Eu sou da Lira! Carnavais e Heróis de Santa Cruz RJ

Introdução

O presente texto tem como escopo principal narrar de forma despretensiosa a famigerada “Festa da carne” em um contexto específico, falaremos do carnaval a partir de meados do século XX em um bairro distante do efervescente centro da cidade do Rio de janeiro, o bairro de Santa Cruz, localizado no extremo oeste da cidade, chamada hoje por nós de Zona oeste segregada.

Mas, antes iremos refletir acerca desta festa, nos contextualizar e claro problematizar um pouco a questão. O Carnaval, em sua forma original, surge aproximadamente entre os anos de 600 e 520 a.C. na Grécia, tinha uma configuração muito diferente do que vemos hoje, durante a festa grega, eles realizavam cultos em agradecimento aos seus Deuses, durante algum tempo a festa foi abominada pelos católicos. A partir de 590 d.C. o carnaval passou a ser uma comemoração adotada pela Igreja Católica, e a festa passou a ser comemorada através de cultos oficiais, o que eliminava os “atos pecaminosos”. Tal modificação foi fortemente espantosa aos olhos do povo, já que escapava das reais origens da festa.

Durante o Concilio de Trento, em 1545 o carnaval voltou aos braços do povo, tornando-se novamente uma festa “popular”, e chegou em terras brasileiras aproximadamente em meados do século XVII, com toda a configuração europeia, e apenas no século XIX que os blocos carnavalescos surgiram com os seus carros alegóricos e pessoas fantasiadas. O Brasil adotou o carnaval como sua festa, dando cara nova, jeito especial de comemorar, luz e cores específicas brasileiras; muitos personagens foram incorporados ao carnaval brasileiro, como, por exemplo, Rei Momo, pierrô, colombina, etc. tornando essa uma das mais importantes comemorações do país.

O Carnaval é uma festa popular, que reúne em seu cerne muitas festas populares seculares, Romanas, gregas dentre outros e outras. É uma espécie de celebração das festas, a festa das festas, onde tudo é permitido. O Carnaval é uma construção social, e como construção social se adequa e adapta de acordo com o contexto em que é comemorado, nem todas as culturas ou sociedades tem um carnaval e mesmo as que tem não possuem festas idênticas, e nem sequer semelhantes, o Carnaval Francês não é igual ao norte americano e ambos são diferentes do brasileiro. Dentro do nosso colossal Brasil o carnaval se diferencia, o carnaval da Bahia é sem igual, o de Recife também, o de Manaus, o do Rio de janeiro, todos diferentes e todos brasileiros.

Será que podemos considerar o carnaval como uma festa verdadeiramente democrática, onde as desigualdades são esquecidas durante a festa? Essa é uma pergunta que permeia muitas vezes nossos pensamentos quando ouvimos na mídia esta afirmação, que o Carnaval é a festa mais democrática que existe. Cabe aqui a citação de DaMatta:

As outras [instituições], se têm uma ética forte e preocupação com a definição de fronteiras, são julgadas como instituições ou agremiações antipopulares ou antidemocráticas. A própria noção de democracia, no Brasil, tende a confundir-se com uma posição de bloquear o fechamento de agremiações sociais, o que impede a formação de grupos de interesse politicamente representativos e, consequentemente, politicamente poderosos. Estamos seguros de que é essa estruturação bipartida, de tipo cometa, capaz de juntar a casa (o núcleo) com a rua (a periferia, os outros), que jaz na raiz de movimentos como o populismo político, espécie de Carnaval do poder, onde tudo e nada ficam simultaneamente representados e, aparentemente, resolvidos. (DaMatta, 1987, p. 111)

No Brasil, especialmente, o período de festas, sobretudo o do Carnaval, muitas vezes “mascara” a realidade, temporariamente nas mídias, redes sociais e no dia a dia só fala-se das festas e esquecemos nossos problemas cotidianos, a desigualdade e até mesmo os preconceitos. O Carnaval também é conhecido no Brasil como o período de alta temporada turística, enchendo os cofres públicos, enriquecendo os donos de hotéis e a chamada indústria do carnaval.

