivial o verbo "ter" no sentido de "haver ou existir", mas isso constitui uma aberração formal no idioma português, embora seja compreendido pela força da linguagem coloquial, descontraída, informal.

Um detalhe interessante é que até os mais esclarecidos radialistas que fazem o JN da Globo, assim como nos noticiosos das demais TV, quase todas as noites, dizem: “Já tinha...” quando deveriam verbalizar: “Já havia ou existia...”. A abominável expressão "Já tinha" assemelha-se a outras não menos detestáveis: "A nível nacional, estadual, municipal...".

Os vícios de linguagem são palavras ou construções que vão de encontro às normas gramaticais, e, na maioria das vezes, costumam ocorrer por descuido (desleixo), ou ainda por desconhecimento das regras por parte do emissor.

Aos amigos autodidatas e estudantes solicito que não percam as esperanças e tampouco desejo que percam suas horas de profícuo estudo com este texto simples em demasia. No entanto, aconselho:

Evitem, a qualquer custo, as impropriedades gramaticais porque o conceito de liberdade prende-se diretamente ao número de opções que temos a nosso favor; a relação é diretamente proporcional: mais opções, mais liberdade para criar, mostrar do que são capazes.

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NOTAS REFERENCIADAS

— Novíssima Gramática da Língua Portuguesa - Domingos Paschoal Cegalla;

— Moderna Gramática Portuguesa - Evanildo Bechara;

— Assuntos Relacionados da Academia Brasileira de Letras;

— Papéis avulsos e outros rabiscos do Autor;

— Textos e anotações avulsas (Curso de Pós-Graduação) do autor que devem ser consideradas circunstâncias imparciais.