De fato é uma festa popular até a página dois, pois devido a apropriação da indústria cultural e dos meios de comunicação de massa, a festa vem sendo transformada em um espetáculo “pra gringo ver”, para agradar turistas e aqueles que estão dispostos a gastar para usufruir do que seria o carnaval de verdade para eles, seja no trios da Bahia, seja nas escolas de Samba do Rio de janeiro. O que ocorre é que muitas das vezes as comunidades são excluídas da participação nas escolas de samba em virtude da participação de “pagantes”, rainhas de bateria não são mais as moças nascidas naqueles territórios onde as escolas se fundam, mestre sala e porta-bandeira também, trocam de escola, mudam de bandeira, de estandarte, não estamos criticando a profissionalização do ofício, de forma alguma, apenas estamos refletindo até onde vão as fidelidades às escolas, se seguem os mesmos caminhos e se defender a escola do coração ainda é divertido e gratificante como seria no início do século XX.

Como já nos disse o antropólogo Roberto Damatta, o carnaval viabiliza o encontro de classes sociais, de grupos e etnias que não circulariam nos mesmos espaços cotidianamente, a troca de papéis sociais é comum, a vida cotidiana, da casa ao trabalho, de muitas pessoas é modificada nesse período. Se a sociedade segrega e uniformiza a festa de carnaval, para quem participa, cria “(..) um cenário e uma atmosfera social onde tudo pode ser trocado de lugar (...)”.DaMatta (1987: 75) O que faz o Brasil, Brasil?

Ainda de acordo com Damatta, o operário, o trabalhador que em dias normais passa pelas ruas movimentadas incógnito, sem ser notado, pode, no carnaval se fantasiar de um rei, aparecer na TV, ser reconhecido e admirado por um grande número de pessoas, pela sua desenvoltura, agilidade de passos e coreografias, graça ou somente pela imagem que representa.

Mas que coisa milagrosa! [...] Carnaval, pois, é inversão porque é competição numa sociedade marcada pela hierarquia. É movimento numa sociedade que tem horror à mobilidade, sobretudo à mobilidade que permite trocar efetivamente de posição social [...] Por tudo isso, o carnaval é a possibilidade utópica de mudar de lugar, de trocar de posição na estrutura social. De realmente inverter o mundo em direção à alegria, à abundância, à liberdade e, sobretudo, à igualdade de todos perante a sociedade. Pena que tudo isso só sirva para revelar o seu justo e exato oposto. (DaMatta, 1987:78).

A partir da reflexão acerca da festa, podemos apreender com pertinentes, os valores, relações, grupos sociais e ideologias que almejam estar além do presente e do futuro, e que definem, de forma mais densa, o caráter ou a cultura de uma sociedade.

Iremos falar aqui de um carnaval que tentam reavivar, o carnaval de rua, carnaval dos blocos, iremos nos ater de um tempo memorável para o carnaval do bairro de Santa Cruz, zona Oeste da cidade do Rio de janeiro, em pleno Regime militar jovens se uniam e realizavam uma forte crítica “pulando” carnaval, mesmo em meio a efervescência da folia estes jovens Santacruzenses não esqueceram dos problemas sociais, políticos e econômicos que os incomodavam e arrumaram um jeito de questionar e reivindicar.

Santa Cruz, Rio de janeiro, saudoso carnaval!

Muitos cariocas já ouviram falar dos carnavais de Sepetiba e Santa Cruz no século XX, bairros distantes, localizados no extremo oeste da cidade do Rio de janeiro, memoráveis carnavais que despertavam o interesse de quem morava em áreas distantes aconteciam nessas paragens e muitos faziam questão de vir desfrutar ao menos um dia desse carnaval original e singular. Iremos nos ater aqui, mais especificamente, ao surgimento de um bloco, bloco este que a nosso ver foi pioneiro no que se propunha e deveria ser sempre lembrado e quem sabe voltar a desfilar, falaremos do chamado Bloco da crítica, mas não sem antes passear pelos seus antecedentes no bairro.

Idembrugo Frazão, em seu texto Carnaval e superação – literatura e memória, destaca que o carnaval propicia inversões de papéis sociais e está presente no imaginário ocidental desde a antiguidade clássica, passando por diversas metamorfoses e transformações. Frazão alega que pelo viés da memória coletiva, a cultura, impregnada na mente dos atores sociais, seja a qual estrato social pertencerem, vem sendo percebida enquanto campo rico em que transitam desde as necessidades educacionais básicas aos traumas mais íntimos dos seres humanos.

Cabe aqui mencionar Halbwachs, a questão central na obra de Halbwachs, consiste na afirmativa de que a memória individual existe sempre e a partir de uma memória coletiva, posto que todas as lembranças são constituídas no interior de um grupo específico. A origem de várias ideias, reflexões, sentimentos, paixões que atribuímos a nós mesmos, são, na verdade, inspiradas pelo grupo.

Em pesquisas bem superficiais, em periódicos regionais, revistas e registros pessoais, acerca do carnaval nos bairros de Santa Cruz e Sepetiba, Zona oeste da cidade do Rio janeiro, podemos perceber que este sempre foi bastante significativo e único para os moradores desta região, Sepetiba com seu banho de mar à Fantasia, onde todos os foliões mergulhavam vestidos com fantasias de papel crepom que se desmanchavam nas águas da praia de Sepetiba e seguiam “pulando” carnaval de roupa de banho, os clubes Náutico do Recôncavo e Regatas de Sepetiba, lotados de foliões, o grêmio Procópio Ferreira mantinha a liderança com a frase propaganda “Bom Carnaval só no grêmio” dentre outros fatos que colocam o carnaval destes bairros na lista dos mais convidativos da cidade.

O Jornal “O Santacruzense” sempre noticiava eventos, concursos dentre outras notícias relacionadas ao carnaval da região, até mesmo críticas sobre a falta de entusiasmo dos moradores, mas é a década de 1930, segundo Sinvaldo Nascimento de Souza, em artigo publicado no “jornal do quarteirão” (Na época Boletim), que é conhecida como a era de ouro do Carnaval de Santa Cruz, que o carnaval deste bairro encontra seu primeiro momento de glória. Três organizações carnavalescas colaboraram para isso: os progressistas, cujos integrantes residiam nas proximidades do Matadouro, a área do fedor, definida picarescamente por Alcir Solé. Os democráticos, formado por moradores do centro de Santa Cruz e o pessoal do lado de cá da estação liderados pelo cenógrafo Francisco dos Santos, eram os chamados furrecas.

O ápice deste período fica por conta dos carros alegóricos, cada organização queria apresentar o melhor, desfilar em grande estilo suas alegorias, e durante o ano inteiro imperava o silêncio e o sigilo mantendo-se o segredo às sete chaves nos respectivos barracões. No ano de 1934 uma falha técnica em um dos carros alegóricos provocou uma tragédia que resultaria na morte de uma jovem santa-cruzense, morta após uma queda de mais de 5 metros de altura, em consequência desse fato, segundo alguns, houve uma decadência, um enfraquecimento do carnaval de Santa Cruz.

No ano de mil novecentos e cinquenta e quatro de acordo com Sinvaldo Souza, jovens que naquela época eram chamados de revolucionários e idealistas por uns e “baderneiros” por outros, que formavam o que chamavam de “turma do sereno”, decidiram realizar uma crítica bem humorada contra os comerciantes locais e o vereador que representava o bairro no período, pois estes não teriam agilizado nenhuma ação para realização do tradicional carnaval de Santa Cruz. Em sua bem humorada crítica fizeram um enterro do comércio local, logo no centro do bairro, na rua Felipe Cardoso, onde tudo acontecia na época, vale ressaltar que ainda hoje é uma das vias principais do bairro. O bloco da crítica surgiu pela primeira vez “pixando” o comércio local, que se recusaria a colaborar para a realização do carnaval naquele ano. A primeira placa satírica dizia textualmente “Comércio rico mas..........de miseráveis”

O vereador, apoiador do comércio e nada satisfeito com a crítica pública e deliberada bradou: “Este bloco se sair, não passará da esquina da Rua Visconde de Sepetiba”, esta rua é uma das transversais da rua Felipe Cardoso, que segue da estação ferroviária de Santa Cruz até o largo do Cesarão, no entroncamento com a Avenida Cesário de Melo e a Estrada da Pedra, querendo dizer que o bloco não conseguiria seguir sem a terça parte do trajeto proposto.

Neste trecho específico da referida rua central do bairro existia uma espécie de ponto de encontro do grupo responsável pela “critica” o chamado Bar do Bolero, cujo proprietário era o senhor Titio, conhecido por seu talento com ornamentação de coretos e clubes e conhecido como o maior cenógrafo da região. Segundo relatos havia um trato entre o bloco dos índios, formado pelo pessoal da rua da Jaqueira, hoje rua General Olímpio, e o comércio local para reter e deter o movimento dos jovens críticos, e se fosse preciso deveriam usar a força. O que acabou de fato acontecendo, segundo relatos do moradores antigos que estavam presentes no episódio mas que não quiseram se identificar, os rapazes “idealistas” seguiam com uma grande faixa com a seguinte inscrição “Comércio de beduínos miseráveis, ladrões”, traziam caixão, simbolizando o enterro do comércio, tocavam música fúnebre, tabuletas e tudo mais externando sua revolta, o que irou o comércio ainda mais.

Esse episódio ocorreu no domingo à tarde, momento em que a rua Felipe Cardoso encontrava-se cheia de foliões, os jovens do bloco ainda sem nome, desfilavam com más intenções, caso fossem impedidos de continuar não aceitariam e revidariam, o que aconteceu. Os membros do bloco dos Índios atravancaram a passagem. Estavam de certo modo, armados, pois carregavam lanças, tacapes dentre outros apetrechos. Segundo relatos da época, quando os dois grupos se encontraram eclodiu uma briga terrível envolvendo os dois grupos em sua totalidade. O Exército – 1º Be comb, que policiava o carnaval e a Aeronáutica – Base Aérea, interviram e prenderam quase todos, os caminhões saíam cheios para a Delegacia de Polícia e o Hospital Pedro II.

Desse movimento, originário desse quebra pau surgiu o Bloco da Crítica, justamente por causa de sua essência ser a crítica, iniciada contra o comércio local, organizado por Mariano Filho, Economista, poeta, compositor, responsável pelo tema, música e censor das críticas. Rubinho e seu irmão, Nichol Aratuba Xavier, comerciante, fotógrafo, proprietário do Foto X2, artista plástico também estava a frente da organização deste icônico bloco, confeccionava máscaras de diabinho, caveiras, burros, carões na organização do bloco era o responsável pelo acervo de fotos, pelos registros, bem como era importante conselheiro. As tabuletas eram todas padronizadas e pintadas pelo carnavalesco Oduvaldo Bello, o Vadinho. A Banda de música que tocava Marcha Rancho era composta por Bocage, Nina, Betinho, Dingo, Tizil, Zé Pescocinho, todos músicos da Banda. Aloysio, Geraldo, Quinca, Biziu, Saliba, outros membros não menos importantes.

A partir de 1954 e durante quinze ou dezesseis anos o bloco da crítica passou a constituir-se no ponto alto do carnaval de Santa Cruz, as suas críticas não eram mais dirigidas apenas ao comércio local, também passaram a criticar as instituições públicas, os cinemas, políticos, clubes e até mesmo a igreja, sabendo da forte censura do período, os rapazes ao dar nome ao bloco e decidir o dia em que desfilariam, sabiamente optaram pelo terça-feira de carnaval às 18 horas, pois assim se fossem presos não correriam o risco de perder a folia.

Embora nunca tenha possuído uma organização formal com diretoria e estatutos, o bloco da crítica se apresentava a cada ano com música própria, sendo que os seus integrantes, todos do sexo masculino, vale ressaltar, vestiam-se com indumentária à moda feminina da época: vestido saco: mini saias, tubinhos, melindrosa, mini blusa, meia arrastão, biquíni e etc. Segundo Mariano filho, fundador do bloco da crítica, a composição de maior sucesso foi balonete:

É balonete....

Você metida neste roupa, me diverte

Pensando que é gostosa,

Se julgando vedete

Se a dona é boa

Fica esquisitinha

Se ele é mimosa

Nunca chega a bonitinha

Siga o meu conselho

Preste atenção

Saia desta saia

Que mulher não é balão

Tema de 1960

Ao que tudo indica, aquela crítica em 1954 foi útil não apenas para o surgimento do mais animado, politizado e organizado bloco já existente em Santa Cruz, o comércio desta localidade mudou seus conceitos, e nos agradecimentos do bloco constava

“Ao nosso valoroso comércio…” Cabe aqui uma breve reflexão, por que um bloco cujo o objetivo além de diversão era realizar uma crítica ao que não estava correto não possuía nenhuma mulher entre os seus componentes? Ao questionar moradores antigos não obtivemos uma resposta definitiva ou que nos satisfizesse, pois segundo seus relatos, não era uma preocupação inseri-las e além disso as moças não costumavam participar deste tipo de manifestação neste período, segundo eles as moças “de família” passeavam pelas ruas e curtiam as matinês nos clubes e não participavam de embates diretos. Também indagamos o motivo pelo qual todos os componentes do bloco vestiam-se com roupas femininas, e a resposta foi unanime, pelo mesmo motivo que hoje muitos rapazes vestem, pela diversão, pela troca de papéis satirizando no carnaval.

O coreto, que durante algum tempo foi a atração máxima do carnaval do bairro, foi construído por João Nicolau Jorge, o João titio, que dedicou-se com afinco ao Carnaval de Santa Cruz. De acordo com Sinvaldo Nascimento de Souza, contou com a colaboração da Sra. Margarida Ciraudo que contribuiu com seus conhecimentos da arte cenográfica. Esta obra de arte denominada “Folia” tinha 15 metros de altura e 10 metros de diâmetro. Além do coreto maravilhosamente decorado, o carnaval de 1959 destacou-se pela criação de um troféu para premiar a melhor associação carnavalesca que desfilasse no domingo de carnaval. Os prêmios eram de CR$ 10.000,00, dez mil cruzeiros antigos como prêmio, assim distribuído: primeiro colocado 5.000,00, segundo colocado 3.000,00 e terceiro colocado 2.000,00. O tão esperado de desfile aconteceu no dia 9 de fevereiro deste ano. A comissão julgadora era composta pelo vereador José Antônio Cesário de Melo, senhor João Dumane, Octávio C Napolis, Dr. Antonio Nicolau jorge, Sr. Lourenço Torres, Sr. José Maria Martins Ribeiro e senhor Jorge Séquin.

Vale lembrar que o conhecido “Seu” Rubinho, ainda muito jovem no início do estabelecimento do coreto carnavalesco de Santa Cruz, nos conta que ajudava em sua “construção” no carnaval, varria em volta etc, e sempre que alguém elogiava o coreto ele dizia “Bonito, não? Eu ajudei a fazer?”

Para o morador e historiador, Sinvaldo Nascimento de Souza, o carnaval que permanecerá na história do bairro será o do ano de 1967, ano do IV Centenário de Santa Cruz, sendo um ano histórico para o bairro, a temática escolhida para o coreto estava relacionada com a história, a heráldica e a iconografia Santacruzense. João titio decidiu estilizar o Brasão Heráldico de Santa Cruz, de autoria de Alberto Lima, no topo do coreto o Brasão foi montado em quatro faces com todos os seus elementos brilhando constantemente, girando como um pião. Na base do coreto a célebre frase “Salve o IV cenenário de Santa Cruz – 1567 – 1967” sendo rodeada por reproduções iconográficas de pontos históricos como o antigo palácio imperial, a ponte dos jesuítas, o palacete do matadouro, fonte Wallace etc. Enquanto isso o carnaval nos clubes já havia adquirido grande fama e o grêmio Procópio Ferreira mantinha a liderança com a frase propaganda “Bom Carnaval só no grêmio”

O Bloco da crítica, cada vez mais satírico, burlesco e sarcástico, sofria as censuras do período, afinal era o ano de 1967, em pleno regime militar. Mesmo assim apareciam críticas que ficaram na história do carnaval Santacruzense: “A regional prometeu que entregava a rua pronta no próximo 4º centão, rua Barão de Loreto, que sobe devagarinho…sempre que há eleição” ou esta “O Beduíno prometeu. Ninguém mais dança de graça na boite do judeu.”

O Bloco da crítica saía sempre as terças de carnaval, a concentração do bloco era no terreno da Fábrica de Sabão, na Rua Olavo; mais tarde, no ano de mil novecentos sessenta e três, passa para a Av. Isabel, residência do senhor Apolônio, até o seu final no ano de mil novecentos e setenta e um. O Bloco da crítica durou quinze anos com organização citada acima, após a saída destes, tentaram dar continuidade mas não passou do início dos anos de 1980.

Alguns moradores mais antigos de Santa Cruz classificam esse bloco como o maior movimento carnavalesco, artístico e cultural da região do século XX, pois de fato, pelos relatos foi inovador, reunia alegoria, criatividade, brilho, composição e crítica, de forma magistral.

Infelizmente, com o chamado “Carnaval nas comunidades” estabelecido pelo governo de Leonel Brizola, Santa Cruz perde seu tradicional Coreto Carnavalesco, a população se dispersa pelos subbairros onde aconteceriam as festas de carnaval, nesse momento tomando a forma de “Festa de rua” como conhecemos hoje, e inicia-se a decadência desse período glorioso do Carnaval deste bairro imperial, embora muitos não reconheçam tal fato. No começo da década de 1980, foram construídos diversos conjuntos habitacionais pela Companhia Estadual de Habitação (CEHAB) que aumentaram consideravelmente a população do bairro, dando-lhe características de bairro dormitório.O bairro foi oficialmente fundado em 23 de julho de 1981

Considerações finais

A festa popular, que tornou-se a marca brasileira no exterior, o Carnaval, representa e apresenta as mudanças e transformações ocorridas no país e claro muitas características dos brasileiros, justamente por ser uma construção social. Por mais que aparentemente fundar um bloco, reunir pessoas, e tudo mais que envolve a organização de agremiações carnavalescas possa parecer divertido, é um processo, bem elaborado, e até mesmo cansativo, mesmo que não estejamos nos referindo ao grande espetáculo do desfile das escolas do grupo especial, mesmo os blocos mais simples, escolas de samba dos grupos de acesso, organizar carnaval de rua, tudo isso engloba esforço e dedicação. Pode-se dizer que trata-se de uma organização espontânea e informal, mas que é rigorosa.

Apenas nos anos de 1980 que o carnaval brasileiro e mais especificamente o carioca, passa a ter o formato que tem hoje. As escolas formalizaram-se a partir da década de 1920 e, apenas no governo Getúlio Vargas, ganharam financiamento público, também controle policial com a exigência de seu registro sob uma denominação padronizada. Contudo as raízes se mantinham, a espontaneidade também e eram os barracos dos morros do Rio de Janeiro que mantinham a abundância do samba que descia para a avenida.

A partir dos anos de 1960 essa configuração vai se modificando, a criação das quadras e a frequência do público, lugares de destaque nos desfiles para ricos e famosos e a partir daí alguns denunciam a descaraterização do samba e a apropriação desta manifestação cultural característica do povo pela elite branca, trilhando esse caminho, seguindo e aprimorando esse modelo , o carnaval torna-se o que vemos hoje, escolas de samba não são mais dos seus territórios e comunidades, tornaram-se um negócio muito lucrativo, os trios na Bahia também.

Nem mesmo os enredos das escolas são de fato originais e descomprometidos, alastrar-se o chamado enredo-jabá, isto é, aquele que é feito para promover um patrocinador, geralmente uma empresa. Houve uma verdadeira industrialização do samba que exclui os verdadeiros sambistas, que exclui o remanescentes dos territórios onde surgiram estas agremiações. O Samba cedeu à indústria cultural, ocasionando a decadência dos temas e da qualidade do Carnaval, o carnaval de rua não é mais como era antigamente, ou segue-se trios de famosos, ou anda-se pra lá e cá em ruas abarrotadas de pessoas sem usufruir de fato da festa, onde estão as turmas de bate-bolas? Onde estão as turmas de índios? Onde estão os blocos autênticos, como o nosso bloco da crítica e tantos outros?

Infelizmente até mesmo o carnaval, uma festa dita democrática, perde a sua essência em decorrência dos apelos da indústria cultural nessa sociedade do consumo, nem mesmo podemos nos despir mais das amarras sociais e nos libertar durante este breve período, como fazíamos antigamente, porque estamos condicionados aos apelos desta indústria, inclusive na exposição e padronização dos corpos.

Mais uma vez destacamos Damatta:

No Brasil, parece que deixamos as instituições totais para áreas mínimas do sistema social. É como se houvesse um preconceito contra os grupos preocupados em definir suas fronteiras externas e internas por meio de uma ética forte. Tais grupos, como a Igreja e as Forças Armadas, são, tudo parece indicar, os únicos que – no Brasil – atuam em escala nacional como verdadeiras instituições totais. (DaMatta,1984, p. 111)

O carnaval enquanto tema possibilita que se vá muito além dos meros aspectos lúdicos que estão em sua base, certa vez ouvi alguém dizer que “passado o carnaval todos colocam suas máscaras”, de fato, como afirma Idemburgo Frazão em seu texto Carnaval e Superação – Literatura e memória, o carnaval é um tema rico de nuanças, vestígios, elementos e passagens relativas ao carnaval podem ser utilizadas como estratégias de superação de problemas inerentes ao relacionamento humano, problemas sociais, tais problemas, segundo Idemburgo Frazão, captados pela memória individual, em sua relação intrínseca com a memória coletiva, influenciam a própria constituição identitária dos atores sociais.

Encerramos aqui com uma citação de Clarice Lispector, “naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.” Ou ainda ser eu mesma e não ser outra, uma das possibilidades da chamada festa da carne.

Referências bibliográficas

DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: Para uma sociologia do dilema brasileiro. 6ª Edição, Rio de janeiro: Rocco, 1987.

FRAZÃO, Idemburgo. Carnaval e superação: Literatura e memória. In: ROCHA, José Geraldo da. NOVIKOFF, Cristina (Orgs.) Desafios da práxis educacional à promoção humana na contemporaneidade. Rio de Janeiro: Espalhafato, 2010.

HALL, Stuart. Da diáspora. Identidades e mediações culturais. Liv Sovic (Org.) Trad. Adelaine La Guardia Resende. Belo Horizonte: UFMG/ Brasília: Representação da UNESCO, 2003.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. Tradução de Beatriz Sidou. São Paulo: Centauro, 2006.

LÖVY, Michel. Utopia e Redenção – o judaísmo libertário na Europa Central. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

Bianca Wild
Enviado por Bianca Wild em 03/02/2018
Reeditado em 13/07/2018
Código do texto: T6244149
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